Um ataque de grupos insurgentes na Coutada de Marangira, província de Niassa, norte de Moçambique, provocou prejuízos de milhões de euros num acampamento de safaris associado ao ex-treinador luso-moçambicano Carlos Queiroz, segundo órgãos locais.
O acampamento turístico da Mozambique Wild Adventures (MWA) foi saqueado, queimado e vandalizado pelos insurgentes, que levaram ainda viaturas, num ataque que aconteceu na quinta-feira, de acordo com fontes citadas pelos órgãos locais.
Desde o ataque ao local, cuja concessão foi atribuída pelo Governo em 2014, que não há comunicações com a área, mas a organização ambientalista Mozambique Bio, citando fontes locais, refere a “destruição e perda de um investimento estimado em 3,5 milhões de dólares”, realizado “ao longo de mais de uma década pelo empresário e professor Carlos Queiroz”.
Acrescenta que se encontravam no local três turistas estrangeiros, que estão em segurança, “apesar de terem perdido documentos pessoais e dinheiro durante o assalto”, enquanto “cerca de 15 colaboradores do acampamento terão abandonado as instalações e procurado refúgio no mato”.
“O local representava um investimento de longo prazo ligado ao turismo de natureza e às atividades de conservação naquela área do distrito de Marrupa, província de Niassa”, acrescenta.
As autoridades da província estão no terreno e, contactadas pela Lusa, remeterem uma posição oficial para o final do dia de hoje.
Desde 2017 que a província de Cabo Delgado enfrenta uma insurgência armada que já provocou mais de 6.600 mortos e de 1,2 milhões de deslocados. Esses ataques alastraram-se, com incursões pontuais, em 2025, às vizinhas províncias de Niassa e de Nampula.
A violência armada em Cabo Delgado provocou 1.401 deslocados em agosto e os incidentes de conflito aumentaram 10% no primeiro semestre, face ao período homólogo, alertaram hoje as Nações Unidas num novo retrato humanitário.
No mais recente relatório sobre a situação humanitária em Moçambique, divulgado pelo Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), a organização refere que o conflito continua a afetar o norte do país, enquanto as comunidades enfrentam simultaneamente os efeitos de fenómenos climáticos extremos e o risco de uma nova seca associada ao El Niño.
Segundo o documento, entre janeiro e agosto de 2026 foram deslocadas pelo menos 29.564 pessoas devido à violência armada, das quais 1.401 apenas em agosto. Mulheres e crianças representaram aproximadamente 79% dos movimentos populacionais registados.
“O conflito e a deslocação continuam a afetar comunidades no norte, enquanto muitas áreas do país ainda recuperam das cheias recentes e dos sucessivos ciclones”, assinala o OCHA.
A agência das Nações Unidas acrescenta que os incidentes relacionados com o conflito em Cabo Delgado aumentaram 10% no primeiro semestre de 2026 em comparação com igual período de 2025, sendo que os civis foram visados em cerca de 70% dos incidentes reportados, incluindo assassinatos, raptos, saques e destruição de habitações.
O relatório refere ainda que a insegurança expandiu-se para zonas anteriormente menos afetadas, com atividade de grupos armados registada nos distritos de Balama, Namuno e Montepuez.
De acordo com o OCHA, Moçambique contabiliza atualmente cerca de 662 mil deslocados internos, segundo a mais recente avaliação da Organização Internacional para as Migrações (OIM).
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