Peru reforça Escudo das Américas, a iniciativa de Trump contra os cartéis (e a influência da China)

O Peru é o último país a aderir ao Escudo das Américas, uma aliança de segurança regional liderada pelos EUA para a partilha de informações e a cooperação em operações militares contra os cartéis de droga na região. “Fazemos coisas más a pessoas más”, é o lema do grupo, segundo o secretário de Defesa norte-americano, Pete Hegseth.

A iniciativa nasceu oficialmente numa cimeira em Doral, na Florida, em março e foi crescendo à medida que a direita ganha força na região, chegando já a cerca de duas dezenas de integrantes. Brasil e México, liderados pela esquerda, são ausentes de peso.

“Agradecemos esta oportunidade pois, tendo enfrentado o terrorismo no passado, sabemos quão difícil é combater a criminalidade hoje”, disse a presidente peruana Keiko Fujimori, que tomou posse em finais de julho.

A atual chefe de Estado é filha do falecido presidente Alberto Fujimori, que liderou o combate ao Sendero Luminoso nos anos 1990, tendo sido acusado de violações de direitos humanos.

As declarações de Keiko foram feitas depois de ter recebido o secretário de Estado norte-americano. “Este é um escudo contra as ameaças à soberania destas nações independentes”, explicou Marco Rubio.

“É um escudo contra estes grupos criminosos transnacionais que, em muitos casos, dispõem de mais dinheiro e de melhor equipamento militar do que o Estado. Isto é inaceitável, e a única forma de os derrotar é enfrentá-los com firmeza”, acrescentou, dando as boas-vindas ao Peru.

Na cimeira inaugural do Escudo das América estiveram presentes o presidente norte-americano, Donald Trump, e os líderes de 12 países latino-americanos alinhados ideologicamente com o atual inquilino da Casa Branca: Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai e Trindade e Tobago.

Foi na cimeira de Doral, em março, que os EUA e 12 países latino-americanos lançaram a iniciativa “Escudo das Américas”.

Entretanto, outras nações aderiram: Bahamas, Belize, Guatemala, Jamaica e Colômbia. E agora o Peru.

A vertente operacional do Escudo das Américas é a Coligação das Américas Contra os Cartéis.

Para além da luta contra o narcotráfico, vários analistas consideram que o projeto tem uma dimensão geopolítica mais ampla. O próprio Trump tem falado da “Doutrina Donroe” (de Donald, a sua própria versão da doutrina Monroe, que colocava a América Latina na esfera de influência dos EUA).

Num estudo publicado pelo National Interest, o analista Adam Ratzlaff argumenta que Washington quer reforçar a sua influência no hemisfério através de uma rede de governos politicamente próximos, ao mesmo tempo que tenta conter a crescente presença da China.

Durante a visita ao Peru, Rubio criticou precisamente a influência económica chinesa, numa altura em que o país andino se tornou um dos principais destinos de investimento chinês na região.

Ao aliar-se apenas com governos “amigos” na região, os EUA podem limitar a capacidade da iniciativa se transformar numa verdadeira arquitetura regional de segurança, segundo uma análise do Stimson Center.

Num artigo na plataforma Latinoamérica21, o analista Alberto Maresca também avisa que o Escudo das Américas corre o risco de funcionar mais como uma aliança política, exportando alinhamentos ideológicos a partir de Washington em vez de construir consensos abrangentes.

Uma análise da organização especializada InSight Crime assinala que, vários meses após a criação da coligação, continuam por demonstrar os efeitos reais sobre os fluxos de droga na região.

Também permanece por provar a eficácia da campanha marítima norte-americana que, desde setembro de 2025, atingiu quase 70 embarcações suspeitas de narcotráfico nas Caraíbas e no Pacífico e provocou pelo menos 227 mortos.

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