Tiago Pereira atravessou Portugal de bicicleta em 5 dias. “O maior retorno foi voltar a confiar em mim”

Numa altura em que muitos levam o corpo quase ao limite em provas de Hyrox, Ironman ou nas maratonas, Tiago Pereira, de 28 anos, quis ir além do óbvio. Sozinho, com uma bicicleta, pelas estradas portuguesas, de Chaves a Faro, partiu numa viagem com o objetivo de terminar ao fim de apenas 5 dias. Foram mais de 8 horas por dia a pedalar, alguns imprevistos, muitas dúvidas e, por vezes, vontade de desistir. Mas isso não aconteceu. 

Spoiler alert: Tiago Pereira concluiu a meta. Se foi fácil? De todo. Se se orgulha? Mais do que nunca. E, promete, não vai ficar por aqui. 

Mas antes de falarmos sobre o futuro, importa voltar lá atrás. Afinal, Tiago é o próprio a dizer que a sua vida dava um filme. Que história seria contada nesse filme? Mais um spoiler: é relata pelo próprio atleta português em entrevista à VERSA. 

 

Dizes que a tua vida dava um filme. Conta-nos um bocadinho da tua história

Acho que digo isso porque a minha vida teve fases muito improváveis. Não foi uma história linear, nem muito bem comportada.

Comecei a trabalhar cedo, no Aeroporto do Porto. E aquilo tinha um peso especial para mim, porque o meu sonho sempre foi trabalhar no aeroporto. Tenho família ligada ao mundo da aviação e, de certa forma, era um sítio que eu via com admiração desde miúdo.

Por isso, quando passado cerca de um ano vi-me numa situação que nunca imaginei, suspenso, com a Polícia Judiciária a ir buscar-me ao trabalho e a acabar em tribunal, isso mexeu muito comigo. Tinha 18/19 anos e senti que estava a viver uma injustiça num lugar que para mim significava muito.

Mais tarde fui considerado inocente, mas há coisas que não desaparecem só porque acabam bem no papel. Acho que foi aí que comecei a perceber que o mundo real não funciona como imaginamos quando somos miúdos. Às vezes acontecem coisas que não controlas, nem entendes totalmente, e mesmo assim tens de aprender a reagir.

Depois veio a COVID-19. E nessa altura a minha vida entrou numa fase completamente estranha. Enquanto o mundo estava fechado, eu andava de festa ilegal em festa ilegal, muitas vezes de domingo a domingo, metido num ambiente onde parecia que ninguém queria parar para pensar. Havia diversão, havia histórias absurdas, havia momentos engraçados, mas também havia muita fuga, muita inconsciência e muita gente perdida, eu incluído.

Até que surgiu a oportunidade de ir sozinho para a Suécia trabalhar num data center da Microsoft. Tive três dias para decidir se deixava tudo para trás. E fui.

Acho que foi aí que comecei realmente a fazer-me homem. Passei dois anos fora, trabalhei imenso, ganhei dinheiro rápido, vivi com pessoas completamente diferentes e comecei a ver o mundo de outra forma. Mas também percebi outra coisa, eu não sabia gerir muito bem a liberdade, nem o tempo livre. Era quase como uma besta enjaulada que, de repente, tinha sido solta.

Quando voltei, já não encaixava em muitos sítios onde antes encaixava. No início, não entendia bem porquê, mas depois percebi que tinha mudado. Tinha visto realidades que muita gente à minha volta ainda não tinha visto. Tinha crescido noutro contexto.

Mais recentemente, em poucos meses, a minha vida deu uma volta de 180 graus. Uma relação acabou, perdi várias amizades de anos e perdi o emprego. Foi tudo tão rápido que me obrigou novamente a parar e reorganizar muita coisa dentro de mim, crenças, prioridades, hábitos e até partes minhas que talvez já não encaixassem no Tiago que eu queria ser.

Acho que foi aí que o desporto e o conteúdo deixaram de ser só coisas que eu fazia. Passaram a ser uma forma de me reconstruir com alguma direção.

Criar conteúdo também foi sair da zona de conforto, porque obrigou a expor-me e a mostrar um lado mais real, numa altura em que muita coisa na Internet parece feita só para entreter, provocar ou aparecer. Eu não comecei isto só para ter visualizações. Queria tentar fazer algo diferente, contar uma história de forma honesta e mostrar que não é preciso entrar em polémicas nem fazer barulho para alguém se rever naquilo que estás a viver.

Durante muito tempo vivi em modo reação. Acontecia uma coisa, eu lidava. Caía outra, eu adaptava-me. Mas chega uma altura em que percebes que não podes passar a vida só a sobreviver ao que te acontece.

Talvez esta fase tenha começado precisamente aí. No momento em que deixei de tentar recuperar a vida que tinha perdido e comecei a construir uma versão minha que ainda não conhecia.

Como começou o teu interesse pelo desporto? Quando é que se tornou algo sério?

O desporto começou muito cedo. Comecei a jogar futebol com 5 anos e aos 7 já era federado. Durante muitos anos, a minha vida foi futebol. Era guarda-redes, competi praticamente a vida toda e cheguei ao primeiro ano de sénior.

Mas nessa fase perdi um bocado a magia. O futebol amador exige muito tempo, muita energia e muitas vezes não te dá retorno suficiente para justificares certas situações que tens de engolir. Quando era mais novo havia aquela ilusão. Depois cresces e começas a ver as coisas de outra maneira.

Foi depois do futebol que o ginásio apareceu e acabou por ser a primeira grande ponte para tudo o que veio a seguir. Comecei a treinar mais a sério, a trabalhar o corpo, a criar rotina e a perceber que o treino não mexia só no físico. Mexia também na cabeça. Havia qualquer coisa em mim que ficava mais organizada quando treinava.

Durante cerca de dois anos, o ginásio foi muito importante. Deu-me disciplina, consistência e uma sensação de controlo numa fase em que eu precisava disso. Mas, ao mesmo tempo, chegou a um ponto em que comecei a sentir que estava demasiado fechado, sempre no mesmo espaço, a repetir a mesma rotina.

Foi aí que comecei a correr. Não porque o ginásio tivesse deixado de ter valor, mas porque eu precisava de algo que me tirasse dali e me estimulasse de outra forma. A corrida trouxe uma parte mais solitária, mais crua e mais mental. E foi aí que o desporto deixou de ser só competição ou estética. Passou a ser uma ferramenta para me conhecer melhor.

No início partilhavas as tuas corridas. Quando é que passaste para a bicicleta?

Comecei por partilhar as corridas porque era isso que estava a viver na altura. A maratona apareceu quase naturalmente. Convidei algumas pessoas para treinarem comigo, ninguém quis vir, e acabei por fazer tudo sozinho.

Depois da maratona, muita gente talvez esperasse que eu seguisse o caminho mais óbvio, triatlos, Ironman, esse tipo de evolução. Mas eu comecei a perceber que não queria fazer só aquilo que parecia fazer sentido aos olhos dos outros.

A bicicleta apareceu porque eu queria percorrer distâncias maiores. Queria sentir que estava mesmo a viver uma jornada, não apenas a treinar. Queria atravessar sítios, chegar a algum lado através do esforço do meu corpo e contar uma história pelo caminho.

Por isso, a passagem da corrida para a bicicleta foi natural. A corrida ensinou-me a estar sozinho comigo. A bicicleta deu-me escala para transformar isso numa viagem.

Por que razão decidiste fazer a travessia de Portugal de bicicleta?

A travessia nasceu de uma necessidade muito pessoal. Depois da maratona, podia ter seguido um caminho mais esperado como triatlos ou outras provas com grandes organizações. Mas senti que precisava de outra coisa. Precisava de estar sozinho, de me pôr numa situação em que dependesse muito de mim e em que não houvesse grandes garantias.

Eu sabia que ia ser difícil. Tinha comprado a bicicleta há poucos meses, não tinha equipa, não tinha grande experiência e tive de aprender muita coisa sozinho. Sabia que ia errar. Sabia que ia haver coisas mal preparadas. Mas também sabia que isso fazia parte da jornada.

Para mim, era quase como entrar num emprego novo. Nos primeiros tempos sabes que vais falhar, que vais parecer perdido, que vais cometer erros básicos. Mas é assim que cresces.

A travessia não foi só sobre fazer mais de 700 quilómetros. Foi sobre escolher um caminho meu, mesmo que fosse mais incerto, mais solitário e mais difícil de explicar aos outros.

Passaste por vários desafios. Tens alguns exemplos?

Passei por vários desafios, tanto na preparação como durante a travessia.

Comprei a bicicleta em dezembro e comecei praticamente do zero. Treinar no inverno, sozinho, com frio, chuva, subidas e treinos de três, quatro ou cinco horas foi bastante duro. Ainda estava a aprender muito sobre a bicicleta e isso aumentava sempre a margem de erro.

Durante a travessia, o primeiro grande choque veio logo no primeiro dia. Achei que ia conseguir chegar ao hotel ainda de dia, mas acabei a pedalar de noite, sozinho numa serra, sem rede, sem luz na bicicleta e sem forma de pedir ajuda. Durante mais de uma hora e meia pedalei praticamente às escuras. Acho que aí percebi que aquilo já não era só uma aventura bonita.

Depois vieram as dores nos joelhos. Provavelmente por não ter feito um ajuste à bicicleta em condições, comecei a sentir o corpo a pagar a fatura dos quilómetros. No último dia acordei com um joelho quase o dobro do outro. A senhora do Airbnb onde fiquei chegou até me chegou dizer-me para não ir, porque eu não estava em condições.

Mas naquele momento eu só conseguia pensar que tinha começado aquilo e precisava de acabar. Mesmo assim, a poucos quilómetros de chegar, furei um pneu. Foi um daqueles momentos em que percebes que, por mais que tentes controlar tudo, há sempre alguma coisa que te escapa.

E depois aconteceu uma coisa que ainda hoje me custa explicar bem. Apareceu uma pessoa que me seguia nas redes, ajudou-me no momento certo e, de certa forma, permitiu que eu conseguisse terminar o desafio. Foi um misto enorme de frustração, alívio e gratidão.

A força veio daí também. De perceber que eu tinha feito tudo o que podia durante meses, mas que no fim continuava a precisar de aceitar o inesperado. Acho que isso resume muito bem a travessia e talvez a vida também. Tu preparas-te, esforças-te, tentas controlar, mas há sempre uma parte que não depende de ti. E quando chega a hora da verdade, só tens de continuar com aquilo que tens à frente.

Este foi um desafio por ti mesmo. Qual o retorno no final?

O maior retorno foi voltar a confiar em mim.

Eu precisava de sentir que ainda era capaz de começar uma coisa e acabá-la. Vinha de uma fase muito complicada, em que muita coisa me tinha saído do controlo ao mesmo tempo, e este desafio acabou por me devolver alguma direção.

Claro que chegar a Faro teve peso. Mas o mais importante não foi só completar os quilómetros. Foi perceber que, mesmo depois de uma fase em que me senti perdido, ainda conseguia escolher um caminho, aceitar o preço dessa decisão e ir até ao fim.

Depois veio outro retorno que eu não esperava tanto, as mensagens privadas. Pessoas a dizerem que também se sentem o mesmo, que também estão numa fase de reconstrução, que se viram um bocadinho naquilo que eu estava a viver.

Isso mexeu muito comigo, porque durante algum tempo achei que era só eu que me sentia assim. E afinal não era. Talvez a maior vitória tenha sido essa. Transformar uma fase que podia ter ficado só dentro de mim numa coisa que chegou a outras pessoas.

No fundo, acho que uma queda não define totalmente uma pessoa. O que começa a definir é a forma como ela reage depois. Não aquilo que diz que é, mas aquilo que faz quando ninguém lhe garante que vai resultar.

Vais continuar a desafiar-te no mundo do desporto? O que se segue?

Sim, vou continuar. O desporto entrou na minha vida de uma forma demasiado importante para agora ser só uma fase.

Neste momento quero continuar nesta parte de desportos de endurance, evoluir, aprender mais e pôr-me em contextos onde volte a sair da zona de conforto. Também quero começar a treinar e a partilhar experiências com pessoas mais fortes do que eu, porque acho que isso me vai obrigar a crescer muito, tanto como atleta como pessoa.

Ainda não quero anunciar um próximo grande desafio só para criar expectativa. Quero que o próximo capítulo faça sentido e não seja apenas uma tentativa de repetir o impacto da travessia de Portugal.

Mas sei que vou continuar a procurar desafios físicos que me obriguem a descobrir mais sobre mim e que, ao mesmo tempo, possam contar uma história real a quem acompanha. Para mim, o caminho é esse, continuar a evoluir no desporto, continuar a viver experiências fortes e continuar a transformar isso em algo onde outras pessoas também se possam rever.


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