A Geração Z está mesmo a trocar a noite pelo desporto? Há uma razão (e não é só para ter um estilo de vida saudável)
A ideia de que a Geração Z abandonou por completo a noite para se dedicar ao desporto e a um estilo de vida impecável tornou-se um tema recorrente na cultura jovem, mas a realidade é substancialmente mais complexa. Mais do que uma simples troca de passatempos, tem-se vindo a assistir a uma reconfiguração profunda na forma como os mais jovens gerem a sua saúde mental, procuram validação social e constroem laços de comunidade num mundo em rápida transformação.
Contrariamente à ideia de uma geração totalmente abstémia, os dados europeus revelam que a tendência dominante é a moderação. O consumo de álcool tornou-se mais reduzido e ocasional, acompanhado por um crescimento de popularidade das bebidas sem álcool ou com baixo teor alcoólico.
A noite e o álcool perderam o monopólio da socialização, abrindo espaço para alternativas de lazer diurnas e mais estruturadas. É neste contexto que os run clubs ganharam uma expressão sem precedentes. Mais do que a componente desportiva, estes grupos funcionam como uma resposta direta à solidão e à desconexão agravadas pelo uso intensivo de ecrãs e redes sociais.
“O cérebro humano não consegue, nas interações através de um ecrã ou através de emojis, ter o mesmo nível de satisfação, perceção de conexão, pertença e segurança que tem numa interação presencial”, explica Filipa Jardim da Silva, psicóloga e fundadora da Coletivo Transformar, à MAGG. A psicóloga esclareceu ainda que estes clubes fomentam essa pertença, uma vez que são estruturados tendo dia, hora, percurso e um grupo previamente determinado, excluindo a pressão social ou estética de uma discoteca, que implementa frequentemente um código de vestuário.
Filipa Jardim da Silva, psicóloga e fundadora do Coletivo Transformar
Apesar de ser a geração com maior acesso a informação sobre saúde mental, a Geração Z enfrenta níveis alarmantes de sofrimento psicológico. Estimativas de um recente relatório da UNICEF indicaram que um em cada cinco jovens nos países desenvolvidos vive com uma condição de saúde mental, permanecendo o suicídio como a segunda causa de morte nesta faixa etária.
Paralelamente, existe uma disparidade vincada entre o estilo de vida saudável promovido no ambiente digital e a realidade populacional. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que apenas 15% das raparigas e 25% dos rapazes cumprem a recomendação de 60 minutos diários de atividade física, o que demonstra que este estilo de vida é, em muitos casos, mais aspiracional do que prático.
A juntar a este cenário, surge o risco de a procura por saúde se transformar numa nova fonte de ansiedade e compulsão. Quando a contagem rígida de horas de sono, as métricas de treino ou a obsessão pela alimentação ideal são movidas por exigências externas, o autocuidado perde a sua função protetora.
“Quando o autocuidado perde o equilíbrio e se torna rígido, torna-se uma obsessão que diminui a nossa liberdade e impacta negativamente a saúde física e mental”, alerta a especialista. “O prazer passa a dar lugar a uma permanente obrigação e o descanso é vivido como fracasso ou preguiça. Não há corpo perfeito, estilo de vida ou performance perfeita”, afiança.
A transição dos encontros noturnos para ambientes de bem-estar e atividades de dia-a-dia está também a redefinir a dinâmica das relações amorosas e das amizades. A participação em atividade regulares com interesses partilhados, como clubes de corrida, aulas de pintura, costura ou música, oferecem uma alternativa mais autêntica para conhecer pessoas e criar intimidade.
“Mais do que uma mudança de hábitos de consumo, estamos perante uma evolução na forma de construir identidade, intimidade, comunidade e mesmo estatuto social”, sublinha a psicóloga, referindo ainda que esta é uma estratégia saudável para diversificar a rede de suporte e conhecer pessoas com quem se tem, à partida, algo em comum.
Longe de ser uma mera moda passageira, este movimento reflete a capacidade de adaptação da cultura jovem perante os desafios da sociedade moderna. Para garantir que esta transformação seja positiva, o foco deve manter-se na flexibilidade, no combate à rigidez e na preservação de pontes de diálogo e convivência entre diferentes gerações, conclui a especialista.
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