Zacarias Kamwenho (1934-2026): um nome gravado pela justiça e paz em Angola

 

Zacarias Kamwenho, arcebispo emérito do Lubango (Angola), morreu na última sexta-feira, 29 de maio, dia em que os cristãos celebram a paixão e morte de Cristo. Foi uma das figuras mais marcantes da história da Igreja de Angola, sendo o único bispo que viveu todo o tempo de Angola independente, pois foi ordenado em 1974. A história da Igreja e do país não se pode escrever sem gravar o seu nome, as suas palavras proféticas, o seu compromisso pela justiça e pela paz.

Catedral do Lubango, Angola. “O funeral de Zacarias Kamwenho será quinta-feira próxima, 4 de junho, também no Lubango.” Foto: Catedral do Lubango. © Tony Neves

O funeral de Zacarias Kamwenho será quinta-feira próxima, 4 de junho, também no Lubango. Depois de algumas eucaristias na catedral do Lubango, a missa de corpo presente será no Estádio da Senhora do Monte e o sepultamento no cemitério da lendária missão católica da Huíla, missão mãe do sul de Angola, fundada pelos Missionários Espiritanos em 1881.

O bispo nasceu em 1934 no Chimbundo, uma aldeia da Missão do Bailundo, no interior de Nova Lisboa (atual Huambo). Tive a alegria de lá passar recentemente e ver que a escola tem o nome de D. Zacarias. Levado pelos Missionários Espiritanos para o seminário, seria ordenado padre por Daniel Junqueira, arcebispo de Nova Lisboa, a 9 de junho de 1961.

Missão Católica do Bailundo

Missão Católica do Bailundo “O bispo nasceu em 1934 no Chimbundo, uma aldeia da Missão do Bailundo, no interior de Nova Lisboa (atual Huambo).” Foto: Missão Católica do Bailundo. © Tony Neves

Foi desempenhando sempre cargos de responsabilidade. Seria nomeado reitor do Seminário Maior de Cristo Rei, Nova Lisboa, cargo que ocupou até à surpreendente nomeação como bispo auxiliar de Luanda, em 1974, ainda em tempo colonial.

Roma criou a Diocese de Novo Redondo (hoje Sumbe) em 1975, sendo D. Zacarias nomeado como seu primeiro bispo. Ali esteve 20 anos, até rumar ao Lubango, onde foi o arcebispo coadjutor de D. Manuel Franklin da Costa (1995-1997), sendo o titular de 1997 até 2009, quando se tornou emérito, após ter atingido o limite de idade. Foi substituído por D. Gabriel Mbilingi, espiritano.

Com um humor sempre finíssimo, disse-me um dia: “Para provar que eu sou espiritano de alma e coração, basta ver que todos os meus sucessores foram espiritanos: Benedito Roberto no Sumbe e Gabriel Mbilingi no Lubango!” Após deixar o Lubango ainda foi nomeado, em 2010, administrador apostólico da Diocese do Namibe.

Foi eleito presidente da CEAST onde exerceu dois mandatos em momentos históricos muito difíceis: de 1997 a 2003, tempo que inclui o fim da guerra civil, com o Memorando de Luena assinado em 2002. Neste período de cruel guerra civil, liderou a criação do Movimento Pro Pace (1999) e, com outras igrejas cristãs, lançou em 2000, e presidiu, o Comité Inter-Eclesial para a Paz (Coiepa).

Em 2001, o Parlamento Europeu atribuiu-lhe o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, pelos seus compromissos em favor da paz em Angola.

Fundou a Congregação das Irmãs Franciscanas da Visitação.

D.Zacarias Kamwenho, Lusofonias.

D.Zacarias Kamwenho, Lusofonias. “A Conferência Episcopal de Angola e S. Tomé prestou-lhe uma sentida homenagem por ocasião dos seus 50 anos de ordenação episcopal, em novembro de 2024.” Foto: D. Zacarias Kamwenho, Lusofonias. DR

A Conferência Episcopal de Angola e S. Tomé prestou-lhe uma sentida homenagem por ocasião dos seus 50 anos de ordenação episcopal, em novembro de 2024. Multiplicou celebrações e encontros nas várias dioceses por onde passou, seja como padre (Huambo), ou como bispo (Luanda, Sumbe, Lubango e Namibe).

Há recordações que não me abandonam. Quando, em 2016, fui a Luanda ao jubileu dos 150 anos da chegada dos Espiritanos, D. Zacarias não faltou a nenhum dos momentos do denso programa. A eucaristia de encerramento foi muito solene, com milhares de pessoas, no adro da Igreja do Espírito Santo, no S. Pedro do Prenda. Quando chegou o momento de ação de graças, todos os missionários espiritanos foram convidados a juntar-se para uma homenagem. O povo cantava e dançava, os espiritanos faziam o mesmo e, dentre os bispos presentes, sai D. Zacarias, junta-se à dança e diz muito alto: “eu também sou espiritano!” E lá dançou até que o presidente da celebração avançou para o “oremos” final!

Missão da Bela Vista. Huambo

Missão da Bela Vista. Huambo “Foi desempenhando sempre cargos de responsabilidade. Seria nomeado reitor do Seminário Maior de Cristo Rei, Nova Lisboa (atual Huambo), cargo que ocupou até à surpreendente nomeação como bispo auxiliar de Luanda, em 1974, ainda em tempo colonial..Foto: Missão da Bela Vista, Huambo. © Tony Neves

Partiu um amigo. Escreveu-me – era ele então o presidente da Conferência Episcopal – o prefácio do meu livro Angola. A Igreja Católica pela Paz, publicado em 2001, no ano anterior ao fim da guerra civil. Concluiu assim: “advogamos o diálogo inclusivo, em que depostas as armas e as intimidações e a compra/venda de interesses (vulgo ‘corrupção’) todos participem do Projecto-Nação e todos se comprometam na e pela sua implantação.”

Conversámos vezes sem conta, partilhámos alegrias e angústias, era sempre uma festa o nosso frequente reencontro. Encontrei-o em Roma na despedida do Papa Francisco e na eleição do Papa Leão. Vi-o, com o seu habitual sorriso, na recente visita do Papa a Angola. Partiu quase sem ter tempo de se despedir, mas deixa um enorme legado, uma mina de diamantes ainda por explorar…

Que descanse na Paz d’Aquele em quem sempre acreditou a quem tanto e tão bem serviu durante toda a sua longa vida.

Obrigado, D. Zacarias.

 

Tony Neves é padre católico e trabalha em Roma como assistente geral dos Missionários do Espírito Santo (CSSp, Espiritanos), congregação de que é membro.

 

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