Como fica o governo da Venezuela após a queda de Maduro?
Sem María Corina Machado e com Delcy Rodríguez como presidente interina, EUA buscam evitar a instabilidade de uma mudança total de regime.
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou nesta segunda-feira, 11, perante a Corte Internacional de Justiça (CIJ), o mais alto tribunal da ONU, que as negociações diretas com a Guiana sobre a disputa territorial em torno do Essequibo são inevitáveis e indispensáveis.
“A Venezuela está disposta a resolver a disputa territorial com a Guiana, mas essa solução deve ser alcançada de acordo com o único marco legal válido que rege a disputa: o Acordo de Genebra de 1966. A solução negociada é, portanto, um caminho inevitável e indispensável para a resolução da disputa”, declarou.
Nos últimos três anos, o então ditador Nicolás Maduro ameaçou anexar o território disputado diversas vezes, chegando a promover referendos e eleições locais não reconhecidas internacionalmente. O risco de um conflito pelo território na América do Sul deixou o governo brasileiro em alerta. O argumento de Delcy agora imita as mesma reivindicações de Maduro naquela época.
Esta é a primeira viagem de Delcy à Europa desde que assumiu a presidência interina da Venezuela, após a prisão de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos em janeiro deste ano.
Ex-membro do governo Maduro, ela está incluída desde 2018 na lista de autoridades venezuelanas sancionadas pela União Europeia, que, em princípio, estão proibidas de entrar no bloco.

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, em 18 de março Foto: Juan Barreto/AFP
No entanto, Delcy já havia representado a Venezuela em uma cúpula realizada em Bruxelas em 2023 entre a UE e países latino-americanos, e também em uma audiência anterior no a Corte Internacional de Justiça sobre o mesmo caso.
Desde que assumiu o cargo, Delcy fez apenas duas viagens internacionais para países do Caribe, incluindo Granada e Barbados.
A interina e vários membros de sua delegação exibiram nesta segunda viagem um broche de ouro com o mapa da Venezuela, incluindo o território disputado, semelhante ao usado pelo presidente em sua viagem a Granada, que já havia provocado indignação na Guiana.
Longa controvérsia e riscos petrolíferos
Guiana e Venezuela têm uma disputa territorial pela região da Guiana-Essequiba que remonta ao século XIX. A disputa se intensificou a partir de 2015, após a descoberta de vastos campos de petróleo offshore pela ExxonMobil, ao redor da Guiana, país com as maiores reservas de petróleo per capita do mundo.
A região de Essequibo abrange mais de dois terços do território da Guiana, que atualmente controla. A Venezuela reivindica esse território de 160.000 quilômetros quadrados.
A Guiana sustenta que sua demarcação de fronteiras, que remonta à era colonial britânica, foi ratificada em 1899 por um Tribunal Arbitral em Paris e busca confirmação da CIJ.
A Venezuela, por sua vez, apela ao Acordo de Genebra que assinou em 1966 antes da independência da Guiana do Reino Unido, que anulava o laudo anterior e assentava as bases para uma solução negociada. O argumento de Delcy, por tanto, reproduz as reivindicações de Maduro.
A procuradora-geral da Venezuela, Arianny Seijo Noguera, afirmou que seu país “permanece firme em sua recusa em reconfirmar a jurisdição” no caso da CIJ.
“Sua presença aqui não é constitucional, jamais deve ser interpretada como uma concessão da jurisdição da Corte para decidir sobre esta disputa territorial”, enfatizou.
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Ao final da audiência, em um breve contato com jornalistas venezuelanos, Delcy afirmou que seu país “nunca” foi considerado para se tornar o 51º estado dos Estados Unidos.
“Isso não está planejado, nunca estaria planejado porque algo foi feito que nós, venezuelanos, tememos, e que amamos em nosso processo de independência”, assegurou.
Delcy declarou, ainda, que seu governo está trabalhando em “uma agenda diplomática de cooperação” com o governo americano de Donald Trump, após o restabelecimento, em março, das relações diplomáticas rompidas por Maduro sete anos atrás.
O presidente republicano também publicou uma mensagem sarcástica em sua rede social em março sobre a possibilidade da Venezuela se tornar o 51º estado de seu país. Trata-se da vitória do país caribenho no Clássico Mundial de Beisebol contra a seleção americana./Com AFP
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