Publicações no Instagram, no Facebook e no X alegam que mais de 232 empresas brasileiras “fugiram para o Paraguai em meio ao peso da carga tributária” no país. Os posts associam o número à gestão do ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), durante o governo Lula. É falso.
Por meio do projeto de verificação de notícias, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa
Mais de 232 empresas já fugiram para o Paraguai expondo o desastre tributário brasileiro
– Texto de imagem publicada no Instagram acompanhada da foto de Haddad, com mais de 18 mil curtidas
Uma busca no Google pelo número “232” junto das palavras “empresas”, “brasileiras” e “Paraguai” levou a uma matéria do portal de notícias Poder360, publicada em 23 de maio deste ano, na qual o portal divulgou os dados que embasaram os posts virais.
O levantamento, feito com dados do governo paraguaio e da Câmara de Empresários Brasileiros no Paraguai, mostra que a migração das 232 empresas ocorreu de 2007 a março de 2026, não apenas durante a gestão de Haddad no Ministério da Fazenda.
O ex-ministro esteve à frente da pasta entre janeiro de 2023 e março deste ano, quando deixou o cargo para concorrer ao governo de São Paulo pelo Partido dos Trabalhadores nas eleições de outubro.
De acordo com a reportagem do Poder 360, a maior migração ocorreu entre 2017 e 2020, durante os governos dos ex-presidentes Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL), em que 46 companhias saíram do país.
Do início da atual gestão de Lula, em 2023, até março, período em que Haddad esteve à frente do ministério da fazenda, o número foi de 34 empresas. Ou seja, inferior ao total que circula nas publicações.
O Ministério da Fazenda disse que “não dispõe do número de empresas que, após saírem do Brasil, passaram a atuar no Paraguai”.
Já o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior comentou que a “decisão de investimentos de empresas brasileiras no exterior é de caráter privado e não monitora esses movimentos”.
Regime de Maquila: lei que atrai empresas no Paraguai
A reportagem do Poder360 explica que grande parte dessas empresas optou por atuar no Paraguai por conta do regime de Maquila, legislação fiscal criada em 1997, que prevê menor carga tributária e menos direitos trabalhistas no país vizinho.
O advogado e professor de pós-graduação da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Jean Menezes de Aguiar, afirmou que a estrutura de Maquila permite que uma empresa estrangeira vá para o Paraguai, importe o que precisa pagando um imposto muito reduzido, com empregados sem direitos trabalhistas, e exporte o que produz.
“Há uma precarização aí e um barateamento do produto. Altamente interessante para um modelo capitalista empresarial, mas totalmente discutível do ponto de vista da relação de emprego e atendimento ao trabalhador em geral. No modelo de Maquila, há um imposto único de 1%, regime desenhado exclusivamente para incentivar a industrialização voltada à exportação”, afirmou o professor.
Os posts circulam em meio a uma onda de migração de brasileiros para o Paraguai. Desde 2025, o chefe do executivo paraguaio, Santiago Peña, tem promovido mutirões para organizar a demanda e atender os aspirantes a residentes.
A alegação também foi checada pelo Aos Fatos, AFP Checamos e Fato ou Fake.
Todos os conteúdos da Lupa são gratuitos, mas precisamos da sua ajuda para seguir dessa forma. Clique aqui para fazer parte do Contexto e apoiar o nosso trabalho contra a desinformação.
Leia também
Crédito: Link de origem