O bastonário da Ordem dos Jornalistas da Guiné-Bissau, , considera que a multiplicação de formações políticas sem identidade ideológica clara e a instrumentalização da imprensa estão afragilizar a estabilidade institucional e democrática do país.
A posição foi divulgada pelo jornal online Capital News, no âmbito de uma análise sobre a actual situação política guineense. Nhaga, que também é editor-chefe do jornal O Democrata, aponta 2018 como o início de uma sucessão de pequenos grupos que passaram a apresentar-se como partidos políticos, apesar de, na sua avaliação, não seguirem os modelos tradicionais de representação.
Para o jornalista, “tirando os partidos históricos e tradicionais guineenses, nomeadamente, o PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde), a RGB (Resistência da Guiné-Bissau), o PRS (Partido da Renovação Social) e a UM (União para a Mudança), todas as formações políticas criadas no país ‘não são partidos’”.
A análise surge num momento em que é apontada a preparação do Partido Popular Guineense (PPG), formação ainda não anunciada oficialmente e que tem sido associada ao atual primeiro-ministro de transição, Ilídio Vieira Té. Nos últimos dias, dirigentes de diferentes partidos anunciaram a sua saída, alegadamente para aderirem ao novo projecto político.
“Estas novas formações funcionam frequentemente como estruturas de interesses particulares, propensas às alianças a facções militares para promover a instabilidade e fomentar golpes de Estado, uma tendência na qual se enquadra o recente debate em torno do autoproclamado Partido Popular Guineense”, afirmou António Nhaga.
Fragmentação política e crise interna
Na sua leitura, a fragmentação política também está a afectar os partidos tradicionais. O PRS, segundo Nhaga, enfrenta divisões internas que deram origem a três ou quatro facções, enquanto o PAIGC é pressionado por ameaças de cisão que, na sua opinião, são fomentadas externamente.
“Tudo isso acontece num contexto onde está na moda assaltar o Estado e assumir o poder”, frisou o bastonário, relacionando a instabilidade política com o enfraquecimento das instituições e a crise de governação.
Imprensa sob pressão
O responsável considera que a crise política também se reflecte no sector da comunicação social. Segundo António Nhaga, alguns profissionais passaram a defender interesses de grupos políticos, em vez de exercerem uma função independente de escrutínio.
O fenómeno, descreve, transformou jornalistas e outros intervenientes da comunicação social em “bocas de aluguer”, limitados à defesa de agendas particulares.
“O ambiente informativo guineense caracteriza-se por uma crescente polarização onde o contraditório é penalizado ao ponto de quem procura escrutinar e apresentar contrapontos à narrativa dos detentores do poder é rotulado de imediato como militante do PAIGC ou de outras forças da oposição”, salientou.
Para Nhaga, “a anulação prática do contraditório jornalístico independente ‘é uma estratégia intencional que alimenta a atual balbúrdia política’ no país”.
Perante o que classifica como um cenário de “erosão democrática”, o bastonário defende uma frente comum entre os profissionais da comunicação social. O objectivo, sustenta, deve ser recuperar a imprensa como “quarto poder” independente e reforçar a solidariedade entre jornalistas.
Na sua perspectiva, esse caminho é necessário para devolver o país à legalidade democrática e restabelecer o contraditório no espaço público.
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