O câncer ainda é uma das principais causas de morte no mundo, em grande parte relacionado a fatores modificáveis. Para entender melhor esse panorama, a Organização Mundial da Saúde (OMS) realizou um estudo de mapeamento dos casos da doença no mundo e a relação com fatores que podem ser evitados.
O tabagismo (15,1%), as infecções (10,2%) e o consumo de álcool (3,2%) foram os principais contribuintes para a carga de câncer. O estudo considerou ainda fatores como índice de massa corporal elevado, atividade física insuficiente, tabaco sem fumaça, poluição do ar e radiação ultravioleta.
A divulgação dessas informações é extremamente importante. Afinal, conhecer os fatores de risco é o primeiro passo para poder combatê-los. O problema é que muitas vezes acabamos focando somente nos riscos que recebem mais destaque e deixamos de olhar para outros que atingem uma parcela muito maior da população. O Brasil é um excelente exemplo disso.
Graças a décadas de campanhas educativas, restrições à publicidade, aumento de impostos e ambientes livres de fumaça, o número de fumantes caiu de forma impressionante. Hoje, menos de 10% da população adulta brasileira fuma regularmente. Trata-se de uma das maiores vitórias da saúde pública do país. Mas, enquanto comemoramos essa conquista, outro problema cresce silenciosamente.
Segundo pesquisa da Quest, cerca de 52% dos brasileiros se consideram sedentários. Quando analisamos os critérios da OMS, a situação se torna ainda mais preocupante: aproximadamente 76% da população não atinge os níveis mínimos de atividade física recomendados para a manutenção da saúde. Isso significa que o sedentarismo está presente na vida de milhões de brasileiros todos os dias. E o impacto disso vai muito além da perda de condicionamento físico.
Outro fator que merece atenção é a obesidade. Hoje, cerca de 30% da população brasileira é obesa. E a obesidade está associada a pelo menos 13 tipos diferentes de câncer. Mais uma vez, existe uma ligação direta com a atividade física.
É importante deixar claro: o objetivo desta reflexão não é minimizar os riscos do cigarro ou do álcool. O ponto é outro. Quando pensamos em saúde pública, precisamos considerar não apenas o tamanho do risco individual, mas também o número de pessoas expostas a ele.
Se menos de 10% da população fuma, mas mais da metade é sedentária e três em cada quatro brasileiros não alcançam sequer o mínimo recomendado de atividade física, talvez estejamos diante de uma das maiores oportunidades de prevenção da atualidade. A prevenção não depende apenas de eliminar hábitos ruins. Ela também exige a construção de hábitos saudáveis. E poucas intervenções de estilo de vida oferecem benefícios tão amplos quanto o movimento físico.
Não é necessário se tornar atleta. Não é preciso correr maratonas nem passar horas por dia na academia. A mudança pode começar com atitudes simples: caminhar mais, usar escadas, levantar-se frequentemente ao longo do dia, brincar com os filhos, passear com o cachorro, pedalar, dançar ou praticar qualquer atividade prazerosa. O exercício físico estruturado continua sendo algo extremamente importante, entretanto não podemos ignorar o valor do movimento incorporado à rotina. Nosso corpo foi feito para se mover. Cada passo conta.
Talvez o maior desafio da saúde moderna não seja apenas convencer as pessoas a evitar o cigarro. Talvez seja fazê-las entender que passar grande parte do dia sentado também tem consequências importantes para a saúde. Alguns riscos são facilmente identificados. Outros são silenciosos, fazem parte da rotina e acabam sendo normalizados. O sedentarismo é um deles.
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