Elise Bidault é uma psicóloga francesa que exerce em Bissau e está a ajudar os guineenses a enfrentar parte das chamadas doenças modernas, nomeadamente o stress crónico, a ansiedade e os traumas de infância.
Elise Bidault chegou à Guiné-Bissau em 2020. Inicialmente, o país não fazia parte do seu horizonte geográfico habitual, mas motivos pessoais impulsionaram a mudança.
Então, eu vim à Guiné-Bissau em 2020, há seis anos, depois da pandemia da COVID e depois de acabar o meu mestrado. Bom, para ser transparente, no início, não conhecia mesmo a Guiné-Bissau, porque, como francesa, conhecemos mais o Senegal, o Mali, a Costa do Marfim, todos os países francófonos. Mas posso dizer que foi por motivo pessoal. Não quero entrar nos detalhes, mas foi um motivo pessoal, e, neste momento, em 2020, a minha vida pessoal fez com que eu chegasse aqui à Guiné-Bissau e, graças a Deus, felizmente, consegui ficar até hoje.
Quando decidiu fixar-se na Guiné-Bissau, Elise viu-se na contingência de melhorar o seu português. O recurso foi a contratação de uma professora brasileira em Bissau. O português da Elise é hoje fluente tal como o seu crioulo guineense.
Também a história do crioulo começa de forma pessoal, porque, no início, não comecei a trabalhar como psicóloga. Comecei a trabalhar numa escola francesa, então não era tão importante ou obrigatório falar o crioulo. Mas eu penso profundamente que, quando chegamos a um país para viver, é importante aprender a língua. Primeiro para a integração; para mim, faz parte da base quando chegamos a um país, integrarmo-nos e aprendermos os costumes e a vida das pessoas, através da língua também. E também para me sentir bem, porque, sem conseguir falar com as pessoas, fiquei um pouco triste, sem conseguir expressar-me ou participar nas conversas. Então, aprendi assim pouco a pouco, no dia a dia, em casa, com a família, na feira, no restaurante. Assim aprendi coisas básicas e, pouco a pouco, o meu crioulo cresceu, até hoje, que acho que o meu crioulo está fluente.
Ao abordar a saúde mental na Guiné-Bissau, Elise contesta a ideia de que os africanos evitam falar da sua vida pessoal com quem não tem muita afinidade ou cumplicidade. A questão, diz a médica francesa, reside na confiança e no sigilo profissional, num ambiente onde “todos se conhecem”.
Acho que tudo tem a ver com a confiança; dentro da palavra confiança, está a palavra confia. E as pessoas têm de se sentir confiantes e seguras para depois se abrirem. Com certeza, há aqui uma cultura e uma educação que não impulsionam a vontade de partilhar algumas coisas privadas, mas acho também que tem a ver com a falta de sigilo profissional que posso observar, mesmo dentro do nível da saúde aqui na Guiné-Bissau, e também porque Bissau é muito pequeno, então todos se conhecem. Às vezes, se me vou abrir com uma pessoa, não quero que os meus problemas ou os meus traumas cheguem a uma outra pessoa que conheço e que eu não quero que saiba dos meus problemas.
70% dos pacientes da Elise Bidault buscam ajuda por ansiedade, stress crónico, depressão ou luto, além de questões profissionais como burnout. No entanto, a médica francesa enfrenta um panorama crítico: o país conta com pouquíssimos centros de atendimento para estas problemáticas.
Ainda assim, Elise tem dois grandes objectivos: Arranjar dinheiro para abrir uma clínica maior em Bissau e atender mais homens.
Não vou mentir, recebo mais mulheres, mas acho que mundialmente com os psicólogos é assim. Contudo, posso dizer que tenho cerca de 10% de clientela masculina e, para mim, é um dos meus objetivos para os próximos meses e anos continuar a trabalhar com os homens, fazer tudo para que os homens confiem também e venham aqui ao consultório. Porque, quando vemos os dados, não há muitos dados em África, mas quando vemos os dados mundiais sobre saúde mental, os homens sofrem muito mais do que as mulheres. E quando falamos de suicídio, por exemplo, os homens cometem-no muito mais do que as mulheres. Então os homens também precisam de um espaço de escuta e, sobretudo, eu acho que aqui neste contexto cultural africano, onde o homem tem um papel muito importante, tem muita responsabilidade financeira, responsabilidade da família, responsabilidade de muitas coisas… tudo isto é muita pressão e temos de saber como gerir tudo isso.

A terapeuta gaulesa atende pacientes de várias nacionalidades, desde que não sejam pessoas conhecidas.
Sim, já recebi várias nacionalidades: portugueses, franceses, libaneses, mauritanos, guineenses de Conacri, bissau-guineenses… Com certeza, eu não tenho nenhuma limitação. A única limitação é a língua, porque falo francês, português e crioulo, e arranho um pouco de inglês, mas acho que para fazer terapia não é suficiente. Então, se não for pela questão da língua, posso receber qualquer tipo de pessoa que ache que precisa de apoio psicológico, sim, com certeza. A outra limitação, para mim, prende-se com um enquadramento de trabalho muito claro: não posso receber pessoas que conheço pessoalmente, sejam francesas, guineenses ou de qualquer outra nacionalidade. Sempre reencaminho para outro profissional quando é alguém do meu círculo pessoal.
Elise Bidault faz atendimentos diários de até quatro pacientes, mas também recorre às redes sociais como TikTok e Instagram, onde, em crioulo guineense, faz o que a própria chama de psicoeducação.
Porque acho que, se queremos mudar esta consciência colectiva sobre a saúde mental, temos de fazer psicoeducação. Esse é o objetivo principal do meu canal de TikTok; também uso o Instagram e o Facebook, embora com as mesmas publicações. A ideia é falar de saúde mental, desmistificá-la e tentar fazer com que as pessoas percebam que a saúde mental faz parte do nosso dia a dia. Em cada coisa que vivemos, todos os dias, há uma componente de saúde mental, e todos nós somos seres humanos com saúde mental, tal como temos saúde física. O objetivo é mesmo normalizar a saúde mental nas nossas vidas e ajudar as pessoas que precisam de apoio, mas que talvez não saibam que este tipo de cuidado existe.
E traumas de infância? Não tem tratado disso?
Sim, com certeza. Todos nós, como adultos e mesmo enquanto crianças dependendo do trauma… não mencionei isto antes, mas também recebo muitas pessoas que sofrem ou sofreram de violência sexual, por exemplo. Posso dizer que quase 80% da minha clientela sofreu algum tipo de violência sexual. Portanto, como psicólogos, trabalhamos sempre os traumas de infância; são eles que moldam aquilo que somos hoje. A ideia é trabalhar no sentido de compreender o porquê, quais são as consequências desses traumas na vida adulta, como lidar com eles, como avançar e ganhar consciência sobre os mesmos, porque por vezes os traumas ficam escondidos dentro de nós. O objetivo é ajudar as pessoas a compreender o seu próprio funcionamento e os padrões de comportamento que estão ligados a esses traumas de infância.
A saúde mental tem de ser uma prioridade. Entendo perfeitamente que existam outras prioridades, mas a saúde mental é uma necessidade diária. Temos de resolver, a nível pessoal e profissional, a necessidade que os guineenses têm de apoio, de escuta e de cuidados básicos de saúde mental. Porque, quando tratamos destas problemáticas logo no início, evitamos que gerem consequências muito graves lá mais à frente. Vemos todos nós pessoas a andar pela rua e notamos que têm um problema, mas não têm nenhum espaço para onde ir ou alguém que as ajude. Por isso, acho que tem de ser uma prioridade.
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