Sarina Azevedo leva a língua e a memória de Cabo Verde ao Paraíso, em Braga

A ponte entre esse trabalho e o painel do Paraíso passa pelo projeto Braga 25 “O que fazemos com isto?”, onde Sarina conheceu António Zaqueu e Luege D’Olim. Já antes lhe diziam que tinha potencial para criar conteúdos, mas só ali sentiu que existia um espaço que a representava. Conviveu com artistas mais experientes, como Joãozinho da Costa, Marinho e os Landa, e participou num processo de escrita orientado pelo escritor angolano Ondjaki, que a levou a reencontrar uma parte de si que sentia adormecida desde criança, quando escrevia contos, crónicas e poesia. Desse processo nasceu o seu conto na antologia “Tudo Isto É Futuro”, sobre a seca e a fome em Cabo Verde, um tema que não viveu diretamente mas que a atravessa através da memória familiar. O bisavô materno de Sarina chegou a São Lourenço dos Órgãos fugido da fome e foi acolhido pela família que viria a ser a da sua avó paterna, um encontro que aproximou as duas famílias ao longo de gerações até hoje. As casas das duas avós ficam frente a frente. “Quando penso nisso, percebo como a nossa história pessoal é feita de acontecimentos que aconteceram muito antes de nós, de dores, encontros, deslocações e gestos de sobrevivência que continuam a ter consequências nas gerações seguintes“, diz.

Sarina insiste em não tratar a experiência africana ou migrante em Portugal como um bloco homogéneo, já que cada pessoa carrega a memória linguística, política e social do seu próprio país, e é nessa especificidade que vê a forma de combater a simplificação e mostrar a diversidade real do continente africano e das suas diásporas. Trazer a língua, a história e as contradições de Cabo Verde para o centro do debate é, para si, uma forma de contestar a ideia de que o conhecimento válido vem apenas do ocidente, e de transformar a criação de conteúdos numa ferramenta de descolonização do olhar. Valoriza também o encontro presencial, que o digital não substitui, pela escuta sem filtro e pela possibilidade de construir raciocínio em tempo real com quem está na sala. É essa combinação, entre pesquisa, memória e presença, que descreve como o lugar que quer ocupar, o de ponte e de salvaguarda consciente da memória coletiva cabo-verdiana.

A conversa “Arte, participação e práticas de contestação da colonialidade”, com Sarina Azevedo, António Zaqueu e Luege D’Olim, é gratuita e acontece às 15h00 de sábado, no gnration, dentro da programação do Paraíso 2026.

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