Bissau— Dois meses após a confirmação do primeiro caso, o país acumula 10 casos confirmados e nenhum óbito. As equipes de saúde intensificam a busca ativa de casos e o acompanhamento de contatos, com o apoio técnico da Organização Mundial da Saúde.
Dois meses de surto
O primeiro caso de mpox na Guiné-Bissau foi notificado em 26 de junho de 2026. O diagnóstico foi confirmado pelo laboratório nacional de saúde pública e pelo laboratório universitário privado, e o resultado foi corroborado por um laboratório regional de referência.
Até 23 de agosto de 2026, ao final da semana epidemiológica 34, o país acumulou 58 casos suspeitos, dos quais 10 foram confirmados positivos, sem registro de óbitos. Três novas confirmações ocorreram durante aquela semana. A curva epidêmica mostra uma evolução flutuante, com pico de 11 casos suspeitos na semana 29 e redução nas últimas semanas.
Essa redução, no entanto, não deve ser lida isoladamente como sinal de que a transmissão foi interrompida. Ela pode refletir lacunas na vigilância comunitária ou no rastreamento de contatos, e os casos confirmados mais recentes, com início de sintomas na segunda quinzena de agosto, indicam que o vírus continua circulando.
Bissau concentra a maioria dos casos
A distribuição geográfica permanece fortemente concentrada: o Setor Autônomo de Bissau responde por cerca de 90% dos casos confirmados, seguido pela região sanitária de Biombo, com um caso. Casos suspeitos foram notificados também em Oio, Gabú, Tombali, Cacheu e Bijagós, sem evidência, até o momento, de transmissão comunitária sustentada além de Bissau.
Todos os casos confirmados ocorreram em pessoas adultas, com maior concentração na faixa etária dos 30 aos 34 anos. Seis casos (60%) são do sexo masculino e quatro (40%) do sexo feminino — um perfil que reforça a necessidade de uma vigilância abrangente, atenta às diferentes formas e aos diferentes contextos de exposição.
Entre os casos suspeitos, foram também notificadas crianças, sobretudo nas primeiras semanas do surto, mas todas apresentaram resultados laboratoriais negativos. Esse padrão deve ser interpretado à luz da elevada sensibilidade da definição de caso suspeito, que abrange um amplo espectro de manifestações cutâneas frequentes na infância, favorecendo a investigação precoce e reduzindo o risco de casos não detectados.
O que mostra a análise genética
Os resultados do sequenciamento genômico indicam que todas as amostras analisadas pertencem ao clado IIb e apresentam proximidade genética com vírus em circulação na Serra Leoa, na Guiné-Conacri e na Nigéria. Esses achados reforçam a importância da vigilância nos pontos de entrada, da partilha de informações e da coordenação transfronteiriça.
A ausência de óbitos é um indicador favorável, mas deve ser interpretada com cautela: a gravidade da mpox varia conforme o estado imunológico, a presença de outras doenças, a idade e o acesso oportuno aos cuidados de saúde.
A resposta em curso
A resposta ao surto é conduzida por meio do Sistema de Gestão de Incidentes, que reúne as autoridades sanitárias nacionais, a OMS, outras agências das Nações Unidas e parceiros de desenvolvimento em reuniões semanais de coordenação e na harmonização dos dados epidemiológicos.
O trabalho está organizado em pilares. Na vigilância, incluem-se a notificação e a investigação dos casos suspeitos, o seguimento dos contatos e a resposta aos alertas. No laboratório, são realizadas a coleta, o transporte e o processamento das amostras, o diagnóstico molecular por PCR e o sequenciamento genômico no país. Na gestão dos casos, as atividades abrangem o isolamento, o acompanhamento clínico e o tratamento de suporte. Somam-se a prevenção e o controle de infecções nas unidades de saúde, a comunicação de risco e a mobilização comunitária, além da vigilância nos pontos de entrada, com partilha de informação com os países vizinhos.
O apoio técnico ao conjunto desses pilares é prestado pela OMS, que acompanha o surto desde a confirmação do primeiro caso e integra a coordenação da resposta. Esse apoio atravessa todas as frentes de trabalho: a orientação às equipes de vigilância na investigação dos casos e no seguimento dos contatos; o suporte à capacidade laboratorial de diagnóstico e sequenciamento; a orientação às equipes clínicas sobre isolamento, acompanhamento e medidas de prevenção e controle de infecções; e o trabalho de comunicação de risco e engajamento comunitário junto às populações afetadas.
A Organização participa da consolidação e conduz a análise semanal dos dados epidemiológicos, contribuindo para a leitura da curva epidêmica, a identificação precoce de mudanças no padrão de transmissão e a definição das medidas de resposta. Em conjunto com as autoridades sanitárias nacionais, realiza também a análise técnica sobre a disponibilidade de vacinas e os critérios para uma eventual vacinação preventiva de grupos prioritários e de maior risco. Esse trabalho analítico subsidia, entre outros produtos, a elaboração do SITREP semanal.
Os indicadores de desempenho mostram resultados sólidos na etapa inicial da resposta: 98% dos casos suspeitos foram investigados em até 48 horas, acima da meta de 90%, e 87% dos resultados laboratoriais foram disponibilizados em até 72 horas.
No âmbito do sistema de gestão de emergências da OMS, a mpox está classificada como um evento prolongado de grau 2. Trata-se de uma classificação operacional, utilizada para orientar a mobilização e a coordenação da resposta, e não de uma medida da gravidade clínica da doença.
Os desafios: seguimento de contatos e busca ativa
Dos 214 contatos identificados desde o início do surto, 127 (59,3%) concluíram o período de acompanhamento e 87 permanecem sob monitoramento ativo. Nenhum contato evoluiu para caso confirmado. A conclusão do seguimento, porém, está abaixo da meta de 100% e constitui hoje o principal ponto crítico da resposta.
Some-se a isso o fato de os casos confirmados não apresentarem, entre si, ligação epidemiológica clara. Esse padrão sugere a possibilidade de cadeias de transmissão silenciosas na comunidade e reforça a necessidade de intensificar a busca ativa de casos, o rastreamento de contatos e a vigilância comunitária, e não de reduzi-los.
Como a população pode se proteger
A mpox se transmite principalmente pelo contato próximo com uma pessoa infectada: contato pele a pele, sobretudo com as lesões; contato face a face prolongado; contato boca a pele; e relações sexuais. O vírus também pode permanecer por algum tempo em roupas, toalhas, roupa de cama e objetos usados por alguém doente.
As medidas de proteção recomendadas são:
- evitar contato próximo, especialmente pele a pele, com pessoas que apresentem feridas ou erupções cutâneas;
- não compartilhar roupas, toalhas, roupa de cama ou objetos de uso pessoal com pessoas doentes;
- lavar as mãos com frequência, com água e sabão;
- procurar um serviço de saúde diante de febre, dores no corpo, gânglios inchados ou lesões na pele, evitando contato próximo com outras pessoas até a avaliação;
- evitar o contato desprotegido com animais silvestres doentes ou mortos e cozinhar bem os alimentos de origem animal.
Os sintomas mais comuns incluem erupções cutânea semelhante a bolhas ou feridas, que pode durar de duas a quatro semanas, acompanhada ou precedida de febre, dor de cabeça, dores musculares, dor nas costas, cansaço e gânglios inchados. Na maioria dos casos, a recuperação ocorre em algumas semanas com cuidados de suporte.
Bebês, crianças, gestantes e pessoas com baixa imunidade têm maior risco de desenvolver formas graves.
O estigma é um obstáculo à resposta
O estigma e a discriminação associados à mpox não são aceitáveis e comprometem diretamente o controle do surto. Quando as pessoas temem ser julgadas, afastadas do trabalho ou expostas na comunidade, demoram a procurar cuidados, deixam de relatar sintomas e as cadeias de transmissão permanecem invisíveis.
Vigilância e participação comunitária
A resposta mantém como prioridades o reforço da vigilância ativa, a conclusão do seguimento dos contatos e a investigação dos casos sem ligação epidemiológica conhecida. Nenhuma dessas frentes funciona sem as comunidades: as cadeias de transmissão que ainda não foram identificadas só se tornam visíveis quando as pessoas reconhecem os sinais, procuram cuidados a tempo e são acolhidas ao fazê-lo.
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