A brutalidade deste fetiche ultrapassou as fronteiras da vida e encontrou um álibi na pseudociência da época. Quando Sara morreu na miséria e doente, aos 26 anos, a violação do seu corpo atingiu o nível mais macabro nas mãos de anatomistas franceses. O seu cadáver foi dissecado, e os seus órgãos e cérebro foram guardados em potes de formol para tentar “provar” biologicamente uma suposta inferioridade racial. A intenção era justificar, de bata branca, a hipersexualização que eles próprios tinham criado. O nível de desumanização foi tão profundo que os restos de Sara foram tratados como troféus do racismo científico, ficando expostas num museu de Paris até ao ano de 1974.
E para quem pergunta: “o que é que a história de Sara tem a ver com “a mulher mais bonita de África” neste Mundial?”
Tem tudo a ver. Nos dias de hoje, resgatar a história de Sara Baartman vai muito além de recontar uma tragédia do passado; é entender a raiz profunda das violências estéticas que as mulheres negras ainda enfrentam na sociedade moderna. Mostrando como tudo se mantém atual, o desfecho desta narrativa só encontrou alguma justiça em 2002, quando Nelson Mandela conseguiu obrigar a França a devolver os seus restos mortais à África do Sul. Enterrada finalmente com honras e dignidade no seu país de origem, Sara deixou de ser o alvo do olhar do colonizador para se erguer como o símbolo definitivo de resistência contra a objetificação e a mercantilização do corpo feminino.
Por isso, é de extrema importância que deixemos de objetificar as mulheres africanas, de reduzi-las e de ignorar a sua pluralidade. Cabo Verde tem mulheres bonitas? Tem, é um facto. Mas o resto do continente africano também tem.
Precisamos de ir mais fundo e compreender que esta comparação da mulher cabo-verdiana como a “mais bonita de África”, muitas vezes justificada pelas “misturas” e pela miscigenação, carrega consigo uma bagagem colorista evidente. Esse elogio disfarçado assenta frequentemente na ideia de que, para ser considerado belo, um corpo ou um rosto deve aproximar-se de traços mais europeus, lidos como mais finos ou esbranquiçados. Isto acontece porque o padrão de beleza que nos foi imposto historicamente é um padrão branco e eurocêntrico. Sob esta ótica colonial, tudo o que foge radicalmente desse padrão é categorizado como inferior, feio ou indesejável, enquanto tudo o que se aproxima é celebrado como o ideal.
À primeira vista, este argumento pode parecer contraditório: afinal, como é que a mulher africana pode ser simultaneamente hipersexualizada pelos seus atributos físicos e, ao mesmo tempo, rejeitada por não cumprir um padrão europeu? A verdade é que não há contradição nenhuma, são duas faces da mesma moeda colonial. O racismo estrutural funciona precisamente desta forma ambivalente: por um lado, animaliza, consome e objetifica o corpo negro através do fetiche pelos seus traços físicos e corporais; por outro, estabelece uma hierarquia estética eurocêntrica que dita que, para ser socialmente aceite como “bela”, essa mesma mulher precisa de se aproximar o mais possível da branquitude. É um jogo perverso onde a mulher africana é validada pelo desejo exótico, mas desumanizada pela norma estética.
Portanto, desconstruir esta frase exige um esforço para olhar além do óbvio, sendo crucial refletir e analisar criticamente todas as camadas de preconceito e racismo estrutural que se escondem por detrás dessa aparente exaltação.
Resta deixar a pergunta: a mulher cabo-verdiana vai continuar a ser vista como bonita mesmo depois de o Mundial acabar?
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