“Proximidade dos terramotos na Colômbia e na Venezuela foi coincidência trágica”

Um, segundo o sismólogo, deriva da falha de Nazca, e os outros da das Caraíbas, problemas que tornam os países sul-americanos próximos do Oceano Pacífico muito vulneráveis. Para Nogueira, entretanto, a crise climática não afeta a geodinâmica do planeta.

Por outro lado, o sismólogo afirma que o Brasil é mesmo um caso raro de país muito extenso em área mas longe das bordas das placas e que Portugal está entre quatro, o que o torna sísmico, ou não tivesse sido atingido pelo lendário abalo de 1755. Como é todo virado para o mar, é suscetível a tsunamis; porém, as placas raspam apenas lateralmente no país, o que é positivo.

Do ponto de vista técnico e científico, o que aconteceu para gerar o sismo na Colômbia?

A Colômbia é sismologicamente ativa porque está próxima a uma região no limite de placas tectónicas, a placa de Nazca, cujo nome deriva de uma famosa cultura pré-inca, e da placa sul-americana. Portanto, os países sul-americanos mais próximos do Oceano Pacífico, como a Colômbia, a Venezuela, o Equador ou o Chile enfrentam muitos terramotos.

Um socorrista do Exército colombiano dá instruções a um grupo de voluntários, em Pereira, na Colômbia.

Causou ainda mais apreensão este terramoto na Colômbia surgir tão pouco tempo depois do de junho na vizinha Venezuela: eles tiveram relação?

Os dois não tiveram relação. Este envolveu as placas Nazca e da América do Sul e o da Venezuela as placas das Caraíbas e da América do Sul. Logo não houve relação, apenas uma coincidência trágica. Aliás, o último semestre tem sido muito trágico com terramotos grau 7 na Colômbia, na Venezuela mas também no Japão e na Indonésia.

Quando se vê um terramoto de alta escala na Colômbia menos de dois meses depois daquele na Venezuela, além dos demais citados no Japão e na Indonésia, não podemos deixar de nos perguntar se isso está relacionado com as alterações climáticas?

Essa dúvida é muito comum e muito natural mas a resposta é não. A humanidade não impacta na geodinâmica do planeta, impacta no clima mas não na geodinâmica. Ou seja, a humanidade impacta no clima mas esses impactos no clima não chegam para alterar a geodinâmica do planeta. Logo, esses dois terramotos em regiões próximas e em momentos próximos não têm relação – foram, conforme dito antes, apenas uma coincidência trágica. Foi azar terem ocorrido em regiões densamente povoadas em bordas de placas.

Citou a Nazca e as Caraíbas, são essas as placas que existem na região, além da placa da América do Sul?

Sim, a placa tectónica da América do Sul é enorme e abrange quase todo o subcontinente, daí o nome dela, e as outras duas são as maiores depois dela. Há ainda outra, chamada Scotia, na Patagónia argentina, que também gera muitos sismos mas como se trata de uma região de escassa população causa muito menos vítimas e é menos noticiada.

Colômbia, Venezuela, Japão, Indonésia…. Essas são as regiões mais propensas a terramotos no globo? Há outras?

Sim, o Japão está numa região muito complexa do ponto de vista sísmico entre quatro placas tectónicas. Na Indonésia, os terramotos são quase diários. Outra região com muitos terramotos, bem documentados até em filmes e documentários, é a Califórnia, devido à falha de San Andreas.

Região de La Guaira foi a mais destruída pelos sismos na Venezuela.

E Los Angeles, entre outras cidades californianas, é densamente povoada. Porém, não há registo, pelo menos recente, de terramotos com muitas mortes na região?

É uma região, sim, de borda de placa, o que faz com haja muitos terramotos mas as placas raspam lateralmente, horizontalmente, o que diminui a existência de episódios graves mais frequentes. Ao contrário, a falha de Nazca, que originou o terramoto na Colômbia, é frontal, é vertical, assim como as placas no Chile, no Japão, na Indonésia…

É verdade que o Brasil é, como diz a canção, abençoado por Deus por não ter falhas sísmicas significativas mesmo ocupando uma área territorial tão vasta?

Sim. E é até engraçado ser sismólogo num país sem sismos. Mas o Brasil na verdade tem terramotos são é de densidade baixa por estar longe dessas placas e bordas, logo, registam-se apenas sismos até grau três, que são pouco sentidos.

Mas se ocorrer numa região como São Paulo, das mais densamente povoadas do mundo, não se torna um terramoto potencialmente devastador?

Se ocorrer em São Paulo pode causar alguns danos maiores mas improváveis, talvez umas rachaduras nos prédios, talvez as pessoas notem alguma coisa, mas só quem estiver a menos de 50 km sentirá. Um terramoto que cause destruição no Brasil é bastante improvável.

Já Portugal não tem tanta sorte: pequeno e sísmico.

O terramoto de Lisboa de 1755 para nós, sismólogos, é o mais lendário, motivo de tantos quadros e de tanta literatura, de romances a poesias. Deve ser talvez o mais estudado do mundo mas não temos ideia sequer da escala que atingiu por não haver ainda instrumentos de medição na época. Portugal está ali entre três placas, talvez quatro, a da América do Norte e duas das maiores, a africana e a euroasiática, que passam perto do país, além de outra, sobre a qual há discussão, que é a dos Açores.

O país tem de estar alerta então?

A boa notícia é que, como na Califórnia, a placa raspa lateralmente, o que torna improvável mais eventos de grande impacto. A má notícia é que Portugal está todo voltado para o mar o que aumenta risco de tsunamis.

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