Terremotos no Peru e na Colômbia têm alguma relação? Entenda

O terremoto que atingiu o sul do Peru na quinta-feira, 20, e o forte abalo registrado na Colômbia dez dias antes ocorreram em uma das regiões de maior atividade sísmica do planeta. Embora tenham acontecido em países diferentes, os dois episódios compartilham uma característica geológica, segundo especialistas ouvidos pelo Estadão: ambos estão localizados no chamado Cinturão de Fogo do Pacífico

O Instituto Geofísico do Peru (IGP) apresentou uma medição diferente para o mesmo evento: magnitude 7,2 e profundidade de 108 quilômetros. Dados preliminares das autoridades peruanas apontam ainda danos em 22 residências, seis escolas e 12 unidades de saúde.

Dez dias antes, em 10 de agosto, a Colômbia havia sido atingida por um terremoto de magnitude 7,4, segundo o USGS e o Serviço Geológico Colombiano. O epicentro ficou próximo a San José del Palmar, no departamento de Chocó, a cerca de 100 quilômetros de profundidade.

O impacto na Colômbia foi muito maior. Segundo balanço divulgado pela Unidade Nacional para a Gestão do Risco de Desastres (UNGRD), na quarta-feira, 19, o terremoto deixou 319 mortos, 4.469 feridos e 260 desaparecidos. Mais de 272 mil pessoas foram afetadas em 476 cidades de 15 departamentos. O órgão contabilizou ainda mais de 151 mil casas danificadas, 30 mil destruídas e 302 edifícios que desabaram.

Moradores fazem buscas entre os escombros de um edifício após o terremoto que atingiu a Colômbia Foto: Miguel Ángel López/AP

O que os dois terremotos têm em comum?

O sismólogo José Alexandre Nogueira, do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP), explica que tanto o terremoto colombiano quanto o peruano ocorreram dentro do Cinturão de Fogo do Pacífico, uma extensa faixa de intensa atividade sísmica ao redor do oceano.

“É a zona sismicamente mais ativa do mundo. Cerca de 90% dos terremotos e cerca de 75% dos vulcões estão dentro dessa zona”, afirma Nogueira. Países como Chile, Peru, Colômbia, Japão e Indonésia fazem parte dessa região e, por isso, apresentam elevada atividade sísmica.

Segundo o USGS, terremotos e erupções vulcânicas não estão distribuídos aleatoriamente pelo planeta. A maior parte ocorre em determinadas regiões, sobretudo nas fronteiras entre placas tectônicas. O Cinturão de Fogo concentra justamente áreas de encontro entre diferentes placas ao redor do Pacífico.

É essa característica que conecta geologicamente os dois terremotos recentes. “Tanto o terremoto do Peru quanto o terremoto da Colômbia têm essa característica em comum”, explica Nogueira.

Por que há tantos terremotos nessa região?

O geólogo da USP Pedro Cortês explica que existem placas tectônicas continentais e oceânicas. As oceânicas são mais densas e, quando colidem com placas continentais, tendem a mergulhar por baixo delas.

Na costa do Pacífico da América do Sul, esse movimento exerce pressão sobre a placa sul-americana. A colisão provoca uma deformação da placa continental relacionada à formação da Cordilheira dos Andes e também acumula tensão nas rochas.

“O terremoto acontece quando a tensão entre as placas é muito grande e as rochas acabam rompendo. Quando ocorre a ruptura, ela gera uma onda de choque, que é o terremoto”, explica Cortês.

Esse mesmo processo ajuda a explicar por que terremotos e vulcões aparecem com frequência nas mesmas áreas. À medida que a placa oceânica mergulha sob a continental e alcança regiões muito quentes, parte de seu material derrete. Uma parcela desse material pode retornar em direção à superfície, dando origem à atividade vulcânica.

Por isso, segundo Cortês, as áreas mais suscetíveis a terremotos devido à colisão das placas também costumam apresentar vulcanismo. É justamente a presença de numerosos vulcões que dá origem ao nome Cinturão de Fogo no Pacífico.

Nogueira acrescenta que a região onde ocorreram os dois terremotos também pode registrar abalos em grandes profundidades, característica observada nos episódios recentes. O tremor colombiano ocorreu a cerca de 100 quilômetros de profundidade. No Peru, o USGS calculou 66,7 quilômetros, enquanto o IGP apontou 108 quilômetros.

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