Miami aparenta ser sonho de vida com lendárias sagas de afirmação, fluxos migratórios dos oitentas aos noventas, séries espremidas e coladas a esse eixo temático e fascínio irreversível, de praia e alta finança. Toda uma depravação de luxos entre a tentação e prosperidade. Mas nem sempre é fácil esse lugar ao sol, essa atração por ondas de calor. Cristiano Azevedo é um dos portugueses que furou constrangimentos, estabelecendo-se com a mulher colombiana na cidade. Um caminho de oito anos sem perder o amor da Invicta e do FC Porto, procurando evangelizar quem possa desde Miami, comunicando muito alegremente com convivas colombianos.
Miami junta e casa Portugal com a Colômbia, tendo o clube azul e branco consagrado de forma mais evidente essa carta de afinidades. Uma equipa de luxo fez parte da expressão do Dragão na Europa. “Estou a viver em Miami há oito anos, mas foi, na verdade, um acidente de percurso, porque sempre andei por cidades cosmopolitas como Nova Iorque e Londres. Vim com um projeto de abrir vários restaurantes, mas apaixonei-me pela vida de Miami. Evoluiu muito em hotelaria de luxo e segue a crescer imenso, na estrutura e na abertura à arte”, contextualiza, distante da ótica do sonho americano. “O meu nunca passou por coisas materiais, foi mais por conhecer pessoas e técnicas além-fronteiras. Estou muito feliz, porque tenho viajado e feito amizades pelo mundo fora. Nova Iorque foi um caso à parte pela gastronomia. Disso tenho saudades”, revela Cristiano Azevedo, que veste a camisola de Portugal compreendendo uma certa lisura, porque há bandeira amarela a esvoaçar lá em casa. “A seleção já nos habituou a estes palcos, mas viver um Mundial no país onde vives faz com que sintas tudo mais à flor da pele. O Portugal-Colômbia está a mover multidões, porque tivemos muitos colombianos de sucesso em Portugal. Haverá festa dentro e fora do estádio. Como em minha casa, visto que a minha esposa é colombiana”, admite, entrando no enredo que motivará adrenalina nos píncaros: “Eu gostava que Portugal e Colômbia chegassem ao seu jogo sem precisar da vitória. A Colômbia é capaz de fazer um jogo mais corrido nas alas e Portugal tem um meio-campo organizado para atacar em bloco. Como o filhote cá em casa, que é luso-colombiano, é FC Porto, quero acreditar que somos dois contra um, mas a Luísa também fica dividida porque adora Portugal. Qualquer resultado nos fará celebrar em casa”.
Cristiano Azevedo cumpriu a tradição com um grupo que conhece do WhatsApp, pelo qual se vão filiando portugueses espalhados por Miami. Viu o dececionante empate com o Congo entre um lote de 20 compatriotas. “Decidi ver os jogos da fase de grupos com amigos portugueses e colombianos e, caso Portugal avance, começarei a viajar para ver em vários estádios, esperando chegar a uma final. Mas o Congo deixou aqui uma sensação duvidosa”, reconhece, na ressaca do empate 1-1.
Em Miami, este homem da Invicta que trabalha em restauração de luxo, em festas privadas, lança o perfume sobre como contempla Miami como um paraíso de amor por Portugal. “Além da nossa comunidade, há a loucura de muitos fãs da América Latina por Portugal. Seguramente vamos ter em Miami muita gente a torcer por Portugal e ainda há que contar com a fanzone. Vai ser tudo contagiado pela festa. O latino é muito apaixonado por futebol e na Flórida isso vai sentir-se”, aposta Cristiano Azevedo.
Fé em Cristiano Ronaldo e apreço por Díaz, aos olhos de Frederico
Frederico Gonçalves é outro português radicado em Miami. Curva-se a Ronaldo e ao desejo de o ver consagrado nos EUA. “Adorava que Portugal ganhasse também por ele, pelo que mostra como trabalhador e pessoa dedicada. Se for campeão, penso que se imortaliza como melhor do mundo”, atira, embora também com referências próximas do lado colombiano com Luis Díaz. “Tenho muito carinho por eles, pelos que jogaram no FC Porto. Estive na Copa América em 2024 e vi jogos com amigos colombianos, vi o dramático embate com o Uruguai. Um grande amigo meu é agente do Luís Díaz. Eles estão confiantes, o Díaz tem estado a brilhar, igual ao que fez no FC Porto, Liverpool e, agora, no Bayern. É muito humilde e o melhor da Colômbia”, conta.
O inquebrável ADN da paixão portista
Amor ao FC Porto também fez pontificar o apreço pela Colômbia. Cristiano vai com frequência a casa ou a jogos europeus do clube. O “reencontro” com James, Díaz e Quintero atenua o eventual desconsolo de uma derrota. Mentalidade de Farioli foi rápido a destruir alguma desconfiança pela falta de currículo
Cristiano percorre a vida aventureira dentro da qual descobriu um compromisso de honra, relacionando-se de alma com o FC Porto. “Sempre gostei muito de futebol, mas não era tão apaixonado como sou hoje. Quando decidi começar a viajar e viver fora, algo mudou em mim. Senti necessidade de ter qualquer coisa que me fizesse estar perto de casa e do Porto. Longe, com vários amigos a seguirem as suas vidas, fiquei mais apaixonado pelo meu clube, na carência da minha cidade. O futebol ajudou-me nessa aproximação”, explica o português, numa ligação plena: “Já estou fora há muito tempo, mas mantenho Portugal em mim, no estilo de vida, alimentação, maneira de ser e proximidade com a família. Vejo todos os jogos do FC Porto. Não sei como me aturam alguns no trabalho, porque levo sempre o tablet para acompanhar jogos na rádio”.
O casamento com Luísa até acentuou a ligação ao Dragão. “Começou a tradição de irmos ver jogos do FC Porto na Europa, porque era uma maneira de conhecer outras cidades e ela também se apaixonou pelo FC Porto. O nosso filho Luca já é ADN FC Porto desde que nasceu. Ouvia as músicas na barriga da mãe e o “Amor Eterno” foi a primeira música que ouviu ao nascer. O futebol vivido da forma certa, é tradição e família. Foi o clube que me deu essa aproximação a casa. Podemos fazer algo juntos sempre com o FC Porto no pensamento”, explana Cristiano, em contagem decrescente para um jogo que agita o pensamento ao evocar James Rodríguez, Luis Díaz e Quintero. “Tenho carinho por todos eles, porque representaram muito bem o meu clube. Na eventualidade de um mau resultado para Portugal, ficarei feliz por eles. Principalmente pelo James, com quem já me cruzei em Miami. Tirei uma foto e disse que devia regressar ao FC Porto. Ele respondeu que sim, com um sorriso bem aberto”, documenta, afastando querelas futebolísticas em casa: “Digo-lhe na brincadeira que vamos jogar contra a nossa equipa B, que vamos ensiná-los a fazer um bom café. Levaremos as duas camisolas e quem perder tem de a despir”.
Do amigo Jorge Costa à surpresa Farioli
Mais a fundo, Cristiano Azevedo admitiu que estava “mais ou menos preparado para o jejum do FC Porto, porque tinha havido uma quebra de ciclo”, além da “perda de vários elementos próximos da história” do clube, como Jorge Costa, “ídolo e amigo”. “Quem mais me maravilhou foi o treinador. Não o conhecia e não gostei da ideia de não ter grande currículo. Mas quando disse que “íamos trabalhar a dor”, fiquei fã, porque achei interessantíssimo o aspeto psicológico e espiritual. Uniu o grupo e a cidade de uma maneira que não se via há muito tempo e reconduziu o clube à essência”, acrescenta o empresário, rendido também a Froholdt: “Não é normal encontrar gente tão nova com a capacidade que ele tem para ler o jogo e estar em todo o lado, não contando com a frieza. É um miúdo muito promissor”.
“Miami é ditada pelo ritmo latino”
Frederico Gonçalves também vive a paixão do Mundial com uma companheira colombiana
Frederico Gonçalves foi um dos portugueses de Miami que foi a Houston assistir à estreia. Professor de ténis, ainda se encontra a celebrar os 40 anos, querendo manter as festividades até receber amigos do Porto em cima do jogo com a Colômbia. Aí as emoções que o vão preencher serão distintas, porque em casa a namorada é colombiana: Catalina.”A minha afinidade com a Colômbia começa com o facto de ser adepto do FC Porto e ter beneficiado de jogadores como James, Falcao, Jackson, Díaz, Guarín, Quintero. Foram bastantes e bons. Vim viver para Miami em 2010, após curso e mestrado no Kentucky, e desde então fiz imensos amigos colombianos, além da minha namorada. Há uma química forte, vejo pessoas abertas, sociais e carinhosas”, descreve, acentuando uma sintonia social que passa muito pelo futebol entre portugueses e cafeteros: “Quando jogarem fico um pouco dividido, mas vou torcer por Portugal, felizmente é na fase de grupos. Acredito que ambas passem, mas nunca se sabe”.
Frederico já sente apelos de rua, vibrações e picardias tão necessárias para elevarem a paixão. Os colombianos, por agora, parecem mais entusiasmados pela vitória de 3-1 sobre o Uzbequistão. “Não diria que em casa vai ser descontraído para quem perder, mas será um jogo de festa sempre. Vou ter amigos de infância comigo, que chegam do Porto. Vamos festejar os meus 40 anos com amigos que fazem uma longa viagem e colombianos que fazem parte do meu quotidiano. Não sei se vamos ao estádio, porque seria necessários muitos conseguirmos comprar bilhetes e não é tarefa fácil, vemos preços a oscilarem dos 3000 aos 10 mil euros”, alerta este portuense, reconhecendo fator casa da Colômbia. “Miami é ditada pelo ritmo da América Latina. Penso que no estádio serão 80-20, entre os colombianos e os 20 por cento ficam para portugueses e aqueles que apoiam Portugal, porque nós crescemos muito pelo mundo e há muitos latinos que amam o nosso país”, conta, com o exemplo dos mexicanos. “Alguns até preferem a nossa seleção ao México. Entre as previsões dos Simpsons, há uma final Portugal-México. Vamos lá ver como os mexicanos acolhem isso”, brinca Frederico.
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