“Se tenho fome emocional, não vou comer qualquer coisa”. O que fazer quando a comida esconde problemas e frustrações?
O dia no trabalho não trouxe qualquer desafio. Chega a casa sem motivação. É então que, ao abrir o armário, encontra aquelas bolachas que sabem como se lhe devolvessem o sentido da vida. Já nos aconteceu a todos. O alerta surge quando este comportamento deixa de ser pontual e se transforma numa adição
Os nutricionistas confirmam que há cada vez mais diagnósticos de fome emocional, embora não consigam concretizar quantos desses números são efetivamente novos casos ou reflexo de uma maior atenção dada a este tema.
Com a ajuda dos nutricionistas Conceição Calhau, autora do livro “Engolir Sapos Engorda – O peso das emoções na saúde e na balança”, e João Rodrigues, autor do livro “Fome Emocional – Porque não consigo parar de comer?”, olhamos para as causas, sinais de alerta e caminhos de tratamento.
E percebemos como o verão, com mais convívios e a pressão dos pares, pode favorecer esta fome que procura esconder problemas e frustrações.
Uma vida que não facilita
Comecemos pelas causas. O nosso estilo de vida, cada vez mais apressado, pode ser apontado como um dos principais culpados pela fome emocional.
“É uma consequência do ritmo de vida que levamos, das expectativas que criamos, da ideia de ter uma vida perfeita. As redes sociais mostram-nos corpos perfeitos. Vão surgindo frustrações, ansiedades, preocupações. E depois há o stress associado ao trabalho e aos relacionamentos. Faz com que as pessoas sintam a necessidade de compensar com a alimentação aquilo que não conseguiram atingir em termos de bem-estar emocional durante o dia”, explica João Rodrigues, autor do projeto Mundo da Nutrição.
Perante este quadro, os nossos “sensores de apetite e saciedade” vão ficando “desajustados”. E o corpo, em constante estado de alerta, busca “uma recompensa, uma compensação”, junta Conceição Calhau.
Ainda assim, pode ser necessário regressar ao passado para encontrar a raiz desta fome emocional: à infância. Segundo a também professora catedrática da Nova Medical School, é frequente um sistema de recompensa ou castigo relacionado com a comida: “a recompensa vem com os doces”.
O nosso cérebro quer recompensas
Recompensa: é uma das palavras mais usadas quando o tema é fome emocional.
“Os centros de recompensa do nosso cérebro, que são ativados por estímulos diferentes, produzem mensagens de bem-estar e promovem o prazer. A alimentação é um dos mecanismos utilizados para ativá-los. O que não é normal ou saudável é que estejamos a ativar estes mecanismos como forma de compensação”, descreve João Rodrigues.
Ou seja, é expectável que nos sintamos bem depois de comer. Não devíamos era forçar esse mecanismo para esconder – mesmo que momentaneamente – aquilo que não está a correr bem nas nossas vidas.
Estas recompensas imediatas, avisa Conceição Calhau, “depois viram adições”. “Quando as pessoas têm muita emoção em relação a alguns alimentos, há alguma coisa que está mal”, junta.
A fome não se trata só com o nutricionista
O tratamento é individualizado – e, em muitos casos, multidisciplinar. Conceição Calhau conta que costuma sugerir aos pacientes um acompanhamento paralelo em psiquiatria ou psicologia, no sentido de chegar à causa da adição por determinado alimento.
“De outro modo, é como se estivéssemos a varrer o problema para debaixo do tapete, seja ele uma vinculação, uma frustração ou uma falha de personalidade”, nota.
E há uma outra certeza para esta nutricionista: proibir o alimento em causa não é a solução. O processo de separação tem de ser gradual.
“Não posso achar que trato a adição com açúcar dizendo à pessoa que ela não vai comer açúcar. É como dizer a um toxicodependente – e o açúcar também é uma droga, embora muitas vezes não seja entendido como tal – que não vai usar cocaína”, compara.
Padrões e tendências
A pergunta que se estará a fazer é: como é que sei que a minha fome é emocional? A resposta resume-se a uma palavra: padrões.
Perceber que quer o mesmo alimento, na mesma altura do dia (ou da semana), com muita frequência, é um grande sinal de alerta. Se repete, na sua cabeça, a frase “eu não consigo deixar de comer isto todos os dias”, é importante que procure ajuda especializada.
“Além de tentarmos perceber quais são os padrões, devemos também tentar cruzar a informação com o que aconteceu nesse dia ou nessa altura da vida, para percebermos se há algum gatilho ou conjunto de estímulos que fazem com que tenhamos tendência para determinados alimentos”, remata João Rodrigues.
Conceição Calhau avisa que, muitas vezes, este processo é gradual, até atingir o grau de adição.
Não é qualquer coisa que mata a fome emocional
Se a sua fome for fisiológica, não importa o que vai comer, que acaba saciado. Na fome emocional não é assim: “não a conseguimos saciar com qualquer alimento”, confirmam os nutricionistas.
A fome emocional procura alimentos ricos em açúcar, sal e gordura. E também presta atenção às texturas, como o crocante.
“Na fome fisiológica, se estou com fome, como. Se tenho fome emocional, não vou comer qualquer coisa. Tem de ser algo específico, como batata frita, um chocolate ou um bolo. É a grande diferença. A fome emocional é exigente naquilo que vou querer comer”, completa Conceição Calhau.
Como controlar o apetite voraz: mexa-se, descanse
São pilares de uma vida saudável: alimentação, exercício físico e descanso. E é através deles que também se trata a fome emocional.
“Quando desregulamos as nossas rotinas de sono, mexemos também na nossa relação com a comida. É mais propenso haver esta fome emocional quando temos o sono desregulado”, evidencia João Rodrigues.
Já da parte do exercício físico, segundo Conceição Calhau, mostra que “se tivermos estímulos à massa muscular, temos também a libertação de substâncias que nos dão prazer e aumentam a autoestima. Toda a parte da alimentação vai estar suportada se começarmos por aqui”.
Não é um problema só de pessoas com obesidade
Os nutricionistas confirmam que a fome emocional não é um exclusivo de pessoas com obesidade. “Podemos ser magros e doentes. A saúde não se mede ao peso. A obesidade é visível. Agora, a hipertensão arterial, a diabetes ou a insuficiência renal não são visíveis”, argumenta Conceição Calhau.
“Qualquer pessoa, de qualquer idade, de qualquer género, de qualquer composição corporal, pode sofrer de fome emocional”, atesta João Rodrigues, lembrando que, para quem sofre de fome emocional, há uma tendência para o aumento de peso ao longo do tempo, devido à forte ingestão calórica.
Verão: como a fome emocional se alimenta dos contextos
Não existem estudos que comprovem que o verão é uma altura mais propícia para a fome emocional. Há, ainda assim, um conjunto de contextos e situações que podem contribuir para ela.
No verão tendemos a estar mais relaxados, a achar que merecemos uma pausa de todos os sacrifícios que impusemos a nós próprios, mais disponíveis para comer alimentos ricos em açúcar – como um gelado ou uma bola de Berlim. E há depois o outro lado: andamos mais angustiados com a nossa imagem corporal, queremos atingir determinados padrões.
“O que pode criar ciclos de frustração, levando a pessoa a refugiar-se em determinados alimentos. Pode criar processos cíclicos”, explica João Rodrigues.
Verão é também um momento de convívio com familiares e amigos – quase sempre à mesa. “Há a pressão dos pares. Aquela ideia de ‘só como hoje, só bebo hoje’. E estes convívios desregulam ainda mais as rotinas”, mostra João Rodrigues.
“Se já tenho uma predisposição para comer por razões emocionais, posso sentir-me mais autorizada a comer um bolo, porque está toda a gente a fazer o mesmo. E se não tivesse essa aprovação dos pares, talvez não o fizesse. Quando se está a fazer o trabalho de tratar a fome emocional, os pares não ajudam nada”, conclui Conceição Calhau.
Dicas para uma boa relação com os gelados
Antes de ler o que vem a seguir, fixe isto: não há alimentos proibidos. Mesmo perante um quadro de fome emocional, o que importa é reestabelecer uma relação equilibrada com aquilo que comemos.
Agora sim, falemos dos gelados, que podem transformar-se numa dor de cabeça nesta altura do ano. “Se sei que é difícil resistir aos gelados, não devo tê-los em casa. Devo ter gelados em casa quando assumir que os vou comer”, considera João Rodrigues.
Temos mais dicas. Comprar as “versões mini”, porque se consegue matar o desejo com menos quantidade. E optar por gelados menos calóricos: os que têm mais gelo e fruta.
Estratégias como estas podem ajudar, concorda Conceição Calhau, mas fica o alerta: “não estamos a tratar o problema, estamos a adiar o tratamento. Até porque depois há pessoas que saem de casa para ir comprar esses produtos”.
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