Depois de um curso em Estudos Africanos na Faculdade de Letras de Lisboa, Artolash reconhece que “a insistência em criar conteúdos em crioulo é um esforço para não deixar morrer tradições orais” e a língua mais falada no arquipélago africano onde nasceu. Além disso, comunicar em crioulo não foi um obstáculo à sua expansão — os vídeos humorísticos que faz são bastante populares não apenas junto dos habitantes de Cabo Verde, mas também entre os emigrantes na diáspora.
“Mesmo com poucos seguidores e experiência limitada, comecei a viajar, para a Suíça, França, Luxemburgo, Estados Unidos, Alemanha… Estamos em toda a parte”, admite, em referência aos cabo-verdianos. “Fui fazer um espectáculo na Holanda à frente de 960 pessoas no anfiteatro Oude Luxor, em Roterdão. Eu saio de Cabo Verde, de um bairro pobre, e uns anos mais tarde estou num palco que Edith Piaf já pisou.”
O público de Artolash é de origem africana, os temas que aborda também — desempenha várias personagens, entre as quais “a mãe cabo-verdiana”, que “tem muito conteúdo para ser explorado e é sempre gargalhada fácil” ou “o delinquente”, que satiriza a atualidade do país de origem. Contudo, a vinda para Portugal foi determinante para o percurso que viria a descrever na indústria do entretenimento. “Com a internet comecei a ver vídeos d’Os Contemporâneos [programa de sketches da autoria das Produções Fictícias] e dos Gato Fedorento. Basicamente, cheguei [ao país] nas férias de verão e, entre junho e setembro, não saí de casa”, recorda.
“Antes, tinha de ir para uma biblioteca pública e pagar 50 contos para ter meia hora de internet”, explica Artolash. “Chegar a Portugal e conseguir aceder a tanta comédia fez-me perceber que eu não estava só nem era estranho — porque em Cabo Verde era considerado um palhaço, no mau sentido. Aqui, vi que havia mais pessoas [interessadas no humor] e que era uma coisa boa e bem vista.”
Com um pé em Lisboa e outro no arquipélago onde nasceu, Carlos às vezes pensa em regressar a Cabo Verde, sobretudo “pelo custo de vida” na Europa. “Lá, toda a gente da minha geração tem uma casa e […] temos mais facilidade em poupar alguma coisa, o que aqui em Portugal está cada vez mais difícil.”
Atualmente, o humorista trabalha mais para Cabo Verde do que para Portugal e sagrou-se o primeiro a fazer um espectáculo de stand-up nas ilhas africanas. “Os Cabo-verdianos Não Conhecem Limites foi o primeiro especial de comédia em crioulo [de sempre], e o primeiro especial de comédia a pisar o território de Cabo Verde”, admite, celebrando outro compatriota muito reconhecido nos dias que correm, o guarda-redes da seleção cabo-verdiana de futebol, Vozinha.
“No Mundial, protagonizámos jogos incríveis contra equipas favoritas, conseguimos sobressair e fazer o mundo olhar para Cabo Verde de forma diferente. As pessoas já sabem onde é que fica Cabo Verde”, nota o comediante, que acompanhou a jornada dos Tubarões Azuis no campeonato. “Isso mostra que [lá] há muito talento, muita coisa boa, que as pessoas estão a descobrir agora. Na comédia, tento fazer o mesmo, porque sei que tenho muito mais para dar em crioulo do que em português e sei que a diferença que eu consigo fazer em Cabo Verde é enorme”, conclui.
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