São Paulo – A geração que cresceu sob o impacto de intensas campanhas antitabagistas é, paradoxalmente, a que mais consome tabaco atualmente no Brasil. Dados inéditos de uma pesquisa do A.C.Camargo Cancer Center com a Nexus, Pesquisa e Inteligência de Dados acendem um alerta vermelho para a saúde pública: 19% dos jovens de 16 a 24 anos declaram-se fumantes ativos, de cigarros comuns ou eletrônicos.
A pesquisa entitulada “A saúde do brasileiro, hábitos de vida e o uso de tecnologia em diagnósticos médicos”, mostra que a Geração Z acima está acima da média nacional de tabagismo 17% e de todas as demais faixas etárias do País.
A divulgação do estudo coincide com o Agosto Branco, campanha nacional de conscientização sobre a prevenção e os riscos do câncer de pulmão. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima a ocorrência de 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil para o triênio de 2026 a 2028, reforçando a urgência de erradicar o tabagismo, presente em cerca de 85% dos diagnósticos respiratórios no País.
Fumo passivo
Os riscos revelados pelo estudo, no entanto, não se restringem aos fumantes ativos. O levantamento aponta que um em cada três brasileiros (33%) convivem frequentemente com fumantes por perto, seja no ambiente de trabalho ou dentro de suas próprias casas.
Essa exposição involuntária, conhecida como tabagismo passivo, é especialmente preocupante em duas frentes:
- Geográfica: a região Sul lidera o índice de exposição, com 41% de convivência frequente com o fumo;
- Etária: os mesmos jovens de 16 a 24 anos que lideram o consumo ativo também são os mais expostos ao fumo passivo (37%).
O líder do Centro de Referência de Tumores de Pulmão e Tórax do A.C.Camargo, Helano Freitas, adverte que o impacto dessa exposição pode demorar a se manifestar formalmente, isso porque o tabagismo passivo é um fator comprovado de aumento no risco de câncer de pulmão, mesmo para quem nunca acendeu um cigarro.
“Ver a faixa mais jovem da população liderando o consumo e, ao mesmo tempo, a exposição involuntária mostra que essa conquista não está garantida. Em oncologia, o intervalo entre a exposição e a doença se mede em décadas: o que observamos hoje entre os jovens é um dado que ainda não virou diagnóstico” observa.
Ilusão da saúde
A pesquisa revelou um paradoxo intrigante sobre a percepção de bem-estar dos fumantes: 63% dos que fumam classificam a própria saúde como “ótima” ou “boa”. O percentual é ligeiramente superior ao das pessoas que nunca acenderam um cigarro (61%) — embora a diferença esteja dentro da margem de erro, indicando que, no mínimo, os fumantes se sentem tão saudáveis quanto os não fumantes.
Além disso, o cigarro raramente vem sozinho. O estudo constatou que o tabagismo costuma ser a porta de entrada para um estilo de vida prejudicial: 84% dos fumantes acumulam outros hábitos nocivos em sua rotina diária, como o sedentarismo e o consumo excessivo de frituras e alimentos ultraprocessados. Em contrapartida, 18% de quem nunca fumou afirma não ter nenhum hábito prejudicial à saúde, o dobro do registrado entre os fumantes ativos (9%).
Por outro lado, o abandono do tabaco costuma desencadear uma reorganização geral na vida do indivíduo. Os ex-fumantes registraram a maior concentração de apenas 1 hábito ruim em toda a pesquisa (44%), com baixos índices de múltiplos deslizes, sinalizando que a decisão de parar de fumar frequentemente vem acompanhada de escolhas gerais mais saudáveis no dia a dia.
Sobre o estudo
A pesquisa foi realizada com base em 2.015 entrevistas presenciais com cidadãos de 16 anos ou mais, abrangendo as 27 Unidades da Federação. O trabalho de campo ocorreu entre os dias 25 e 30 de junho de 2026. A amostra foi controlada por quotas de sexo, idade, população economicamente ativa (PEA), região e condição do município, garantindo rigor estatístico aos resultados. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%.
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