Chavismo ‘apaga’ Maduro das negociações: Liberdade do ex-presidente preso nos EUA deixa de ser prioridade
O futuro político da Venezuela começa a desenhar-se sem Nicolás Maduro no centro das negociações entre o chavismo e a oposição. O Governo interino liderado por Delcy Rodríguez não fez qualquer referência ao antigo presidente venezuelano nem à sua mulher, Cilia Flores, durante as cinco reuniões realizadas nas últimas duas semanas para discutir o futuro do país, numa mudança que é interpretada como um sinal de que o atual poder chavista deixou de colocar a libertação do casal entre as suas prioridades.
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Segundo participantes nas negociações citados pelo Financial Times, a ausência de Maduro e Flores foi particularmente significativa, uma vez que, após a captura de ambos pelas forças especiais dos Estados Unidos, a atual presidente interina e número dois do chavismo, Delcy Rodríguez, tinha condenado a operação como uma “vil agressão”. O irmão da presidente interina, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional venezuelana, chegou também a afirmar que os responsáveis pelo poder não descansariam enquanto não conseguissem libertar o casal, acusado pela Justiça norte-americana de crimes relacionados com narcotráfico.
Durante as cinco reuniões realizadas entre representantes do chavismo e da oposição, Maduro e Cilia Flores não foram colocados em cima da mesa, apesar de ambos permanecerem detidos nos Estados Unidos.
Um dos opositores que participou no processo descreveu a situação de forma particularmente contundente: “Maduro e Flores simplesmente não existem para a negociação”. Segundo o mesmo participante, os dois foram “apagados da história”.
Da promessa de libertação ao silêncio sobre Maduro
A mudança representa uma alteração significativa face à reação do chavismo depois da detenção de Maduro e da mulher, a 3 de janeiro. Na altura, Jorge Rodríguez tinha prometido que o regime faria tudo para conseguir a libertação dos dois, apresentando-os como vítimas de uma operação norte-americana e chegando a falar no “sequestro de dois heróis” transformados em “reféns nos Estados Unidos”.
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As acusações da Justiça norte-americana contra o antigo presidente estão relacionadas com narcotráfico. Maduro permanece atualmente detido nos Estados Unidos, juntamente com Cilia Flores, mas o destino de ambos parece ter deixado de fazer parte da agenda política das autoridades que governam provisoriamente a Venezuela.
Os analistas consultados pelo Financial Times consideram que Delcy Rodríguez não deverá procurar uma intervenção para conseguir a libertação do antigo presidente. Edward Rodríguez, consultor venezuelano, considera que, para a atual liderança chavista, o destino de Maduro “está selado” e que o processo judicial norte-americano deverá seguir o seu curso enquanto o Governo concentra os esforços na sua própria “sobrevivência”.
Segundo o consultor, a posição extremamente hostil em relação aos Estados Unidos assumida imediatamente depois da captura de Maduro teve sobretudo como objetivo manter o apoio dos setores mais radicais do chavismo. Com o passar do tempo, porém, a postura do Governo interino terá mudado.
Eleições presidenciais continuam sem avanços claros
As primeiras conversações entre as diferentes forças políticas venezuelanas tinham como objetivo criar condições para a realização de novas eleições presidenciais. Contudo, até ao momento, foram registados poucos progressos nesse domínio.
Um dos principais obstáculos continua a ser a posição do chavismo relativamente a María Corina Machado, principal figura da oposição e vencedora do Prémio Nobel da Paz, cuja eventual candidatura continua a ser rejeitada pelo poder.
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Em vez de concentrarem as primeiras rondas de diálogo na questão eleitoral, Governo e oposição deram prioridade à resposta à grave situação humanitária provocada pelos catastróficos terramotos de 24 de junho.
Foi nesse contexto que as duas partes chegaram a um acordo para permitir a repatriação das reservas de ouro venezuelanas que permanecem depositadas no Banco de Inglaterra. O valor dessas reservas está estimado em cerca de 4 mil milhões de dólares, recursos que poderão ser utilizados no contexto da resposta à crise humanitária.
Os representantes das duas partes concordaram ainda em trabalhar numa reforma do sistema judicial venezuelano, enquanto o Governo anunciou, no final desta ronda de contactos, a libertação de 131 presos políticos.
O número, contudo, é contestado pelo Foro Penal, organização que acompanha a situação dos presos por motivos políticos na Venezuela. Segundo esta entidade, apenas 78 das 131 libertações anunciadas pelo Governo tinham sido verificadas.
Delcy Rodríguez muda de estratégia
A alteração da estratégia política também se reflete na composição do poder venezuelano. De acordo com a análise citada pelo Financial Times, Delcy Rodríguez substituiu vários líderes militares por colaboradores da sua confiança, num movimento que reforça o controlo da presidente interina sobre o aparelho governativo.
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Também Diosdado Cabello, considerado o número três do chavismo, terá adotado uma retórica mais cooperante em relação aos Estados Unidos.
A mudança de discurso tornou-se particularmente visível nas intervenções públicas de Delcy Rodríguez. A atual presidente interina tem evitado mencionar Maduro, numa diferença evidente face ao antigo chefe de Estado, conhecido pelas intervenções televisivas prolongadas e por discursos marcados por momentos de forte carga teatral.
A retirada gradual da imagem de Maduro do espaço público venezuelano é outro dos sinais dessa mudança. As faixas, cartazes e outdoors que tinham sido colocados em várias cidades do país para exigir a libertação do antigo presidente e de Cilia Flores começaram a desaparecer.
Também alguns murais de apoio a Maduro foram apagados, embora ainda existam, sobretudo em Caracas, representações urbanas do antigo presidente.
Os setores mais radicais continuam a exigir a libertação
Apesar da mudança de orientação do Governo interino, o afastamento de Maduro não significa que tenha desaparecido o apoio ao antigo presidente dentro do chavismo.
Os setores mais radicais continuam a defender a sua libertação e consideram que a captura foi uma traição. Entre os simpatizantes mais fiéis permanece também o peso simbólico de Maduro ter sido escolhido pessoalmente por Hugo Chávez como seu sucessor.
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Ricardo García, um dos apoiantes incondicionais do antigo presidente, criticou as negociações com a oposição por considerar que estas não defendem Maduro. “Não estou de acordo com as conversações, porque não se pode permitir que Trump continue a impor-nos as coisas enquanto o acordo nem sequer menciona que o presidente foi sequestrado”, afirmou, citado pelo meio de comunicação.
García partilha ainda uma convicção existente entre outros apoiantes da linha dura do chavismo: a de que Maduro terá sido traído por elementos do seu próprio círculo e entregue às forças militares norte-americanas.
A situação coloca assim o chavismo perante uma divisão cada vez mais evidente. Enquanto a liderança interina procura negociar com a oposição e aliviar a pressão internacional, setores mais radicais continuam a considerar a detenção de Maduro uma agressão contra a Venezuela e exigem que o antigo presidente seja incluído nas negociações.
Para já, porém, as cinco reuniões realizadas entre o Governo e a oposição apontam noutra direção: a sobrevivência política da atual liderança, a resposta à crise humanitária, o futuro das reservas de ouro e a reforma judicial ganharam prioridade, enquanto Nicolás Maduro e Cilia Flores ficaram fora da agenda das negociações.
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