
Por Jacqueline Fowks, no Nuso | Tradução: Rôney Rodrigues
A candidata do Fuerza Popular, Keiko Fujimori, passou pela quarta vez para um segundo turno presidencial após uma longuíssima contagem de votos devido à quantidade de impugnações. Desta vez, ela competirá com o deputado e ex-ministro Roberto Sánchez, do partido de esquerda Juntos por el Perú. A filha mais velha do autocrata Alberto Fujimori – que ocupou o poder entre 1990 e 2000 – obteve 17% dos votos válidos e Sánchez, 12%, o que mostra mais uma vez a enorme fragmentação e a escassa legitimidade eleitoral daqueles que vão ao segundo turno.
Em 2021, quando concorreu à Presidência pela terceira vez, obteve 13% no primeiro turno contra 18,9% do professor rural e líder sindical Pedro Castillo, que a venceu depois por uma margem muito apertada. No entanto, as eleições de 2026 tiveram um sinal muito distinto: o Congresso atual, dominado pelo Fuerza Popular, eliminou o sistema de eleições primárias abertas, simultâneas e obrigatórias (PASO), que teria reduzido o número de partidos aptos a competir nas eleições gerais. No final, houve 35 candidatos à Presidência, a maioria grandes desconhecidos, e o fujimorismo pôde tirar proveito de ter uma candidata e uma legenda eleitoral bem estabelecidas.


Em terceiro lugar ficou o líder do Renovación Popular e ex-prefeito de Lima, Rafael López Aliaga, membro do Opus Dei e aspirante a imitador de Donald Trump, com 11,9% dos votos, seguido pelo centrista Jorge Nieto, ex-ministro do governo de Pedro Pablo Kuczynski e fundador do Partido del Buen Gobierno, com 10,9%. Junto a essas forças, terão bancada no Congresso os partidos que levaram como candidatos à Presidência Ricardo Belmont, um populista ex-apresentador de programas de televisão, e o comediante Carlos Álvarez, que serviu à campanha pela re-reeleição de Alberto Fujimori em 2000.
Na bancada do centro-esquerdista Ahora Nación destacam-se três legisladoras com longa trajetória na defesa dos direitos humanos: as senadoras Mirtha Vásquez e Ruth Luque e a deputada Indira Huilca. Também integrará a bancada Harvey Colchado, ex-chefe da Divisão de Investigação de Alta Complexidade (Diviac) e figura emblemática da luta anticorrupção. Boluarte o afastou da carreira policial em represália por ele ter se negado a blindá-la, a ela e a seu irmão, quando foram investigados pelo Ministério Público por corrupção e tráfico de influência.
O sombrero que anda
O adversário de Fujimori no segundo turno foi o único ministro que permaneceu no gabinete desde o início do governo de Castillo até a tentativa de autogolpe de 7 de dezembro de 2022. Após tomar conhecimento da decisão do presidente de fechar o Congresso, Sánchez renunciou e publicou uma rejeição explícita declarando que “não podia, por princípios democráticos, concordar com essa decisão”.
Castillo cumpre uma condenação por conspiração para rebelião devido a essa tentativa frustrada, quando tentou impedir que o fujimorismo e seus aliados o tirassem do Palácio do Governo mediante o fechamento do Congresso. Horas depois de ler a proclama golpista, o mandatário foi detido e o Parlamento o destituiu com 101 votos – três a menos dos 104 exigidos pelo regimento do Congresso. Esse episódio explica em certa medida a votação de Sánchez.
A maioria congressual colocou a vice-presidente Dina Boluarte no lugar de Castillo, apesar de ela ter prometido renunciar se o presidente fosse destituído. Várias regiões estouraram em protestos, denunciando que seu voto havia sido traído pela assunção de uma “presidenta-fantoche” de um Congresso que governa o Peru desde então mediante um pacto de corrupção e impunidade entre Fujimori e os caudilhos das bancadas parlamentares e integrantes da mesa diretora do Legislativo.
A repressão aos protestos contra Boluarte, que duraram cerca de três meses, resultou em 50 civis mortos e centenas de feridos. Esses crimes seguem impunes porque o Ministério Público esteve capturado pelo regime sob a procuradora Patricia Benavides, e voltou a estar desde setembro de 2025 com Tomás Gálvez, um procurador afinado com o bloco parlamentar dominante que dissolveu as equipes especiais que investigavam, entre outros casos, os assassinatos de manifestantes durante os protestos. O pacto corrupto também tem a seu lado a Polícia Nacional, a Ouvidoria do Povo, o Tribunal Constitucional e a Junta Nacional de Justiça – entidade que nomeia e sanciona juízes e procuradores.


Castillo usou durante a maior parte de sua campanha eleitoral e de seu mandato um chapéu de palha típico de Cajamarca, a região com a maior população em situação de pobreza do país (41%) e sede da maior mina de ouro da América do Sul. Ali ele trabalhou a terra e foi professor rural. Em meados de dezembro, já em campanha, Sánchez visitou Puña, o povoado cajamarquino onde nasceu Castillo, e o reivindicou usando o chapéu. Ali declarou: “Aqui nasceu e ensinou o líder mais importante dos últimos 50 anos do Peru, que chegou ao cargo mais importante com o voto popular do Peru profundo: quéchua, aimará, amazônico: Pedro Castillo. Mas aos donos do Peru, à oligarquia, aos donos da mídia, da grande mineração, da agroexportação e dos grandes negócios do Estado não agradou: odiaram este lindo chapéu, odiaram a cor do nosso presidente, odiaram seu jeito de falar. A política se tornou desprezo, racismo, e boicotaram desde o primeiro dia de governo e nunca o deixaram governar.”
Sánchez percorreu a mesma rota que Castillo fez em 2021 em busca de votos, em pequenos povoados rurais e urbanos, e prometeu indultá-lo. Nas listas de candidatos de seu partido, incluiu familiares do ex-presidente: um irmão será senador e uma cunhada, deputada. Também somou um dos detidos arbitrariamente, como parte da repressão aos protestos antigovernamentais de 2022 e 2023: Alejandro Manay, um líder sindical preso em Ayacucho sob acusações de terrorismo em janeiro de 2023, transferido para a Direção Contra o Terrorismo em Lima e apresentado à mídia, sem provas, como se fosse delinquente, foi eleito deputado pelo partido de Sánchez.
No final de março, no último trecho da campanha eleitoral, a conta de X de Castillo publicou que ele havia entregue seu chapéu a Sánchez para que percorresse “a rota castillista rumo ao Palácio do Governo”. Nesse momento, o candidato do Juntos por el Perú estava em quinto lugar nas pesquisas, empatado com Alfonso López Chau, do Ahora Nación, com 4% de intenção de voto, e havia tido um desempenho medíocre nos debates presidenciais.
A grande quantidade de candidatos e os 95% de desaprovação ao Congresso geraram grande volatilidade na intenção de voto: Fujimori mantinha um núcleo duro de 10% a 12%, e a alta porcentagem de indecisos se manteve até março. Na extrema direita, López Aliaga caiu na intenção de voto enquanto denunciava as “pesquisas fraudulentas”. Na última hora, dois escândalos esvaziaram as preferências de outros dois candidatos. A divulgação de vídeos de arquivo mostrou o ator cômico e imitador Carlos Álvarez ridicularizando opositores à ditadura fujimorista para desacreditá-los. E sobre Ricardo Belmont pesavam velhas denúncias de dezenas de milhares de acionistas do canal RBC, que o acusavam de tê-los defraudado nos anos 80. Enquanto isso, Sánchez avançou principalmente percorrendo as regiões e transmitindo suas visitas pelo Facebook.
Quatro dias antes do primeiro turno, durante uma audiência judicial online, Castillo queixou-se de que o atual Congresso do pacto corrupto decidisse os membros do Tribunal Constitucional e da Junta Nacional de Justiça. “O povo precisa de uma justiça verdadeira, isso só vai mudar quando em 12 de abril o povo peruano fizer uma eleição correta marcando [a candidatura do Juntos por el Perú]”, afirmou, mostrando o logo do partido antes de cortarem seu áudio.
O candidato centrista Jorge Nieto, que ficou em quarto lugar e mantém silêncio sobre seu voto no segundo turno, disse em uma entrevista televisiva que “Castillo ganhou desde a prisão”. Mencionou também a indignação moral de parte do Peru popular, sobretudo andino, que, apesar da má gestão, se sentia identificado com o ex-presidente.
“Por que as pessoas estão irritadas com o caso Castillo? Porque ele foi maltratado desde o começo: [primeiro] não quiseram aceitar sua vitória; as pessoas pensam que foi a vitória delas, não pensam em Castillo, mas em seu voto. Além disso, no processo do golpe malfadado que ele tentou, quando tomam decisões no Congresso não alcançam os votos regimentais, todos nós sabemos: eram necessários 104 votos, e com 101 justificaram [a destituição] porque ‘bom, já é, é assim’. Essa é a origem do sombrero que continua andando.”
A carta da esquerda, apesar de tudo
Sánchez nasceu em Huaral, uma província do norte da região de Lima, e é filho de um cabeleireiro e de uma lavadeira nascidos em regiões andinas, Apurímac e Ayacucho. Em sua adolescência, migrou para Lima com a intenção de ser sacerdote, mas depois optou por estudar Psicologia. Em várias entrevistas, contou que fez parte de grupos pastorais de teologia da libertação e trabalhou como psicólogo com pacientes de HIV.
Diferentemente de Castillo, portador de um mestrado em Educação por uma universidade conhecida por sua duvidosa qualidade, Sánchez cursou um mestrado em Gestão de Projetos Sociais na prestigiosa Universidade Mayor de San Marcos. Castillo inscreveu-se fugazmente em dois partidos em décadas distintas, com fins eleitorais, enquanto Sánchez, desde 2007, tem tido uma vida política continuada. Foi um dos fundadores do Juntos por el Perú em 2008 e o preside desde 2023. Essa força ficou em sexto lugar nas eleições presidenciais de 2021, com Verónika Mendoza como candidata, e elegeu cinco parlamentares. No entanto, essa bancada já não existe: apenas Sánchez representa o partido no Congresso e Mendoza retirou-se da agremiação nesse mesmo ano.
No primeiro turno de 2026, competiram quatro partidos de esquerda e centro-esquerda: Juntos por el Perú, de Sánchez, Ahora Nación, Venceremos e Perú Libre, do foragido Vladimir Cerrón, pelo qual Castillo concorreu em 2021. Venceremos apoiou Sánchez sem condições para o segundo turno; Ahora Nación condicionou sua decisão a uma série de exigências, e Cerrón tuitou que são “as bases” quem devem decidir se apoiam Sánchez no segundo turno, enquanto seu partido ficou de fora do novo Congresso. Entre aqueles que apoiaram Sánchez no primeiro turno está o “etnocacerista” Antauro Humala, um nacionalista radical que cumpriu sua pena pela tomada de uma delegacia em 2005, que terminou com quatro policiais mortos. O irmão do ex-presidente Ollanta Humala apoiou Sánchez no primeiro turno, mas este manteve distância da figura, utilizada pela imprensa para gerar temor contra um eventual governo do Juntos por el Perú.
Parte da esquerda urbana da capital votará em Sánchez – apesar da desconfiança que ele lhes gera – para impedir uma vitória de Keiko Fujimori. No entanto, o antifujimorismo parece mais fraco do que em eleições anteriores. Segundo duas pesquisas do final de abril, Fujimori e Sánchez estão empatados em cerca de 38% da intenção de voto.
“Gente de merda”
A candidatura de López Aliaga – que certa vez comentou que se autoflagela com um cilício “para unir-se à paixão de Cristo” – gerou forte rejeição no sul do país, com populações quéchuas e aimarás, onde lembram seu apoio à repressão dos protestos de 2022 e 2023. Em Puno, durante uma visita do candidato, seus seguidores apedrejaram e feriram sobreviventes e familiares de vítimas do massacre de Juliaca de janeiro de 2023. Em Apurímac, familiares das vítimas de Andahuaylas e outros cidadãos jogaram ovos nele, e López Aliaga os insultou chamando-os de “gente de merda”, “gente lixo” que impede o país de avançar.
Nos dias da apuração do primeiro turno, o ex-prefeito de Lima colocou em dúvida a contagem dos votos e insistiu nas denúncias de fraude em uma conversa com o influenciador de extrema direita argentino Agustín Laje, que o apoiou publicamente. Segundo López Aliaga, existiam mesas de votação “fantasmas” nas quais qualquer um preenchia as atas a favor do Juntos por el Perú. O candidato chegou a dizer na rede CNN que o chefe do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) era “membro do Grupo de Puebla” e que havia uma estratégia contra ele, armada por “cubanos e venezuelanos”. A Junta Nacional de Justiça, integrante do pacto corrupto, exigiu que a ONPE lhe reportasse quantos estrangeiros trabalhavam na entidade. A resposta foi “nenhum”.
“Surpreendentemente, a Ipsos [responsável por uma contagem rápida de uma amostra de atas] diz que em zonas rurais a assistência foi maciça, onde infelizmente não têm os meios para se instruir bem, mas diz que o nível de eficiência ao preencher uma ata complexa é de 100%, ou seja, sabem preencher atas complexíssimas da noite para o dia e são pessoas totalmente instruídas”, declarou com desprezo o candidato, que não passa ao segundo turno mas terá assento no Senado.
López Aliaga, que ficou apenas 21.210 votos abaixo de Sánchez, liderou uma violenta operação midiática, política, judicial, digital e de rua para enlamear o sistema eleitoral. Colocou em risco as eleições imitando com impunidade Jair Bolsonaro e Donald Trump. Após se conhecerem em abril os primeiros resultados que o deixavam fora do segundo turno, convocou concentrações em frente ao JNE e exigiu a anulação das eleições, denunciando a existência de um suposto “plano Morrocoy” – uma conspiração, segundo ele, para retardar a apuração e roubar-lhe votos, copiada de uma denúncia venezuelana de 2012 e descartada por organismos eleitorais e observadores internacionais. Nesse mesmo contexto, o postulante de extrema direita torceu o nome de sua própria teoria da conspiração para lançar uma ameaça de agressão sexual contra o presidente do tribunal eleitoral, Roberto Burneo: “Se até amanhã ele não declarar a nulidade das eleições, vou meter todo o meu plano Morrocoy, bem grandão, para ele se tornar homem”.
A maioria dos meios de comunicação de Lima tem sido funcional a essa campanha de desinformação. Tanto assim que López Aliaga ameaçou Piero Corvetto, o chefe da ONPE, com “persegui-lo até que morra” e conseguiu que ele renunciasse três dias depois das eleições, devido ao fato de que cerca de 50 mil eleitores não puderam votar em Lima por falhas logísticas na instalação de mesas que representavam 0,2% do cadastro eleitoral.
Ao terem desgastado a confiança na ONPE e no JNE, o caminho está livre para que no segundo turno Keiko Fujimori retome o argumento. Se perder por uma diferença mínima, como já ocorreu no segundo turno contra Castillo em 2021, poderá retomar o discurso “fraudista” que ela e seus seguidores cultivam desde então. Por sua vez, Sánchez destacou em uma coletiva de imprensa com veículos estrangeiros que a maioria de seus eleitores está nas jurisdições mais pobres e rurais, e que, diante dessas afrontas, defenderão o voto popular.
A vantagem de Fujimori
Desde o Congresso, o regime que Fujimori lidera capturou as instituições do Estado, com a exceção parcial dos três organismos eleitorais. Desde 2025, a The Economist classifica o sistema político peruano como “híbrido” e, para a V-Dem, está “em processo de autocatização”, mas não nas mãos de um ditador e sim de uma trama de forças corruptas. A razão do fujimorismo e seus aliados para ocupar o Estado não tem sido apenas exercer o poder de fato, mas sim que a maioria dos líderes de organizações políticas está investigada pela Justiça, como Fujimori e López Aliaga, mas também Cerrón, que se encontra foragido desde 2023 mas tuita diariamente sobre política.
Keiko Fujimori e uma trintena de militantes e advogados enfrentavam um julgamento pelo caso Odebrecht em 2024, mas o Tribunal Constitucional ajudou no ano passado a que o processo retrocedesse à fase intermediária. O procurador que investigou desde 2018 a atual candidata pelas contribuições milionárias não declaradas das campanhas presidenciais de 2011 e 2016 foi ilegalmente sancionado em janeiro e afastado da magistratura. O procurador-geral eliminou a Equipe Especial de procuradores do caso Odebrecht que conseguiu as condenações dos ex-presidentes Alejandro Toledo, Ollanta Humala e Martín Vizcarra. A retomada da fase intermediária do julgamento da candidata Fujimori, por lavagem de ativos, está pendente de apelação: os juízes não fixaram data da audiência.
Por isso, há três anos, 95% dos peruanos desaprovam o Legislativo dominado pelo fujimorismo, mas essa rejeição não se traduziu nas eleições recentes em um antivoto proporcional a Fujimori. Ela não só obteve o primeiro lugar: conseguiu uma porcentagem de votos maior do que em 2021, faz campanha sem audiências judiciais que a interrompam, usou o Congresso para inabilitar políticos com aspirações presidenciais e valeu-se da Junta Nacional de Justiça e da Autoridade de Controle do Ministério Público para tirar do caminho os magistrados que não se subordinavam a ela. A maioria dos meios de comunicação de Lima alinhou-se com seus interesses.
O fujimorismo, junto com o Renovación Popular de López Aliaga – do qual hoje se encontra distanciado – poderia ter metade das cadeiras do novo Senado e mais de 43% da Câmara dos Deputados (a contagem para o Congresso ainda não foi concluída). Dessa posição, buscará preservar o pacto de corruptos.
Em cinco universidades, duas delas as principais de Lima, estouraram protestos estudantis em rejeição à reeleição ilegal de autoridades, contra a mercantilização da educação e a violência de gênero, e em demanda de uma infraestrutura básica para estudar. Em algumas das arengas e cartazes dos universitários reapareceu o lema “Fujimori nunca mais”, que marcará sem dúvida a campanha para o segundo turno, na qual uns votarão contra Fujimori e outros contra Sánchez-Castillo.
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