Há espaços na cidade que fazem parte da sua identidade, mesmo quando permanecem esquecidos no quotidiano. O Parque de Guadalupe é um desses lugares. É uma verdadeira joia verde e monumental no coração de Braga, com valor histórico e ambiental, mas que continua praticamente vedada à utilização regular dos bracarenses.
Para quem não o conhece, o Parque de Guadalupe situa-se na freguesia de São Vítor, numa das zonas mais densamente urbanizadas da cidade e junto a São Vicente. Estamos perante uma área onde os espaços verdes de utilização quotidiana não abundam. Milhares de pessoas vivem, estudam, trabalham ou circulam diariamente nesta parte de Braga. Para muitas delas, encontrar um espaço onde possam caminhar, descansar, levar os filhos, ler um livro ou simplesmente estar em contacto com a natureza implica deslocar-se para outras zonas da cidade.
É difícil explicar esta realidade quando, em plena cidade, existe um espaço verde com características tão particulares que permanece fechado durante a maior parte do ano.
Foi precisamente por isso que apresentei, na Assembleia Municipal de Braga, uma recomendação para que a Câmara Municipal promova a abertura regular do Parque de Guadalupe à população, mediante a celebração de um protocolo com a Irmandade de Nossa Senhora de Guadalupe, entidade que actualmente gere o espaço.
Não se trata de defender uma abertura sem regras ou de ignorar as exigências de conservação do património. Pelo contrário. Um espaço desta natureza exige cuidado, manutenção, vigilância e regras de utilização adequadas.
A questão fundamental é outra: para que serve um parque urbano se os cidadãos praticamente não podem entrar nele?
Uma política de espaços verdes não deve limitar-se à criação de novos parques. Deve também aproveitar e valorizar aqueles que já existem, tornando-os acessíveis à comunidade sempre que tal seja compatível com a sua natureza e com as exigências da respectiva conservação.
O Parque de Guadalupe permite fazer precisamente isso sem começar do zero. O espaço existe. O património existe. Falta garantir que a população possa usufruir dele com regularidade.
A abertura do parque poderá, aliás, contribuir para a valorização do próprio património. Um lugar frequentado é um lugar conhecido. E um lugar conhecido tende a ser mais protegido e a integrar-se de forma mais efectiva na vida da cidade. Preservar não tem necessariamente de significar fechar.
Há também uma questão de equidade no acesso ao espaço público. Os espaços verdes não devem ser um privilégio de quem vive junto de determinados parques ou de quem dispõe de tempo e meios para se deslocar para outras zonas. Uma cidade que pretende proporcionar qualidade de vida deve procurar oferecer espaços verdes acessíveis, próximos e utilizáveis no dia-a-dia.
É por isso que a abertura do Parque de Guadalupe não deve ser vista como uma questão menor. É também uma decisão sobre o modelo de cidade que queremos construir.
Queremos uma cidade onde o património permanece atrás de portões e apenas pode ser visitado em ocasiões excepcionais? Ou queremos uma cidade em que os seus espaços históricos, verdes e monumentais façam parte da vida quotidiana dos cidadãos?
A Iniciativa Liberal defende a segunda opção.
A aprovação da recomendação pela Assembleia Municipal cria agora uma oportunidade para transformar esta proposta numa medida concreta. Cabe à Câmara Municipal desenvolver as diligências necessárias junto da Irmandade de Nossa Senhora de Guadalupe e encontrar uma solução que permita a abertura regular do parque, definindo horários, regras de utilização, responsabilidades de manutenção e condições de segurança que conciliem a preservação do espaço com a sua fruição pública.
Não é necessário criar um novo espaço para proporcionar mais qualidade de vida a quem vive nesta zona da cidade. Existe um parque que pode desempenhar essa função. É necessário abrir uma porta que, durante demasiado tempo, permaneceu fechada.
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