Tecnologia, geopolítica e desenvolvimento – parte 2 –

Por PEDRO PAULO ZAHLUTH BASTOS*

A articulação de parcerias com a China em energia e inteligência artificial visa converter vantagens comparativas em soberania tecnológica e produtiva

Parcerias estratégicas

Proponho três eixos concretos de parcerias estratégicas com a China, todos mais ou menos dependentes da reforma fiscal que defendo. Tais eixos não dependem tanto da cooperação chinesa quanto da vontade política nacional, mas podem ser muito apoiados por ela. O objetivo não é apenas atrair investimentos, mas assegurar transferência de tecnologia, através de licenciamento apoiados pelos dois governos e, eventualmente, com formação de empreendimentos conjuntos (joint ventures) que incluam cláusulas explícitas de transferência tecnológica e produção local de componentes de alta intensidade tecnológica.

A China possui tanto o interesse estratégico (diversificar cadeias produtivas diante de pressões ocidentais) quanto a capacidade tecnológica para viabilizar esse tipo de parceria. Isso exige contrapartida brasileira: capacidade de co-investimento via capitalização de estatais, algo impossível sob o atual arcabouço fiscal, ou financiamento de longo prazo de empresas privadas alinhando-o com finalidades estratégicas via empréstimos do BNDES e/ou participação do BNDESPAR.

Primeiro eixo: transição energética. O Brasil possui vantagens comparativas evidentes em energia renovável – hidrelétrica, eólica, solar, biomassa – e já conta com um ecossistema de geração renovável robusto (EPE, 2025), com empresas privadas como Engie Brasil, Neoenergia, CPFL, Omega Green (ex-Omega Energia), Elera Renováveis e Auren Energia (ex-AES Brasil), além de estatais como Eletrobras e Petrobras. A WEG, maior empresa de equipamentos elétricos da América Latina, já atua em sistemas de armazenamento de energia por baterias (BESS) e forneceu infraestrutura para a planta pioneira de hidrogênio verde de Furnas em Itumbiara/MG, em parceria com Unicamp, Unesp e Senai (WEG, 2021).

Contudo, há lacunas críticas na cadeia produtiva: na fabricação de painéis fotovoltaicos de alta eficiência, oito dos dez maiores fabricantes mundiais são chineses, enquanto a participação de módulos nacionais em nosso mercado caiu de 35% para 1% entre 2020 e 2024  (BNDES SETORIAL, 2025); a WEG encerrou a produção de turbinas eólicas em 2024, em contexto já descrito como  a maior crise da indústria de energia eólica e solar no Brasil (BLOOMBERG LÍNEA, 2025); e o mercado de baterias de escala e eletrolisadores para hidrogênio verde ainda é incipiente no país (ABSOLAR, 2024).

A proposta, portanto, não é necessariamente criar novas estatais ou joint ventures para cada segmento, mas combinar o fortalecimento das capacidades industriais existentes – via capitalização pela BNDESPar, financiamento da Finep e encomendas tecnológicas – com aporte tecnológico chinês nas lacunas onde o Brasil não possui base industrial. Esse aporte pode se dar por múltiplas vias: licenciamento de tecnologias, acordos de P&D conjunto entre empresas brasileiras e chinesas, participações cruzadas ou, onde necessário, joint ventures com cláusulas explícitas de transferência tecnológica e produção local de componentes.

Ampliar investimentos para expandir capacidade produtiva e obter capacitação tecnológica, contudo, só será possível caso sejam resolvidos outros dois problemas que afligem o setor de energia renovável: (i) a carência de redes de transmissão para levar a energia gerada no Nordeste ou nos telhados de áreas metropolitanas até áreas carentes de energia e (ii) as limitações técnicas e a escassez de capacidade de armazenamento, em baterias, da energia gerada de dia para uso à noite ou em períodos de seca, concorrendo com o poderoso lobby das usinas termoelétricas.[i]

Resolver essas outras questões envolve embate político, planejamento complexo e capacidade de investimento da Eletrobrás, o que por sua vez se choca com o arcabouço fiscal e com os limites políticos à ampliação da participação da União na governança da estatal depois da privatização parcial realizada no governo Bolsonaro. Ampliar investimentos e empregos no setor elétrico, reduzir custos de energia elétrica e, ao mesmo tempo, caminhar para reduzir emissões de gases de efeito estufa é bandeira que mobiliza amplos grupos sociais.

Segundo eixo: inteligência artificial e economia digital. A corrida pela supremacia em inteligência artificial é um front central da competição tecnológica global. O Brasil não tem capacidade de competir globalmente com Estados Unidos ou China nesse campo, mas já possui iniciativas relevantes de aplicação de inteligência artificial a especificidades nacionais – iniciativas que operam, contudo, de forma fragmentada, subfinanciada e com alcance limitado.

Vou dar exemplo de três domínios em que uma política nacional coordenada pode escalar essas iniciativas, garantindo financiamento estável e as integrando a parcerias internacionais de transferência tecnológica.[ii] Todas essas iniciativas dialogam com grupos sociais resistentes ao governo Lula, na agricultura de pequenos e médios proprietários e seus assalariados, na oferta de serviços médicos, na indústria de transformação.

Uma quarta possibilidade será discutida com mais vagar adiante, dialogando diretamente com a categoria de motoristas e entregadores que se consideram autônomos na sua relação com plataformas monopólicas de aplicativos digitais e que resistem à perda de autonomia associada à “intervenção” estatal.

Agricultura de precisão tropical

O Brasil é o maior exportador mundial de soja, café, açúcar, suco de laranja e proteína animal, mas opera com produtividade média por hectare inferior à dos concorrentes em culturas como milho e trigo (CONAB, 2024; USDA, 2024). A aplicação de IA à agricultura de precisão tropical já é realidade no país: startups como Agrosmart, Solinftec e BrainAgro aplicam inteligência artificial em monitoramento climático, automação de maquinário e gestão de lavouras de café, cana e soja; e a Embrapa coordena uma Rede de Agricultura de Precisão que, em mais de uma década, produziu resultados expressivos – economia de até 30% em fertilizantes, aumento de produtividade de 15% a 20% (EMBRAPA, 2024) e acurácia de 97% no mapeamento de uso do solo no Cerrado com algoritmos de inteligência artificial (BOLFE et al., 2023).

Modelos de inteligência artificial treinados com dados de sensoriamento remoto e imagens de satélite e drones já demonstraram capacidade de identificar pragas, deficiências nutricionais e estresse hídrico específicos de cultivares tropicais, por meio de índices espectrais como NDVI e NDWI (MELO et al., 2021), e algoritmos de aprendizado de máquina alimentados por dados meteorológicos regionalizados conseguem prever safras com meses de antecedência (SHARMA et al., 2021).

Embora convênios internacionais possam contribuir para resolver o problema, o gargalo principal não é tecnológico, mas de acesso e escala: mais da metade das propriedades rurais brasileiras ainda não possui conectividade adequada, e o custo inicial permanece proibitivo para pequenos produtores.

O que se pode propor é uma política pública que financie a expansão da conectividade rural e subsidie o acesso de pequenos e médios produtores a essas tecnologias, liderada pela Embrapa em parceria com universidades públicas — especialmente as faculdades de agronomia, computação e engenharia agrícola das regiões produtoras –, desenvolvendo modelos abertos calibrados para condições tropicais e subtropicais, um ativo tecnológico ainda insuficiente nos grandes provedores globais de inteligência artificial.

É claro que as redes de conectividade criadas para esses fins também contribuem para levar acesso à internet a populações afastadas dos grandes centros urbanos e aos equipamentos urbanos das pequenas cidades e vilas.

Gestão de biomas complexos e bioeconomia. A Amazônia e o Cerrado são biomas de biodiversidade e complexidade ecológica sem paralelo, cuja gestão exige monitoramento contínuo em escala continental. Neste domínio, o Brasil já é referência mundial. O INPE opera os sistemas PRODES e DETER há décadas, e em setembro de 2025 lançou o Deter Não Floresta (Deter NF), que utiliza inteligência artificial para identificar degradação em formações não florestais da Amazônia, ampliando o monitoramento diário para todo o bioma (INPE, 2025).

O programa BiomasBR já integra sensoriamento remoto, inteligência artificial e Big Data para gerar dados de desmatamento em todos os biomas brasileiros. Em 2025, pesquisadores da PUC-Rio desenvolveram, em parceria com INPE, Ibama e MMA, um modelo de capaz de prever com até 15 dias de antecedência as áreas com maior risco de desmatamento na Amazônia Legal, já em operação na plataforma TerraBrasilis e disponibilizado a 67 municípios amazônicos (FEITOSA et al., 2025).

Essas capacidades, contudo, dependem de financiamento contínuo e proteção institucional do INPE contra cortes orçamentários. O que se pode propor é garantir recursos estáveis para a expansão desses sistemas a todos os biomas – a Mata Atlântica, a Caatinga e o Pampa ainda não têm cobertura diária – e para o desenvolvimento de modelos de inteligência artificial de próxima geração, por consórcios entre o INPE, universidades amazônicas (UFPA, UFAM, UEA, INPA etc.) e centros de computação avançada (LNCC, UNICAMP, USP, PUC etc.), com transferência tecnológica de parceiros internacionais.

Ademais, tal política deve conectar-se com incentivos à bioeconomia ou à economia circular nos biomas, com manejo sustentável de culturas florestais e incentivos à agregação de valor e à criação de marcas associadas à refinação dos produtos das florestas e matas, se possível mobilizando cooperativas de produtores (BASTOS, 2023c).

Saúde pública em escala continental. O SUS atende 215 milhões de pessoas em um território de dimensões continentais, com desigualdades regionais extremas de acesso. A inteligência artificial já demonstrou capacidade de transformar três gargalos críticos da saúde pública brasileira: em triagem e diagnóstico remoto, pesquisadores da USP e do Institut Pasteur desenvolveram ferramentas que utilizam dados de buscas na internet e mobilidade humana para antecipar surtos de dengue, COVID-19 e outras epidemias em estados brasileiros (NAKAYA et al., 2024); em vigilância epidemiológica, a Fiocruz criou ferramenta que cruza dados climáticos e epidemiológicos para gerar mapas de risco preditivo de dengue, e a Unioeste desenvolveu sensores com inteligência artificial que identificam espécies de mosquitos em tempo real pelo som, já testados em campo (PARANÁ, 2025); segundo especialistas consultados informalmente, a rapidez no avanço na análise de imagens médicas é muito significativa.

O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024-2028 (BRASIL, 2024) prevê R$ 23 bilhões em investimentos e menciona explicitamente o uso de inteligência artificial para vigilância epidemiológica preditiva e diagnóstico em regiões remotas. Contudo, a implementação em escala no SUS permanece incipiente. A Fiocruz, em articulação com as faculdades de medicina e computação das universidades públicas, pode coordenar o escalamento desses pilotos, garantindo que os modelos sejam treinados com dados representativos da população brasileira – e não com dados de populações europeias ou estadunidenses, como ocorre com a maioria dos sistemas comerciais de inteligência artificial em saúde.

Em todas essas três tecnologias sociais, as universidades públicas brasileiras desempenham papel insubstituível: são elas que possuem os pesquisadores capazes de compreender simultaneamente as especificidades do problema (agrícola, ambiental, sanitário, educacional) e as possibilidades técnicas da inteligência artificial.

A estratégia de parcerias internacionais – com empresas chinesas de inteligência artificial inteligência artificial que enfrentam crescente fechamento de mercados ocidentais – deve, portanto, ter as universidades como nó articulador: elas garantem que a transferência tecnológica se traduza em capacidade endógena de pesquisa e formação de quadros, não em mera dependência de soluções importadas.

O Brasil pode oferecer não apenas um mercado de 215 milhões de habitantes, mas também dados e problemas únicos que enriqueceriam o desenvolvimento dessas tecnologias. Em contrapartida, exigimos transferência tecnológica, para apoiar nossos investimentos em formação de quadros brasileiros e desenvolvimento de capacidades computacionais nacionais – data centers soberanos, processamento em território nacional, segurança de dados.

Nesse campo, avanços recentes são promissores, mas insuficientes. O projeto SoberanIA (dez. 2025) reúne o Governo do Piauí, o MCTI, a Telebras e as empresas Modular e Scala Data Centers para permitir o acesso a modelos e datasets nacionais por meio de uma nuvem soberana, com arquitetura distribuída: Fábrica de IA (Piauí), Cofre de Dados (Brasília, Tier IV em área militar) e Distrito Soberano no Sul para processamento de GPUs (MATRONE, 2025). O Regime Especial de Tributação para Data Centers (REDATA, MP 1.318/2025) prevê R$ 5,2 bilhões no orçamento de 2026 para incentivar novos empreendimentos.

Contudo, cerca de 60% das cargas digitais brasileiras ainda dependem de serviços prestados no exterior, gerando déficit de aproximadamente US$ 40 bilhões em produtos elétricos e eletrônicos em 2024 (MIN. FAZENDA, 2025). O Brasil ocupa a 12ª posição no ranking global de data centers e lidera a América Latina, com cerca de 200 instalações e previsão de R$ 60 a R$ 100 bilhões em investimentos nos próximos quatro anos (MIN. COMUNICAÇÕES, 2026). Microsoft (R$ 14,7 bilhões), Amazon (R$ 10,1 bilhões) e BNDES (linha de R$ 2 bilhões) já anunciaram aportes.

O problema é que, apesar do rótulo de “Nuvem Soberana”, o arranjo comercial atual conecta sistemas implementados a servidores estrangeiros, colocando dados críticos sob legislação de outros países (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2025). A soberania computacional real exige não apenas data centers em território nacional, mas controle efetivo sobre a infraestrutura de processamento e os dados nela armazenados. Mesmo se acumularmos força e construirmos vontade política coletiva para isso, tal projeto é incompatível com os cortes futuros do investimento público federal (que raramente poupam a ciência e a tecnologia) e/ou do orçamento da educação e da saúde determinados pelo arcabouço fiscal no futuro próximo.[iii]

Terceiro eixo: semicondutores e autonomia tecnológica

A dependência brasileira de semicondutores importados é quase absoluta — mais de 85% dos chips utilizados no país são importados (BRASIL, 2025) —, tornando o país vulnerável tanto a choques de oferta (como vimos na pandemia) quanto a pressões geopolíticas. A China investiu centenas de bilhões de dólares na última década para reduzir sua própria dependência de chips ocidentais, especialmente diante das restrições impostas pelos EUA.

Proponho negociar com grupos chineses do setor a instalação no Brasil de plantas de fabricação de semicondutores de gerações anteriores (não necessariamente os chips mais avançados de 3 ou 5 nanômetros, mas chips de 28nm ou superiores que atendem mais de 70% das aplicações industriais, automotivas e de infraestrutura (ABISEMI, 2025). Em troca, oferecemos mercado garantido via compras públicas, incentivos fiscais e, crucialmente, uma localização geográfica que oferece alguma proteção contra pressões geopolíticas estadunidenses.

Esses três eixos, por sua vez, devem estar conectados a projetos coordenados pelo Estado de expansão da infraestrutura econômica e social orientada para um modelo de crescimento que combine redução de desigualdades, sustentabilidade ecológica e atendimento de necessidades reconhecidas da população brasileira. Algo que, de novo, só é possível sem as amarras do arcabouço fiscal.

*Pedro Paulo Zahluth Bastos é professor titular Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de A era Vargas: desenvolvimentismo, economia e sociedade (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/3RxhzIe]

Para ler a primeira parte dessa série clique em https://aterraeredonda.com.br/tecnologia-geopolitica-e-desenvolvimento/

Notas


[i] Esses problemas configuram o fenômeno conhecido como “curtailment” — o corte forçado de geração renovável por excesso de oferta ou insuficiência de escoamento. Em 2025, 20,6% de toda a geração solar e eólica disponível no Brasil deixou de ser aproveitada, com perdas estimadas em mais de R$ 6 bilhões (Correio braziliense, 2025). Segundo o ONS (2025), a restrição total imposta às fontes eólica e solar atingiu a ordem de 20 GW. A Lei n. 15.269/2025, que estabelece diretrizes para o primeiro Leilão de Reserva de Capacidade para armazenamento (em baterias), previsto para abril de 2026, é um marco importante, mas chega com atraso significativo (Jornal da USP, 2026).

[ii] Refiro-me aqui a questões não mencionadas ou pouco desenvolvidas no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (Brasil, 2024), cuja leitura é recomendável.

[iii] Pois, como se sabe, itens de gastos com vinculações constitucionais de receitas (como educação e saúde) que tendem a crescer mais do que o limite geral autorizado pelo arcabouço (2,5%) são incompatíveis com ele.

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