Um dia na piscina dos Tubarões Azuis: o Maisfutebol por dentro da seleção de Cabo Verde

Passavam cinco minutos das nove da manhã – é por volta dessa hora que desembarco no porto de Tróia depois de apanhar o ferry das oito e meia em Setúbal. Era cedo, mas o dia já ia longo. 

Limitei-me a seguir os restantes tripulantes do barco. Todos com destinos diferentes – uns deslocavam-se para trabalhar, outros apenas por lazer. Tanto segui que rapidamente encontrei o meu caminho, de forma inesperada.

Era logo ali à direita. Senti o cheiro da relva e reparei que havia um campo. Tive de ir lá espreitar – sem saber que era mesmo esse o local. Ao chegar, chama-me logo a atenção uma lona gigante.

«Nu bai, Tubarões Azuis. Nõs Óra Dja Txiga»

Ou seja: «Vamos, Tubarões Azuis. A nossa hora já chegou», traduzido de crioulo.

Pronto, estava certo. Só podia ser aqui o quartel-general cabo-verdiano. Enquanto a relva era regada, à espera dos protagonistas, eu continuava preso naquela lona, confesso. Lembrei-me até de uma música. 

«Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida», cantava Manuel Freire 

Mas que ligação têm estas duas frases, afinal? É bastante simples, na realidade. A seleção de Cabo Verde deixa que o sonho comande a vida, ao mesmo tempo que afirma, com todas as letras, que a sua hora chegou.

É verdade. 51 anos de independência. Mais de meio século depois de ter conquistado a liberdade, o país vai viver algo extraordiário: os Tubarões Azuis vão participar pela primeira vez num Mundial e Cabo Verde vai andar nas bocas do mundo.

Afinal de contas, não deve haver um evento que ofereça tanta projeção a um país como este.

Foi por isso, porque estes dias são a história a acontecer à frente dos nossos olhos, que o Maisfutebol foi viver um dia inteiro com a seleção africana. Aconteceu no sábado, precisamente véspera do triunfo folgado frente à Sérvia – num mar azul, vermelho e branco que cobriu o Estádio do Restelo, em Lisboa, até às orelhas.

Mas era ali, naquele relvado de Tróia, que o dia começava. É de lá, nos mares que cobrem esta zona do distrito de Setúbal, que os tubarões azuis miravam para o maior oceano do futebol mundial.

O treino está marcado para as dez da manhã. A equipa técnica, ainda sem Bubista, chega quarenta minutos antes e ouve-se alguém a cantar o Anel de Rubi, de Rui Veloso. O adjunto Filipe Neto distribui os cones do aquecimento pelo relvado e outro membro do staff oferece-me uma banana.

«Com este calor…», justifica-se. Agradeci a gentil oferta, mas recusei.

A música volta a ouvir-se pouco depois, quando chega a equipa, e desta vez a culpa é de Jovane Cabral: o jogador do Estrela da Amadora trazia a coluna que animava a manhã.

Entre sorrisos e acenos, a equipa vai chegando. Há quem estenda a mão para cumprimentar. Outros, mais concentrados de fones nos ouvidos, apenas acenam a cabeça. O treino começava logo ali, e os jogadores já estavam concentrados. Uns aproveitam para fazer um pouco de bicicleta antes de entrar no relvado – entre eles Sidny Lopes Cabral, lateral do Benfica.

Entretanto, no relvado, vai-se fazendo tempo até que todos estejam prontos. Bubista apita duas vezes para avisar que o treino tem de começar, e da segunda já com evidente autoridade.

Agora sim. Tudo pronto para a única sessão do dia.

A equipa começa com os habituais exercícios de aquecimento e continua com um pouco de «brincadeira»: dois grupos, jogadores de mãos dadas (a formar um círculo) e a cumprir um trajeto, enquanto davam toques. Era competição. No final houve foto dos vencedores.

Alguns perdedores, espertos, tentaram entrar na foto dos vencedores. Quem nunca?

Foto tirada, agora vamos à parte séria. Já não é possível filmar ou fotografar: vinha aí o trabalho tático. Os jogadores treinam vários momentos do jogo, e sempre com Bubista muito ativo na comunicação – duro quando tinha de ser, mas também elogioso quando alguém o merecia.

Num momento de pausa, fazem-se apostas. O objetivo é marcar da parte detrás da baliza e está a valer 100 euros (houve quem sugerisse 500). Telmo Arcanjo conseguiu. Resta a dúvida: já recebeu?

Agora sim, regressam ao relvado, para treinar a saída de pressão. «É só a bola entrar que eu corro», partilha Jovane, depois de marcar um golo.

«Simples e bem feito», pede Bubista aos jogadores.

Mais tarde foi tempo de trabalhar, também, bolas pardas. Pelas onze e vinte e três termina a sessão. Há quem fique a bater penáltis – com o capitão Ryan Mendes a destacar-se pela perícia da marca dos onze metros.

«Estão cá há quanto tempo?», pergunto aos membros da equipa técnica que assistiam este momento final. «Há uma semana», respondem-me. Perguntam-me prontamente se tinha descendência cabo-verdiana. Na verdade tenho. Nasci em Portugal – na Amadora – mas os meus pais nasceram em Cabo Verde, na Ilha de São Vicente – local que visito frequentemente. 

Um dos médicos da equipa identificou-se logo comigo. É de lá também. Mostrou-me fotos na zona onde nasceu e cresceu – para minha surpresa, nunca lá estive. Deve ser dos poucos lugares de São Vicente que não conheço. Disse-me que é médico do Hospital de Faro e que já trabalhou no Farense. Veio para Portugal estudar e por cá ficou. Uma realidade muito comum no povo cabo-verdiano – a minha mãe, por exemplo, foi igual. 

Entretanto os jogadores vão recolhendo aos balneários. Bubista aproveita para, agora ele, fazer um pouco de bicicleta. Lá fora, com membros do staff, houve ainda tempo de falar sobre… Ronaldo. «Há alguns portugueses que não o querem como titular na seleção», refiro.

Heldon, ex-Sporting que marcou a antiga geração cabo-verdiana, olha com um ar de indignado e questiona: «Quem é que jogará no lugar dele então?».

Finda a conversa era tempo de regressar ao hotel. Recebi boleia da equipa técnica e chegámos perto do meio-dia. Cerca de 20 minutos depois chega a equipa.

Bubista passa, sempre muito alegre. «Tudo tranquilo?», pergunta-me. Jogadores vão também entrando, entre sorrisos a abraços. O treino tinha corrido bem, essa era a prova viva.

A seguir era hora de almoço, mas antes há quem faça videochamada com amigos e familiares. Outros entram diretamente no local. O almoço iria decorrer numa sala privada do hotel.

Eis que chega um membro do staff. «Sete minutos!», ouve-se alguém a gritar. Estava atrasado… e valia multa! Deu para perceber que a quantia aumentava a cada minuto.

«Foram só três minutos», tentou justificar-se. Mas, ele sabia – teria de pagar, não havia volta a dar.

«Estágio? A equipa está a dar uma boa resposta»

Quinze minutos para a uma da tarde: é hora de comer e a regra é simples. Primeiro servem-se os jogadores e depois o staff técnico. Enquanto esperamos, Bubista surge ao meu lado.

«Lembra-se de mim?», pergunto-lhe. Tinha feito uma entrevista quando o Sidny assinou pelo Benfica. «Bem que estava a reconhecer a tua cara», respondeu-me.

Conversou sobre estar confiante pera o jogo da Sérvia – o tempo haveria de mostrar que aquela confiança fazia sentido. Quanto ao estágio até então, a reposta foi simples e concreta: «A equipa está a dar uma boa resposta», disse, como um pai que fala do próprio filho.

O trânsito acalmou e, aí sim, pudemos servir-nos. Na sala, havia uma mesa comprida para os jogadores. O staff estava dividido entre três outras mesas, comigo lá pelo meio.

Noto que há um grupo de quatro jogadores que ficou na ponta esquerda. Chamou-me a atenção por estarem a falar holandês. Eram eles Sidny (Benfica), Livramento (Casa Pia), Jamiro Monteiro (Zwolle) e Laros Duarte (Puskas Academy).

Do outro lado da mesa, esse mais barulhento, outros jogadores metiam-se entre eles, relembrando alguns lances do treino da manhã. Seguia-se a viagem de autocarro para Lisboa marcada para as duas e vinte da tarde.

Enquanto esperamos, aproveito para conversar com um membro do staff médico. «Têm dado trabalho», confessa. «É nestas alturas que acarretam todas as pequenas lesões da temporada.»

Descobri mais tarde que é amigo de infância do meu tio, Crisóstomo. Jogavam à bola juntos. «Tens um outro tio, que é o irmão mais novo do Crisóstomo, que era muito bom jogador», disse-me. «Esse, na verdade, é o meu pai», respondi.

Foi aqui que tive a confirmação que o meu pai não me mentiu: parece que afinal tinha algum jeito para o futebol. 

Do elevador vão surgindo os jogadores – sempre sob olhar atento dos restantes residentes do hotel. Um grupo de quatro pessoas ficou à espera num ponto específico. Queriam que os jogadores autografassem… a caderneta do Mundial.

Viagem de autocarro é sinónimo de… dormir

Chegou então a hora de partir. Bubista senta-se na primeira fila do lado direito. Os jogadores – como é habitual nos autocarros das equipas – todos nas filas de trás.

A viagem durava cerca de duas horas de Tróia até ao hotel em Lisboa. As opções eram muitas – uns conversam, outros prepararam-se logo para dormir, outros ouviam música nos fones e os restantes limitavam-se a ouvir a música da coluna – que, ao contrário de manhã, tinha agora o volume mais reduzido.

«Tudo pronto?», pergunta o motorista. Era hora de arrancar.

Os quilómetros vão passando e o silêncio toma conta do autocarro. Já muitos se «entregaram» ao sono. Lá atrás, na última fila e no lugar do meio, está Jovane de chapéu na cabeça, fones nos ouvidos e cabeça inclinada… provavelmente a sonhar com a estreia no Mundial.  

À chegada ao hotel, cruzam-se dois mundos. O autocarro do Farense, que iria enfrentar o Belenenses nessa noite pela permanência da II Liga, estava estacionado à porta.

Duas equipas que iriam jogar no Estádio do Restelo hospedas no mesmo hotel. Coincidência? Provavelmente não.

«Ainda vais reencontrar-te com o José Faria», atirei ao Jovane. Dito e feito. Minutos depois conversaram um bocadinho à porta do hotel. Era o reencontro com o antigo treinador do Estrela da Amadora e certamente tinham muita conversa para pôr em dia.

Check In feito já perto das cinco da tarde. Era tempo livre. Praticamente todo o plantel sobe para os quartos – a maioria ficava no oitavo piso. Duas exceções – Vozinha e Laros Duarte – optam por sair do hotel. Já Pico, defesa central, dava uma entrevista na receção.

Plano da tarde? Assistir à final da Liga dos Campeões, e analisar alguns dos possíveis adversários no Mundial. Mas, antes disso, é hora do lanche.

Divididos entre duas mesas, os jogadores iam reabastecendo as energias com tablets a dar o jogo. A final já tinha começado e não queriam perder pitada.

De barriga cheia era altura de subir para uma sala privada. Era lá que iriam assistir à final, mesmo que com algumas dificuldades. O jogo estava a ser transmitido num computador e a ser projeto no ecrã. Por vezes falhava e provocava algumas reações, mas fazia parte.

Houve tempo para… oferecer cromos

Na verdade, estavam lá pelo convívio. Iam mostrando coisas nos telemóveis e partilhando algumas conversas pessoais. Ao intervalo meti-me com Jamiro Monteiro, que estava sentado à minha frente. Tinha algo para lhe oferecer – um cromo dele da caderneta do Mundial, que me tinha saído repetido.

«Já tens?», pergunto-lhe. «Não», disse-me com um sorriso rasgado. «Toma, é teu», respondi.

«Obrigado, mano», agradeceu-me alegre, guardando na capa do telefone. Não tem de agradecer. Se há alguém que merece ter o cromo é… o próprio.

Começa a segunda parte do jogo e o PSG empata com golo de Dembélé. «Ballon D’Or», grita Bechimol. Minutos mais a transmissão falha novamente… e não há sinais de que regresse tão cedo. Descemos para a entrada, na zona do bar, onde havia três televisões a transmitir o jogo.

Era lá que alguns dos jogadores acompanhavam a final entre familiares e amigos. De repente, o bar do hotel era um convívio da seleção – com alguns turistas pelo meio.

Stopira chega como «herói nacional»

Eis que chega o homem do momento – Stopira. Juntou-se ao estágio apenas no sábado, depois do play-off com o Casa Pia e da final da Taça. Parecia um herói nacional, porque na verdade o é.

Entre abraços sentidos, apertos de mão calorosos e sorrisos como quem reencontra um irmão anos mais tarde, o central do Torrense foi recebido como uma verdadeira estrela.

Tinha de lhe dar uma palavrinha. Mostrei-lhe o vídeo no Jamor, em que descia as bancadas rodeado de adeptos do Torreense. «Estavas lá?», pergunta-me com um sorriso de orelha a orelha… «Obrigado!», acrescenta.

«Nervoso ou ansioso para o Mundial? Ambos»

Enquanto muitos jogadores aproveitavam o tempo com família e amigos, havia um nome que não tirava os olhos da final. Era Kelvin Pires, defesa de 25 anos. É internacional sub-19 por Cabo Verde. Sei bem porque partilhou essa convocatória com o meu primo, Paulo Soares. 

Abordei-o. «Jogaste com o meu primo», atirei. Ao dizer-lhe o nome… «É verdade, e foi cá em Lisboa também». Foi em 2019 num amigável contra Portugal. Nomes como Sidny Cabral e Telmo Arcanjo também constavam nessa convocatória. 

Pela seleção principal, Kelvin Pires tem apenas cinco jogos e está prestes a cumprir o sonho. «Nervoso ou ansioso para o Mundial?», perguntei. «Ambos», confessa. Por enquanto a estreia não lhe tira horas de sono… mas a situação ameaça mudar a qualquer momento.

«Estamos a cerca de duas semanas…», recorda

Joga no SJK, da Finlândia, desde 2023. Ainda não sabe o que o futuro lhe reserva, mas admite que o Mundial será uma boa montra.

Do outro lado da sala está Wagner Pina, que venceu a Taça da Turquia com o Trabzonspor, a receber dois amigos numa altura em que a final avançava para os penáltis. Falam sobre como o jogo com a Sérvia estava a ter muita adesão.

«Estavam a vender bilhetes a cinco euros», atira um dos amigos. Valeu a pena, foram cerca de 18 mil espetadores no Restelo, confirmou a federação.

«Raya merece ser o titular de Espanha»

Retomam a atenção para a televisão e é Viktor Gyökeres quem avança para bater. «Esse não falha», refere Wagner. Conhece-o bem, jogou contra ele quando representava o Estoril.

Pouco depois foi a vez de Nuno Mendes… que permitiu a defesa de Raya. Wagner Pina não tem dúvidas. «É ele que merece ser titular na seleção espanhola», refere.

Cabo Verde faz a estreia no Mundial precisamente com a seleção espanhola no próximo dia 15 de junho.

O PSG lá venceu e, diga-se de passagem, o resultado alegrou a grande maioria presente no hotel. Seguia-se o jantar marcado para as oito e meia da noite. Desta vez com alguns adeptos a serem convidados para estarem presentes.

Para registar, foi tirada uma foto do grupo. Houve, porém, uma exceção. Bechimol, que tinha pintado o cabelo de loiro, estava ainda a meio do processo… e digamos que estava naquele momento com um aspeto peculiar. Recusou-se a entrar na foto, para gozo dos colegas.

«Se essa foto chega às redes sociais…», justifica-se. «Então pagas multa», respondeu um colega. «Pago sem problema», afirmou o antigo avançado do Benfica e Estoril.

A meio do jantar surgiram mais convidados que fizeram questão de fazer uma visita. Mas o melhor estava guardado para o fim. Bruno Varela, ex-Benfica que é internacional cabo-verdiano, também fez questão de estar com a equipa.

O guarda-redes de 31 anos sofreu uma grave lesão e por isso ficou de fora do Mundial. «Só nesta semana é que deixei as muletas.» Com ele trouxe um fotógrafo e amigos, que aproveitaram para pedir autógrafos aos jogadores.

Jovane ainda com futuro incerto 

Jovane pede-me ajuda para assinar umas camisolas do Estrela da Amadora. Queria que agarrasse numa das pontas. Enquanto o faz, confirma-me que não continuará no Estrela.

«Vais para o Mundial com ou sem clube?», pergunto-lhe. «Ainda não sei», respondeu-me. Será certamente algo que está na cabeça do avançado.

Depois do jantar os treinadores fazem uma reunião técnica numa sala privada. A direção também reúne, precisamente na mesa onde jantaram.

Já entre os jogadores há quem receba tratamento médico, enquanto outros convivem. Entre assinar camisolas, bandeiras e cromos, sente-se o ambiente familiar. Bruno Varela e Telmo Arcanjo aproveitam para relembrar os tempos do Vitória de Guimarães.

Tudo assinado já por volta das dez da noite e é hora de subir para o oitavo piso. «Sobe também, estamos lá todos no corredor», convidam-me. Agradeci, mas não ia dar.

Há que recarregar e reconectar depois de um dia em cheio. No dia seguinte era dia de jogo. Agora era o momento deles.

Quanto ao jogo… que bonito que foi. Aqueles «tubarões» nadaram pelo Restelo e aplicaram uma vitória à Sérvia difícil de prever. Serve para dar confiança para os mares turbulentos que se avizinham.

Na segunda-feira regressaram ao quartel-general em Tróia para fazerem recuperação, antes de, nesta terça-feira, viajarem para os Estados Unidos – mais concretamente para Boston.

Está a chegar a hora: a hora de fazer história. Não se esqueçam que o «sonho comanda a vida». 

Nu baiii tubarões azuis, no prova ma kel li ê noss hora.

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