Brasil: Aplicação da IA na saúde deve ser liderada pelo setor público

O ministro da Saúde do Brasil defendeu que a aplicação da inteligência artificial na saúde deve ser conduzida pelo setor público, sob pena de aprofundar desigualdades e diminuir a soberania dos países, numa conferência em Lisboa

O ministro da Saúde do Brasil, Alexandre Padilha, afirmou, em Lisboa, que a implementação da inteligência artificial nos sistemas de saúde deve ter o setor público como líder e orientador do processo. Em conferência de imprensa realizada no âmbito da conferência internacional “Shaping IA in Health”, que decorre na capital portuguesa, o governante sublinhou que essa abordagem é a única capaz de reduzir assimetrias e integrar o setor privado num esforço comum. “Se a implementação, a introdução da inteligência artificial na saúde for liderada pelo público, pelo sistema nacional público, irá reduzir desigualdades, irá juntar todos, inclusive o setor privado”, declarou aos jornalistas.

Em sentido oposto, Padilha advertiu que, caso o avanço tecnológico fique refém de interesses privados ou de atores estrangeiros dentro de um país, o resultado será o agravamento das distâncias sociais e uma perda de autonomia nacional. Para o ministro, a inacessibilidade a estas ferramentas configura não um salto inovador, mas sim um ato de injustiça. A sua posição encontrou eco nas palavras do diretor regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a Europa, Hans Kluge, que também participou no encontro com a imprensa. Kluge observou que a inteligência artificial ainda não está ao serviço de todos e que a partilha de conhecimento entre nações é fundamental para evitar a repetição de erros já solucionados por outros.

A ministra da Saúde de Portugal, Ana Paula Martins, alinhou-se com os alertas dos seus homólogos e acrescentou uma preocupação suplementar: a iliteracia digital e em IA pode funcionar como um motor de novas injustiças se a tecnologia não for disponibilizada de forma universal. “O que nós queremos é que toda esta agenda digital na saúde, onde está a inteligência artificial incluída, seja usada de acordo com as necessidades dos cidadãos e para transformar a sua vida”, afirmou. A governante lembrou que o plano de recuperação e resiliência português já canalizou mais de 400 milhões de euros para a agenda digital da saúde, cobrindo desde infraestruturas até aplicações de IA.

A conferência internacional surge num momento em que Portugal formalizou a sua candidatura para albergar um escritório geograficamente descentralizado (GDO) da OMS, especialmente vocacionado para a Inteligência Artificial na Saúde. Questionada sobre o estado do processo, Ana Paula Martins confirmou que outros países também apresentaram propostas, mas revelou que, em caso de vitória, a sede do futuro escritório será na cidade do Porto. A ministra justificou a aposta com três pilares, destacando o “histórico de trabalho na área digital e também na inteligência artificial” como o mais relevante. Sublinhou ainda que, independentemente do resultado, o essencial é fomentar relações entre Estados soberanos para que a transformação digital beneficie o maior número possível de pessoas, dentro e fora da Europa.

Até quinta-feira, a conferência “Shaping IA in Health” procurará reforçar a cooperação internacional para uma utilização ética, segura e eficaz da inteligência artificial nos cuidados de saúde. O evento, organizado pela OMS em parceria com o Ministério da Saúde português, iniciou-se na segunda-feira e reúne representantes governamentais de 37 países, além de investigadores, profissionais de saúde e académicos de diversas universidades. O debate centra-se no potencial da IA para melhorar os sistemas de saúde, num contexto de crescentes desafios globais.

NR/HN/Lusa

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