Guineense Lizidória Mendes lança versão francesa do livro “Sentimentos e Razão” – Vida em França

A autora guineense Lizidória Mendes vai lançar uma edição francesa do seu primeiro romance “Sentimentos e Razão”, este sábado, na Maison du Portugal – André de Gouveia, na Cidade Universitária de Paris. O livro fala sobre a emancipação da mulher, mas também sobre o peso da ‘matchundadi’ [masculinidade] e imagina “uma nova mulher guineense” numa “Guiné-Bissau em construção”.

Neste programa conversamos com a guineense Lizidória Mendes, de 28 anos, que vai lançar uma edição francesa do seu primeiro romance “Sentimentos e Razão”, este sábado, na Maison du Portugal – André de Gouveia, na Cidade Universitária de Paris. O evento vai ser acompanhado por uma exposição de pinturas da artista plástica guineense Cálida Erinaide, inspiradas nas personagens do livro.

“Sentimentos e Razão” conta a história da jovem Malia que sonha com uma carreira académica, que luta contra o peso das construções sociais no seu país e que recusa o feminismo nos moldes ocidentais. Esta é uma história sobre a emancipação da mulher guineense e sobre o peso da ‘matchundadi’ [masculinidade] na Guiné-Bissau, mas também sobre uma outra forma de olhar para a mulher “não a partir do corpo, mas do que ela pensa”. O livro também fala sobre o que Lizidória Mendes resume como “uma Guiné-Bissau em construção”, onde se imagina “a nova mulher guineense” que respeita as suas raízes, mas também as questiona e reajusta. A autora quer acreditar no poder simbólico e até sagrado da literatura e deseja que “daqui a algum tempo tenhamos muitas Malias na Guiné”.

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Imagem de capa: Lizidória Mendes, Autora de “Sentimentos e Razão”. Paris, 15 de Setembro de 2026. © Carina Branco/RFI

RFI: Poderia fazer-nos uma curta apresentação deste livro?

Lizidória Mendes, Autora de “Sentimentos e Razão”: “O livro ‘Sentimentos e Razão’ é um romance que falou basicamente da masculinidade na perspectiva guineense, sobretudo na sua fase mais embrionária, e também falou, através da personagem principal que é a Malia, da emancipação da mulher. De uma forma geral, para o enredo do livro, nós conseguimos ver que a Malia não é uma extracção da verdadeira mulher guineense, mas sim uma reescrita do que a mulher guineense deve-se tornar, tirando todas as construções sociais que ela é imposta de seguir, como ter a sua vida cronometrada, ter os seus desejos, entre aspas, controlados pelas expectativas sociais. Ao olhar para a Malia, as pessoas não conseguem ver uma mulher guineense com base nas tradições e culturas, mas se nós formos ver, hoje em dia, as possibilidades que as mulheres podem ter daqui a cinco anos, dez anos, nós podemos ter uma mulher guineense com expressão da Malia ou mais ainda.”

O que é que a Malia tem da Lisidória?

“Bom, essa é uma pergunta que eu posso dizer que as pessoas me têm feito. E aqui também não vou ser, entre aspas, mentirosa, porque nós não podemos dissociar a arte do artista. Para mim, a arte sempre tem um ponto de partida. Para mim, para reescrever a nova mulher guineense, se o ponto de partida deve ser a partir de mim, que seja, e a Malia pode ter alguma coisa da Lisidória porque a Lisidória é a autora. Além disso, nada mais.”

O livro conta a história de Malia, uma jovem guineense que quer estudar e chegar até ao mestrado em França, que luta pela sua emancipação, mas que recusa o feminismo nos moldes ocidentais. Quer explicar-nos porquê este feminismo nos moldes ocidentais não se pode adaptar à cultura guineense? Lemos, por exemplo, que há tradições na Guiné-Bissau que “para muitas mulheres são redes de apoio, onde o Estado não é capaz de garantir a segurança”. Certas tradições não são contraditórias com o feminismo?

“Ao dizer que isto é contraditório, leva-nos mais para um debate epistemológico porque o feminismo é o que é dentro de uma realidade em que nasceu. Outras coisas também podem ser dentro das suas próprias realidades. Eu não nego que o feminismo é um projecto sustentável e bom para as mulheres, é muito bom, mas o facto de nós não querermos importar um feminismo, não quer dizer que nós não o podemos reinventar dentro das nossas comunidades para resolver os nossos problemas. O debate que eu trouxe no livro, como algumas pessoas estão, entre aspas, a falar que eu sou antifeminista e tal, o facto de não ser feminista não quer dizer que a pessoa é antifeminista. Eu acho que amanhã [16 de Setembro] já serei socióloga e daqui a alguns dias serei especialista em estudos de género, portanto, é a minha área de estudo. O meu projecto de mestrado repousa basicamente nisto da participação política das mulheres, mas o meu problema epistemológico é: será que o feminismo é universal? Respondo que não. Em todas as comunidades, as mulheres têm as suas próprias realidades. Entretanto, pensar que a cultura é sinónimo de repreensão, não é verdade. Também o Ocidente tem algumas práticas que deixam as mulheres nos segundos planos.

O que é que eu nego? É importante nós vermos a realidade das mulheres com base nas suas realidades, criarmos mecanismos de protecção, não trazer modelos que não têm nada a ver com as suas realidades. É essa visão que eu tento trazer no livro. Eu nego a universalidade das coisas, é por isso que a Malia não é universal. Para mim, a vida é feita do específico para o colectivo, nós não podemos pensar a vida do colectivo para o específico. É basicamente essa interpretação e não tem nada a ver com antifeminismo.

E eu, enquanto especialista de género, eu respeito muito as lutas feministas, são as lutas que eu estudo, mas eu defendo lutas locais. Por exemplo, na Guiné-Bissau, trabalhei sobre outras formas de organização, no caso, as ‘mandjuandades’, que são organizações associativas na Guiné-Bissau que repousam mais nas questões de solidariedade económica e também nas questões geracionais, mas são organizações que surgiram antes das lutas feministas. E nós temos isso na Guiné-Bissau, são ‘mandjuandades’, e o feminismo guineense poderia ser chamado de ‘mandjuandade’. Não é necessariamente o que nós vamos fazer que obrigatoriamente deve ser chamado de feminismo porque o feminismo é uma denominação, é nome, é epistemológico. Dentro das outras comunidades também pode existir uma outra coisa e aqui quero ressaltar: eu não sou antifeminista, pelo contrário.”

Também aborda os constrangimentos sociais e o que se espera da mulher na Guiné-Bissau. Ficamos a questionar se a mulher tem espaço para ser livre na Guiné-Bissau. Isso também transparece no livro?

“Sim, transparece no livro. O meu problema aqui é quando as pessoas vão pensar a opressão da mulher. Por exemplo, os colegas que vão fazer trabalhos em África, sobretudo nos países da África Ocidental, muitas das vezes vêem a opressão das mulheres nessas regiões como se a opressão nasceu basicamente em África, mas a questão da opressão, a questão da desigualdade, não tem cor, é universal. Agora, tentar atribuir a identidade de opressão, de desigualdade, para uma determinada comunidade, é errado. Sobretudo, por exemplo, quando alguns antropólogos vão fazer os trabalhos em zonas de África e tal, e as categorias que eles utilizam muitas das vezes não têm nada a ver. Por exemplo, tratam certas categorias como se fossem homogéneas, mas na Guiné-Bissau não existe homogeneidade. Mesmo ao falar, por exemplo, do patriarcado, há sociedades que são matrilineares, em que os filhos pertencem às mulheres e não aos homens. Então, para mim, eu acho que é importante nós fazermos trabalho epistemológico baseado nos contextos porque nós temos realidades muito bem construídas, mas muitas das vezes ao irmos ao terreno, nós utilizamos categorias ocidentais, conceitos ocidentais para denominar estas realidades. Entretanto, o que é que acontece? Os conceitos acabam por sobrepor a realidade. O que nós devemos fazer é reverter a situação. Fazer um trabalho de terreno e com base nesse trabalho de terreno, construirmos os problemas. Mas as pessoas já saem daqui com hipóteses e chegam lá só para confirmar, o que eu acho errado.”

Há outro conceito que me parece central no livro, que é a constatação de uma masculinidade rígida, a “matchundadi”, que impossibilita os homens de viverem e de aceitarem a sua vulnerabilidade. Por que é que é algo tão central no livro e até que ponto também é uma questão política e mostra como é a própria sociedade bissau-guineense?

“Eu diria até que ponto isto é epistemológico porque é muito intencional a repetição da palavra ‘matchundadi’ no livro. Como eu disse, os assuntos tratados neste livro são embrionários. De uma forma geral, o conceito de ‘matchundadi’ no livro não é desenvolvido. Os personagens vão dizendo: ‘Ah, tu estás a fazer à tua matchundadi e não sei o quê.’ Mas aqui entra a questão e aqui centra-se o debate: até que ponto a matchundadi guineense é masculinidade e não virilidade? Porque muitas das vezes as pessoas acham que tudo o que é matchundadi guineense é virilidade. O que é que as pessoas denominam como matchundadi na Guiné-Bissau? É virilidade: mostrar a força, fazer abuso de poder. Aquilo é virilidade. Matchundadi é mais baseada nos valores de proteger, de prover, de ser uma pessoa com carácter. É o que ensinam em diferentes etnias, sobretudo através dos rituais, como o fanado.”

O que é o “fanado”?

“O fanado é uma espécie de ritual de iniciação tanto para mulheres, em certas etnias, como para homens também. Vou ressaltar aqui: excisão e fanado são duas coisas diferentes. Fanado é mais assente na questão da transmissão dos valores e tal.

Entretanto, como eu tinha dito, todos os conceitos e debates vieram neste livro de uma forma embrionária. No segundo volume terá mais desenvolvimento. Mas, como eu disse, ‘matchundadi’ aparece neste primeiro livro, mas até que ponto é político, mas sobretudo, epistemológico? O que é que as pessoas percebem como ‘matchundadi’? É esse debate que eu quero trazer, apesar de o romance não dever ter este objectivo de trazer ao debate as coisas, mas, para mim, no contexto em que nós vivemos, é necessário.”

Vai haver um segundo volume? Quando será lançado?

“Sim, porque o meu livro original, ‘Sentimentos e Razão’, tinha cerca de 500 e tal páginas, só que, na revisão, algumas pessoas me perguntaram: ‘Publicar um livro de 500 páginas na realidade guineense, quem vai ler?’ Foi nisto que surgiu a ideia de diminuir, de recompor os cenários e saiu este primeiro volume. Agora vai ter o segundo volume e o terceiro volume em que eu vou trazer todas as histórias. Eu estabeleci uma meta de até final de Novembro estar disponível porque eu tenho que fazer ajustes, fazer a edição, fazer a impressão. Não sei, mas eu acho que até final de Dezembro vai estar disponível só o segundo, porque depois eu tenho que me concentrar no projecto do meu segundo livro.”

Vai haver um outro livro?

“Sim, o meu segundo intitulado ‘M’pili’. Inclusive já fiz o trabalho etnográfico, entrevistas, observações, procura de arquivos.”

E é sobre o quê?

“É mais um tema baseado na nossa memória colectiva porque o tema ‘m’pili’ é muito patente na nossa sociedade, inclusive foi cantado pelo José Carlos Schwarz. Retrata mais as dinâmicas pós-independência, sobretudo a relação de poder e, sobretudo, também a relação de género.”

O que quer dizer “m’pili”?

“A m’pili’, por exemplo, na língua pepel, m’pili’ significa mulher – se não me engano, não tenho certeza – mas é um nome mais derivado da etnia manjaco e pepel.”

Regressando ao livro “Sentimentos e Razão”, o amor é um tema também central, mas é um amor romântico, idealizado, que ocupa um enorme espaço na vida da personagem principal. Este tipo de amor não colide com a noção de desejo, de corpo e de liberdade?

“É verdade. Tudo que a Malia pensa é idealizado porque a sua realidade é outra, mas também há um facto muito importante. No enredo, de uma forma geral, nós não conseguimos caracterizar a Malia. Praticamente a Malia aparece no livro sem corpo. Nós conseguimos só caracterizar a Malia através do que ela pensa e através do que ela faz, mas ninguém consegue saber se a Malia é branca, se é preta, se tem um corpo muito bem definido ou não. E aqui levanta-se um debate: será que as relações que nós mantemos com mulheres devem ser a partir do corpo ou a partir da mente? Porque durante muito tempo a mulher sempre foi resumida ao corpo. Por isso é que no meu livro ninguém consegue caracterizar a Malia. A Malia sempre construiu as suas relações a partir do que ela pensa, a partir do que ela prega, a partir do que ela sente. A Malia não aparece como uma personagem física dentro do livro e há alguns críticos que ja criticaram isto: ‘Como é que as pessoas vão ler o livro sem saber as características físicas da personagem?’ Não é obrigatório a mulher ser conhecida a partir do seu corpo. É possível a mulher ser conhecida a partir da sua voz, a partir do que ela pensa, a partir da sua ideologia. Basicamente é isto. Por isso é que o centro da Malia é o desejo. Nós devemos normalizar também essa questão dos homens, ou melhor, a sociedade admirar a mulher a partir dos seus desejos, sem, no entanto, tocar.”

O que é que este livro também conta sobre a Guiné-Bissau?

“Eu resumiria isso numa única palavra. Uma Guiné-Bissau em construção porque daqui a cinco anos precisamos de mulheres como a Malia, que vai respeitar as suas raízes, o seu fulcro cultural, mas também questionando as coisas que não estão bem dentro desse fulcro cultural porque para mudarmos nós não precisamos de desfazer-nos da nossa cultura. O que é que nós precisamos? É reajustar porque todas as culturas têm partes nefastas e são estas partes nefastas que a Malia pede para serem reajustadas porque ela só cabe dentro da sua cultura. Sair da Guiné-Bissau, escolher viver em Portugal ou em França ou em outra parte do mundo, ela nunca vai pertencer àquele espaço. O seu verdadeiro espaço é o seu país. Então, para que ele viva no seu país de uma forma tranquila, precisa do reajuste.”

Para viver no seu país é preciso condições e a Guiné-Bissau não tem estabilidade política, social e económica. Como é que olha para a Guiné-Bissau actualmente?

“Eu, enquanto autora, digo que nenhum artista deve ser neutro, por mais que sejamos neutros enquanto artistas, a nossa arte deve falar sobretudo ao lado do povo. E eu reafirmo isto que a Guiné-Bissau não está bem, está longe de estar bem. Ao olhar só pelo cenário político, o que é que nós devemos fazer? É cada um contribuir da sua forma, mas contribuir da nossa forma não quer dizer que sejamos neutros. Para mim, é deixando de ser neutro que nós podemos contribuir para sair desta situação porque eu acho que sair da Guiné-Bissau e estar a viver num outro país não é o caminho porque nós saímos com a expectativa de que um dia o cenário mude, mas se nós temos essa expectativa, quem é que vai mudar o cenário? Devemos ser nós.”

Quanto ao livro “Sentimentos e Razão – Korson ku roson”, porquê este título e o que é que ele significa?

“O título “Korson ku roson” é em crioulo e eu quis mantê-lo assim. Para mim, é algo que me lembra quem eu sou e de onde eu saí. Não importa em que línguas o meu livro seja traduzido, sempre vou pedir que mantenham “Korson ku roson”, a língua guineense que agora chamam de crioulo. ‘Sentimentos e razão’ porque eu sempre tive a crença que o mundo existe, mas tendo uma linha ténue que divide duas dimensões: o que nós sentimos e o que nós pensamos. Ou fazemos as nossas escolhas através do que o nosso coração manda ou através do que a nossa cabeça manda. Eu resumo o mundo, a vida, nestas duas dimensões.”

Este é o seu primeiro livro. Primeiro tinha feito uma versão em língua portuguesa e agora sai em francês. É um passo importante para si?

“Sim, sim. Este é o meu primeiro livro, digamos assim, oficial, mas, desde os meus 14 anos, eu já vinha escrevendo muitas coisas. Antes de publicar este livro, eu já tinha participado em outras produções literárias, sobretudo antologias. Eu participei na Antologia de Poetas da CPLP ‘Rotas de Camões’. Participei também na equipa que escreveu a primeira telenovela guineense. Outros poemas que eu fiz foram publicados por jornais como Nô Pintcha, sobretudo ‘Simplesmente Menina Africana’, ‘Labareda de Queda’ e alguns que já não me lembro porque, hoje em dia, eu escrevo mais crónicas e romances do que poemas. Mas este, em especial, é o meu primeiro livro, ‘Sentimentos e Razão’. A primeira versão eu publiquei em 2025, tornou-se logo ‘best seller’ na Guiné-Bissau e depois fizemos a publicação em Portugal e em Paris também lançámos a versão portuguesa num evento da comunidade brasileira na Maison du Brésil. Depois foi traduzido.”

Traduzir para francês e chegar a um outro público que, se calhar, não está tão familiarizado com a Guiné-Bissau, que se calhar mal conhece a Guiné-Bissau, também é importante?

“Para mim é muito importante. Eu soube desta importância, sobretudo, no processo da revisão do livro, em que eu recebi muitas sugestões, por exemplo, de traduzir algumas expressões crioulas para o francês. Eu não traduzi porque, para mim, para o livro ser traduzido deve poder manter a sua essência, porque a tradução, só em si, já é um problema, na minha concepção, porque a tradução é interpretar e, muitas das vezes, algumas nuances numa certa língua dificilmente encontram uma tradução certa numa outra língua. Então, para mim, enquanto guineense e, entre aspas, escritora, eu não queria ver o meu livro neste ângulo de ver traduzidas as expressões crioulas. Para mim, é um caminho, quando um francês ler o meu livro e encontrar a expressão ‘matchu’ e ‘kuma’, ele que procure saber o que é que aquilo significa. No livro, nós vamos encontrar um mapa da Guiné-Bissau. Então, para mim, a literatura serve para isso, para fazer o nosso país viajar sem, no entanto, deslocar-se, mas assim fazer as pessoas que vão ler deslocarem-se para conhecerem a realidade. Foi o que aconteceu com muitos dos meus colegas da universidade que já leram o livro e estão com curiosidade e alguns já conseguem pronunciar algumas palavras em crioulo. Então, é isto que me deixa orgulhosa, além de ser importante a tradução do meu livro.”

Esta quarta-feira é o dia da defesa do seu mestrado em Sociologia em Paris, algo que a personagem Malia, no início do livro, quando é adolescente, apresenta como um sonho. Tem um peso especial conjugar a defesa do mestrado com o lançamento deste livro? É simbólico?

“Talvez seja simbólico de uma forma indirecta. Alguém me chamou a atenção, um artista muito renomado, que me disse: ‘Olha, eu li o teu livro, eu gostei muito, mas eu vejo muito a Malia em ti. Tens que tomar muito cuidado porque as palavras têm poder, sobretudo a arte é sagrada. O que tu escreves, amanhã acontece. Será que este livro levou-te a Paris ou foi Paris que te levou ao livro?’ Eu acredito que foi o livro que me trouxe a Paris porque eu escrevi isto antes de sonhar que eu conseguiria a bolsa para vir estudar cá. Mas, se a arte é sagrada e as palavras também são sagradas e tudo o que nós escrevemos há-de acontecer, eu desejo que daqui a algum tempo tenhamos muitas Malias na Guiné.”

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