Zacarias Kamwenho, arcebispo emérito do Lubango (Angola), morreu na última sexta-feira, 29 de maio, dia em que os cristãos celebram a paixão e morte de Cristo. Foi uma das figuras mais marcantes da história da Igreja de Angola, sendo o único bispo que viveu todo o tempo de Angola independente, pois foi ordenado em 1974. A história da Igreja e do país não se pode escrever sem gravar o seu nome, as suas palavras proféticas, o seu compromisso pela justiça e pela paz.
“O funeral de Zacarias Kamwenho será quinta-feira próxima, 4 de junho, também no Lubango.” Foto: Catedral do Lubango. © Tony Neves
O funeral de Zacarias Kamwenho será quinta-feira próxima, 4 de junho, também no Lubango. Depois de algumas eucaristias na catedral do Lubango, a missa de corpo presente será no Estádio da Senhora do Monte e o sepultamento no cemitério da lendária missão católica da Huíla, missão mãe do sul de Angola, fundada pelos Missionários Espiritanos em 1881.
O bispo nasceu em 1934 no Chimbundo, uma aldeia da Missão do Bailundo, no interior de Nova Lisboa (atual Huambo). Tive a alegria de lá passar recentemente e ver que a escola tem o nome de D. Zacarias. Levado pelos Missionários Espiritanos para o seminário, seria ordenado padre por Daniel Junqueira, arcebispo de Nova Lisboa, a 9 de junho de 1961.
“O bispo nasceu em 1934 no Chimbundo, uma aldeia da Missão do Bailundo, no interior de Nova Lisboa (atual Huambo).” Foto: Missão Católica do Bailundo. © Tony Neves
Foi desempenhando sempre cargos de responsabilidade. Seria nomeado reitor do Seminário Maior de Cristo Rei, Nova Lisboa, cargo que ocupou até à surpreendente nomeação como bispo auxiliar de Luanda, em 1974, ainda em tempo colonial.
Roma criou a Diocese de Novo Redondo (hoje Sumbe) em 1975, sendo D. Zacarias nomeado como seu primeiro bispo. Ali esteve 20 anos, até rumar ao Lubango, onde foi o arcebispo coadjutor de D. Manuel Franklin da Costa (1995-1997), sendo o titular de 1997 até 2009, quando se tornou emérito, após ter atingido o limite de idade. Foi substituído por D. Gabriel Mbilingi, espiritano.
Com um humor sempre finíssimo, disse-me um dia: “Para provar que eu sou espiritano de alma e coração, basta ver que todos os meus sucessores foram espiritanos: Benedito Roberto no Sumbe e Gabriel Mbilingi no Lubango!” Após deixar o Lubango ainda foi nomeado, em 2010, administrador apostólico da Diocese do Namibe.
Foi eleito presidente da CEAST onde exerceu dois mandatos em momentos históricos muito difíceis: de 1997 a 2003, tempo que inclui o fim da guerra civil, com o Memorando de Luena assinado em 2002. Neste período de cruel guerra civil, liderou a criação do Movimento Pro Pace (1999) e, com outras igrejas cristãs, lançou em 2000, e presidiu, o Comité Inter-Eclesial para a Paz (Coiepa).
Em 2001, o Parlamento Europeu atribuiu-lhe o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, pelos seus compromissos em favor da paz em Angola.
Fundou a Congregação das Irmãs Franciscanas da Visitação.
“A Conferência Episcopal de Angola e S. Tomé prestou-lhe uma sentida homenagem por ocasião dos seus 50 anos de ordenação episcopal, em novembro de 2024.” Foto: D. Zacarias Kamwenho, Lusofonias. DR
A Conferência Episcopal de Angola e S. Tomé prestou-lhe uma sentida homenagem por ocasião dos seus 50 anos de ordenação episcopal, em novembro de 2024. Multiplicou celebrações e encontros nas várias dioceses por onde passou, seja como padre (Huambo), ou como bispo (Luanda, Sumbe, Lubango e Namibe).
Há recordações que não me abandonam. Quando, em 2016, fui a Luanda ao jubileu dos 150 anos da chegada dos Espiritanos, D. Zacarias não faltou a nenhum dos momentos do denso programa. A eucaristia de encerramento foi muito solene, com milhares de pessoas, no adro da Igreja do Espírito Santo, no S. Pedro do Prenda. Quando chegou o momento de ação de graças, todos os missionários espiritanos foram convidados a juntar-se para uma homenagem. O povo cantava e dançava, os espiritanos faziam o mesmo e, dentre os bispos presentes, sai D. Zacarias, junta-se à dança e diz muito alto: “eu também sou espiritano!” E lá dançou até que o presidente da celebração avançou para o “oremos” final!
“Foi desempenhando sempre cargos de responsabilidade. Seria nomeado reitor do Seminário Maior de Cristo Rei, Nova Lisboa (atual Huambo), cargo que ocupou até à surpreendente nomeação como bispo auxiliar de Luanda, em 1974, ainda em tempo colonial..Foto: Missão da Bela Vista, Huambo. © Tony Neves
Partiu um amigo. Escreveu-me – era ele então o presidente da Conferência Episcopal – o prefácio do meu livro Angola. A Igreja Católica pela Paz, publicado em 2001, no ano anterior ao fim da guerra civil. Concluiu assim: “advogamos o diálogo inclusivo, em que depostas as armas e as intimidações e a compra/venda de interesses (vulgo ‘corrupção’) todos participem do Projecto-Nação e todos se comprometam na e pela sua implantação.”
Conversámos vezes sem conta, partilhámos alegrias e angústias, era sempre uma festa o nosso frequente reencontro. Encontrei-o em Roma na despedida do Papa Francisco e na eleição do Papa Leão. Vi-o, com o seu habitual sorriso, na recente visita do Papa a Angola. Partiu quase sem ter tempo de se despedir, mas deixa um enorme legado, uma mina de diamantes ainda por explorar…
Que descanse na Paz d’Aquele em quem sempre acreditou a quem tanto e tão bem serviu durante toda a sua longa vida.
Obrigado, D. Zacarias.
Tony Neves é padre católico e trabalha em Roma como assistente geral dos Missionários do Espírito Santo (CSSp, Espiritanos), congregação de que é membro.
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