Moçambique: Bispo vê intenção de se estabelecer califado em Cabo Delgado

“Os sinais existem. Eles falam de califado [forma de governo islâmico]. Quando encontram pessoas, quando capturam, raptam pessoas, eles fazem esse discurso de que já estão aqui com o califado estabelecido”, disse António Juliasse, citado hoje num comunicado da fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), aludindo aos ataques de extremistas em Cabo Delgado.

A província enfrenta desde outubro de 2017 uma insurgência armada associada a grupos extremistas ligados ao Estado Islâmico, conflito que já provocou cerca de 6.500 mortos e forçou milhares de deslocados, segundo dados de organizações internacionais.

Na mesma posição, o bispo criticou o silêncio das autoridades face à situação, pedindo que intervenham antes que seja tarde: “este é um assunto que deve preocupar as forças que governam o país, que deve preocupar também todas as forças vivas da sociedade, antes que seja tarde demais”.

O responsável religioso pediu ainda que se evite o alastramento do conflito naquela zona, com um discurso capaz de “enfrentar a situação”, referindo não compreender a dificuldade das autoridades, nomeadamente “para orientar as pessoas” e com as devidas explicações: “Onde é que nós vamos, o que está a ser feito, o que nós esperamos, o que nós devemos fazer todos juntos como povo moçambicano”.

Em 02 de maio, António Juliasse disse à Lusa que um grupo de extremistas destruiu completamente a histórica paróquia de São Luís de Monfort, construída em 1946, e raptou civis, em 30 de abril, em Ancuabe, na província de Cabo Delgado.

O ataque ocorreu na aldeia de Meza, no distrito de Ancuabe, por volta das 16:00, com os grupos a ocuparem a região até às 20:00 do mesmo dia, avançou o bispo, referindo que houve profanação dos lugares e dos objetos sagrados, numa “violência horrível” e que “provoca muita dor”.

Na nota de hoje da AIS, o bispo é citado a lamentar o discurso de ódio que “acompanha toda a ação” dos extremistas, num contexto em que, considerou, a religião “começa a dividir as pessoas”.

 “A religião, que durante muito tempo facilitou a convivência entre as pessoas, começa a ter dificuldades. A religião começa a dividir as pessoas”, referiu o bispo de Pemba, recordando que, antigamente, naquela província, os cristãos participavam em funerais de familiares muçulmanas, e vice-versa.

“Hoje, isto começa a ser questionado. E não é por causa dos cristãos. Então, o que é que está a acontecer?”, apontou, em alusão também ao silêncio que considerou “difícil de ser lido e cria uma grande confusão”.

O bispo pede soluções, mas descarta a via armada, reconhecendo somente o diálogo. “É preciso encontrar vários outros caminhos e também o caminho que Moçambique já conhece, que é o caminho do diálogo. O povo moçambicano precisa de dialogar para que esta guerra termine”, defendeu.

De acordo com dados avançados pelo representante religioso à Lusa, pelo menos 300 católicos foram mortos, maioritariamente por decapitação, e mais de 117 unidades da igreja destruídas desde o início do conflito armado em 2017.

A organização de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED, na sigla em inglês) estima que a província moçambicana de Cabo Delgado tenha registado 11 eventos violentos nas duas últimas semanas, 10 dos quais envolvendo extremistas do Estado Islâmico, que fizeram nove mortos, elevando para 6.527 os óbitos desde 2017.

De acordo com o mais recente relatório da ACLED, dos 2.356 eventos violentos registados desde outubro de 2017, quando começou a insurgência armada em Cabo Delgado, 2.184 envolveram elementos associados ao Estado Islâmico Moçambique (EIM).

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