Segurança pública, soberania e educação: Arrancou a campanha eleitoral no Brasil com Lula e Bolsonaro na frente da corrida – Mundo


Arrancou no domingo a campanha para as eleições presidenciais do Brasil, marcadas para 4 de outubro. Lula da Silva, atual presidente e líder do Partido dos Trabalhadores (PT), começa com vantagem nas sondagens, mas disputa o primeiro lugar com Flávio Bolsonaro, senador do Partido Liberal (PL). Além deles, há 11 candidatos, com menor expressão.  





Lula da Silva e Flávio Bolsonaro deram início à campanha presidencial de 2026
EPA/ISAAC FONTANA e EPA/ANTONIO LACERDA


Lula da Silva escolheu o estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo, na região metropolitana do estado de São Paulo, para o pontapé de partida da campanha. O local tem uma simbologia associada, já que foi lá que liderou greves pelos direitos trabalhistas, enquanto líder sindical nos anos 1970.  


Também aí acabou por ser preso, em 2018, pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, decisão que o Supremo Tribunal Federal veio a anular, um ano e sete meses depois. Esta é a sétima vez que Lula da Silva concorre às eleições presidenciais, depois de ter vencido três mandatos (2003 a 2006; 2007 a 2010; e 2023 até ao presente). 


Já Flávio Bolsonaro optou pela praia de Copacabana, no estado do Rio de Janeiro, um cenário já conhecido entre os seus apoiantes. Por lá, quis retomar o legado dos comícios promovidos pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso por tentativa de golpe de Estado. Foi detido no ano passado e condenado a uma pena de 27 anos de prisão.  


Com um colete à prova de balas e uma camisa verde e amarela, as cores da bandeira brasileira, Flávio Bolsonaro discursou para os apoiantes em cima de um camião de som. “Estou aqui com toda a humildade, aceitando essa missão que o Presidente Bolsonaro me passou, porque eu tenho a convicção de que há um propósito de Deus para o nosso país”, disse. 


Bolsonaro pai continuará presente na campanha do filho, já que, esta segunda-feira, Flávio rumará a Juiz de Fora, no estado de Minas Gerais, onde Jair levou uma facada em 2018. Em vários momentos do seu discurso de domingo, fez referência ao pai, defendendo que Jair Bolsonaro sempre defendeu a democracia. O senador disse ainda que, mais do que filho de Jair, “é filho do Brasil” e que todos ali são irmãos, resgatando várias frases atribuídas ao seu pai, como “Deus acima de tudo”. 


Os três estados escolhidos pelos candidatos constituem os maiores colégios eleitorais do país, reunindo 42% da totalidade dos eleitores (65,5 milhões de pessoas).  


Atualmente, todas as sondagens apontam Lula da Silva em primeiro lugar, mas sem votos suficientes para vencer na primeira volta. O balanço mais recente da Polling Data – cujo agregador de pesquisas compila informação e estima intenções de voto – aponta Lula da Silva com 40,1% e Flávio Bolsonaro com 33,3%. 


Se nenhum candidato alcançar mais de 50% dos votos, o Brasil voltará às urnas para uma segunda volta, a 25 de outubro. As previsões para a segunda volta indicam um empate técnico entre Lula da Silva e vários dos outros candidatos. 

Segurança será um dos principais temas da campanha


A segurança pública foi um dos principais temas abordados por ambos os candidatos nos discursos de domingo, dado que a criminalidade é uma das maiores fragilidades do país. 


O plano de campanha de Lula da Silva aponta como prioridade a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) e a ampliação das ações de combate ao feminicídio. Avançou, durante o discurso, a criação do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que prevê uma “maior participação do governo federal no combate ao crime”. “Eu vou criar o Ministério da Segurança Pública para dividir responsabilidade com estados e municípios, para libertar o povo das vilas mais pobres”, afirmou. 


A par do investimento no combate ao crime, Lula da Silva quer apostar na educação porque “é fácil matar o bandido numa favela”, mas importa “evitar que o adolescente cresça e vire bandido”. Os chefes do crime organizado são também um alvo: “O cara que manda está morando no condomínio e nós precisamos acabar com eles para poder acabar com o debaixo.” 


Flávio Bolsonaro também abordou o tema e, como habitual, usou-o contra o seu principal opositor. Afirmou que a atual gestão “não enfrenta os bandidos e assassinos” e que a população perdeu soberania sobre os próprios bens e patrimónios, alvos de assalto e roubos. Acrescentou que pretende resgatar a soberania do Brasil ao classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho e outras milícias como organizações terroristas. 


O liberal quer ainda reduzir a maioridade penal para os 16 anos e, em caso de crimes graves, para os 14. Vislumbra a construção de cinco novas prisões federais de segurança máxima, destinadas à detenção de chefes de grupos criminosos, prevê o programa eleitoral.  


O candidato propõe também medidas de bloqueio de ativos e combate à lavagem de dinheiro. O envolvimento de Fábio Lula da SIlva, filho do presidente, num caso milionário de corrupção na Segurança Social poderá ser usado por Flávio Bolsonaro como arma de arremesso contra a campanha do PT.  


O senador disse também que será o próximo presidente do Brasil porque vai “enfrentar o sistema podre” e prometeu fazer mudanças no Supremo Tribunal Federal (STF). Nesse sentido, prometeu indicar juízes para o STF contrários ao aborto, à legalização das drogas, que “não vão perseguir adversários políticos” e que “respeitarão a Constituição”. 

Saúde continua marcada pelo negacionismo de Jair Bolsonaro


Na saúde, o atual presidente quer reforçar a qualificação dos atendimentos, aumentar as equipas e a oferta de exames. No domingo, criticou a “direita que ficava dando risada das crianças que estavam morrendo por falta de remédio; uma direita que é responsável pela morte de 400 mil pessoas durante a pandemia de Covid-19 por irresponsabilidade com a vacina”. 


O PT quer ainda “ampliar e democratizar o acesso a medicamentos e incorporar novas tecnologias ao sistema; combater o negacionismo, defendendo a ciência e a vida, recuperando as coberturas vacinais”.  


Flávio Bolsonaro distingue-se do pai relativamente à vacinação. Depois da postura negacionista de Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19, o filho defende a manutenção de campanhas de vacinação e o incentivo à produção nacional de vacinas.  


O candidato de extrema-direita propõe também criar uma plataforma eletrónica, vinculada ao CPF (Cadastro de Pessoas Físicas, um número que reúne informações pessoais como nome, data de nascimento, endereço, entre outras) e integrado no Gov.br. O objetivo é reunir no mesmo sítio informação sobre consultas, exames, vacinas e prescrições.  Flávio 

Educação enfrenta risco de abandono escolar


Lula da Silva pretende apostar na amplificação da educação em tempo integral. O modelo consiste em jornadas diárias de pelo menos sete horas, que permite apoiar alunos em situações vulneráveis. Em declarações ao jornal brasileiro G1, o coordenador da campanha de Lula da Silva, Edinho Silva, frisou que, entre 2023 e 2025, o PT criou “1,8 milhão de matrículas na escola integral”. Em caso de reeleição, o partido tenciona “universalizar esse modelo porque sé através da educação será possível trazer o desenvolvimento que o país precisa”.  


O programa Pé-de-meia, um incentivo financeiro para a permanência e conclusão da escolaridade, será outra das prioridades, a par do investimento em obras em institutos de ensino e universidades. Segundo Edinho Silva, o programa reduziu o abandono escolar em “43%”. O Instituto Tecnológico de Aeronáutica, a Universidade Indígena e a Universidade do Desporto são alguns dos estabelecimentos de ensino onde o PT quer investir.  


Flávio Bolsonaro quer “colocar a família no centro das políticas públicas e a defender “uma escola que ensina, e não que doutrina”. O plano liberal propõe priorizar o método fónico de alfabetização, assim como no governo de Jair Bolsonaro, que ensina a criança a ligar cada som à sua letra. Prevê também a implementação do “Programa Acolher”, onde um aluno com bom desempenho seria pago para ajudar os colegas que precisam.   

Lula quer soberania nacional e Flávio Bolsonaro assume-se represetante externo do Brasil


Lula da Silva sublinhou a soberania brasileira ao defender a indústria nacional: “Não queremos só exportar os minerais brutos para depois importar produtos.” Vislumbra, por isso, que toda a cadeia produtiva, assim como os seus benefícios, se fixem no país.  


No campo da política externa, Flávio Bolsonaro disse que é o único que tem “credibilidade e capacidade para resgatar a credibilidade do Brasil perante o mundo” e que os eleitores podem escolher “dois caminhos: ou o caminho da prosperidade, ou o caminho das trevas”. 


“Porque eu sou o único que se pode sentar com os Estados Unidos, com a China, com Israel, com o Médio Oriente, com a Índia e com a Argentina e fazer os melhores e maiores acordos comerciais pelo bem da nossa nação”, acrescentou. 

Corrida conta com 13 candidatos


Apesar de tudo indicar para que a presidência do Brasil esteja destinada a Lula da Silva ou Flávio Bolsonaro, há mais 11 candidatos na corrida eleitoral: Ronaldo Caiado (Partido Social Democrata), Romeu Zena (Partido Novo), Renan Santos (Partido Missão), Augusto Cury (Avante), Hertz Dias (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados), Samara Martins (Unidade Popular), Clariana Barão (Democracia Cristã), Rui Costa Pimenta (Partido da Causa Operária), Edmilson Costa (Partido Comunista Brasileiro), Pablo Marçal (Partido Renovador Trabalhista Brasileiro) e Wilson Grassi (Democrata).  


A partir de 23 de agosto, decorrerão os debates televisivos. São apenas quatro e ainda não é conhecida a participação de cada candidato em cada um dos debates. A campanha termina a 1 de outubro, três dias antes do ato eleitoral. 


Além do presidente, os brasileiros vão escolher os governadores dos 27 estados do Brasil, senadores, deputados federais e regionais. Os cadernos eleitorais apontam para um total de 158,6 milhões de eleitores. 

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