Mário Gomes: «Portugal tem melhores jogadores do que a maioria pensa» – Basquetebol Portugal


Mário Gomes, selecionador nacional masculino há quase uma década, foi o convidado do 9º episódio do ‘Dois para um’, o podcast conjunto de Record e da Federação Portuguesa de Basquetebol que conta também, no lote de entrevistadores, com o antigo internacional português João Santos – e que pode ver na íntegra no site e YouTube de Record. Aos 69 anos, passou em revista toda a sua vasta carreira que começou na década de 80, com especial enfoque no trajeto à frente da equipa das quinas, cujo ponto alto foi a presença no EuroBasket’25… até ao momento. É que o apuramento para o Mundial’2027, que a concretizar-se seria algo inédito, é um sonho bem vivo para o experiente técnico.


“Eu acredito. E quanto aos jogadores, querem tanto ou mais do que eu. A derrota na Roménia, na primeira fase, pesa um ‘bocadão’, mas só deixo de acreditar quando já não for possível. E isto não é da boca para fora, é assim mesmo. Mas não é por termos ganhado os jogos que já ganhámos que agora somos uma das cinco melhores equipas da Europa. Não somos. Nesta altura, somos uma equipa forte e boa. Só que para ganhar temos que estar no nosso melhor nos dois lados do campo. Se não estivermos, qualquer adversário nos pode bater. A Roménia também não é qualquer equipa, como se pensa. Mas nunca me tinha acontecido marcar 96 pontos fora e perder. Relativamente à situação em que estamos, o grupo é um bocado imprevisível. A Ucrânia está em vantagem porque não tem marcado golos na própria baliza. Quanto a nós, as vitórias que nos poderão faltar agora não são contra a Geórgia. Devíamos era ter passado a primeira fase com mais triunfos”, analisou Mário Gomes, apontanto a necessidade de melhorar em casa: “jogamos mais serenos fora de casa. Em casa, o pessoal quer tanto ganhar e resolver as coisas logo que, às tantas, a ansiedade toma conta e perdemos ali os papéis por uns minutos.”


Embora Portugal não seja uma potência da modalidade, Mário Gomes não tem dúvidas de que o nosso país “tem melhores jogadores do que a maioria pensa”. “Sem bons jogadores, não seria possível fazermos os resultados recentes. E não é só quando estão o Neemias Queta e o Rúben Prey. O que não pode acontecer é eles não darem tudo o que têm para chegarem ao máximo que podem chegar. Por vezes sinto isso no basquetebol português, falta exigência permanente. Agora já não lhes digo, mas antes, ao longo deste percurso, disse-lhes ‘vocês arriscam-se a terminar a carreira sem saber onde é possível chegar’. E não vou falar em nomes, mas há lá um ou dois que ainda estão nessa e que podiam chegar mais longe se não tivessem determinadas crenças metidas naquelas cabeças.”

A experiência no EuroBasket’25


A chegada aos oitavos de final do Campeonato da Europa do ano passado constitui, garante Mário Gomes, o “melhor resultado” da sua carreira. Mas o selecionador explica que esse sucesso começou muito antes, mais concretamente em fevereiro de 2023, quando Portugal se apurou para a qualificação ao perder por apenas 8 pontos na Bulgária. “É um momento decisivo, em que conseguimos resistir perante a melhor Bulgária dos últimos anos, com Vezenkov e McIntyre. Senti aí que a malta passou a acreditar mais em si própria. E hoje em dia já não é preciso estar com essas conversas, vamos para qualquer jogo para competir, faz parte da nossa cultura”, contou o técnico.


Depois, na fase final, Mário Gomes recordou um trajeto onde havia “dois jogos decisivos”, a abrir e a fechar, contra República Checa e Estónia, que terminaram com vitórias fundamentais para o apuramento para os ‘oitavos’. “A partir do momento em que ganhámos o primeiro jogo, a crença aumentou muito. Como treinador, sofrer 50 pontos numa fase final e ganhar um encontro em que alguns jogadores nossos não puseram uma bola lá dentro…, pensei que seria difícil ganharem-nos. A seguir levámos aquela ‘porrada’ contra a Turquia mas não abalámos. Depois, houve aquele contratempo contra a Estónia, com uma decisão inqualificável do árbitro espanhol [n.d.r.: deu a segunda técnica a Neemias]. Uma coisa é não termos o Neemias desde o início, outra é durante o jogo. Estávamos a começar a mandar naquela altura e se ele tem continuado, eles levavam uma ‘porrada’. Mas a forma como a nossa equipa reagiu foi a demonstração de que a cabeça estava no sítio certo.”


Ainda assim, Mário Gomes não tem dúvidas em apontar aquele que foi o melhor desempenho de Portugal nesse EuroBasket: “Foi contra a Sérvia [derrota por 69-80] e onde depois o Pesic [selecionador sérvio] fez aqueles elogios do arco da velha lá no hotel. Não ouvi, contaram-me.”

Mário Palma como “grande referência”


Mário Gomes era o adjunto de Mário Palma no Benfica que encantou em Portugal e na Europa na década de 90. Numa equipa que tinha Carlos Lisboa como expoente máximo, o atual selecionador nacional destaca a marca distintiva daquela formação das águias. “Eu não seria o treinador que sou hoje se não tivesse feito parte daquela equipa. Além do talento e do treinador principal, tinha uma coisa fora do vulgar, pois foi o grupo mais competitivo que encontrei até hoje. Aprendi muito com o Mário Palma, que é a minha grande referência na alta competição”, destacou.


Elegendo Carlos Lisboa como o jogador mais talentoso que orientou na carreira e o Benfica-Partizan, na antiga Taça dos Campeões, como o jogo mais marcante da carreira, Mário Gomes deu vários exemplos da exigência que se vivia nesse balneário. “Perdemos por 3 pontos, creio, em casa daquela grande equipa do Barcelona, que tinha o Karnisovas e cujo treinador era o Aíto. Qualquer outra equipa ficaria com a sensação de dever cumprido, não é? Mas estava na cabine e perto de mim tinha o Rogério Fernandes, um brasileiro cuja época no Benfica não correu bem. Mas aquele jogo em Barcelona sim e ele estava a ver a estatística. O Carlos [Lisboa] entra no balneário, vê-o a olhar para a estatística e foi direito a ele. Vocês não estão bem a ver… ‘Isso não interessa para nada. Nós perdemos!’ Sacou-lhe aquilo da mão e rasgou tudo. Era uma equipa assim. E tenho a clara noção de que ter feito parte daquela equipa tem muito a ver com a forma como tenho trabalhado agora com a Seleção Nacional”, garantiu.


No ‘Este ou Aquele’ final, ainda assim, Mário Gomes elegeu Neemias quando este ficou emparelhado com Carlos Lisboa: “Não troco nunca os meus jogadores (risos). Acho que o Carlos não levará a mal, mas o Neemias chegou onde mais nenhum jogador português conseguiu e devemos realçar isso”.

Táticas feitas num restaurante


A dada altura da conversa, João Santos questionou se era verdade ou mito urbano as histórias de táticas feitas no antigo restaurante Gaivota, em Algés. E Mário Gomes nem pestanejou. “Confirmo que era realidade, fazia parte da cultura dos treinadores de basquetebol. As toalhas ficavam preenchidas [com desenhos] e aproveitámos muita coisa. Um dos grandes desenhadores era o Eliseu Beja. Foi um ponto de encontro de muita gente. Começou por acaso e depois já era gente de todas as modalidades. Aquilo era praticamente sessões de formação diárias e recíprocas entre o pessoal. O Manuel Campos, grande jogador e treinador, era um desenhador do arco da velha e quando chegávamos a alguma conclusão, ele passava aquilo a limpo e o pessoal ficava com o playbook privado. Durou muitos anos mas julgo que esse convívio entre treinadores e gerações perdeu-se. O Gaivota já não existe mas às terças-feiras ainda almoço com algumas dessas pessoas. Os desenhos são menos mas continuamos a falar sobre basquetebol”, contou o selecionador nacional, abrindo-se a porta ao regresso dos convívios de forma mais intensa e com mais pessoas.


Crédito: Link de origem

- Advertisement -

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.