Primeiro, veio a acusação dos Estados Unidos de assassinato contra Raúl Castro. Depois, a chegada do porta-aviões USS Nimitz em águas internacionais do Caribe, próximas a Cuba.
Os últimos movimentos de Washington frente à ilha caribenha estão levantando suspeitas de que o governo de Donald Trump poderia estar preparando uma intervenção contra o regime castrista. Na semana passada, os EUA indiciaram formalmente o ex-presidente e irmão de Fidel Castro, Raúl, por causa de um ataque, ocorrido em 1996, de caças cubanos a aviões civis americanos.
Também na última semana, um vídeo publicado no X pelo Comando Sul, responsável pelas operações dos Estados Unidos na América Latina (exceto o México) e no Caribe, detalha as capacidades do Nimitz e do grupo de combate que o acompanha: caças, um navio de apoio logístico e um destroier.
Em fevereiro, o Pentágono enviou o USS Ford, o maior porta-aviões do mundo, para o Oriente Médio, dias antes do início das ofensivas de Estados Unidos e Israel ao Irã. A mesma embarcação havia sido utilizada no mês anterior, no Caribe, na captura do ex-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro – que já havia sido indiciado por narcoterrorismo pelos EUA.
Intervenção “muito possível”
Para Jennifer Kavannagh, diretora de análise militar da Defense Priorities, um think tank de Washington com orientação não intervencionista, é “muito provável” que ocorra uma intervenção em Cuba. “É um país pequeno e próximo dos Estados Unidos. Trump já enfrenta inúmeros desafios e talvez prefira esperar que a guerra com o Irã seja resolvida, mas, como parece que ela vai se prolongar, é possível que ele decida seguir em frente de qualquer maneira”, comenta.
Os indícios parecem apontar para isso, embora também possam fazer parte de uma estratégia de intimidação para forçar o regime cubano a implementar mudanças.
“É provável que o Nimitz esteja lá principalmente com o objetivo de intimidar, mas o porta-aviões poderia ser utilizado em uma operação militar, se necessário. Esse foi o papel do Ford na Venezuela em janeiro. Ele deixou clara a potência militar dos EUA e foi útil, embora não essencial, para a operação militar que acabou ocorrendo”, explica Mark Cancian, coronel aposentado do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA e consultor do think tank Centro para Estratégia e Estudos Internacionais (CSIS), com sede em Washington.
Com o precedente da prisão de Nicolás Maduro em Caracas, em janeiro de 2026, a comparação com a Venezuela é inevitável, mas o fator surpresa que facilitou a operação na Venezuela já não existe.
“Do ponto de vista militar, uma operação para capturar membros do governo cubano seria mais difícil, porque os cubanos já estão à espera disso. O alvo mais provável seria Raúl Castro, já que existe um mandado de prisão contra ele. Isso proporcionaria a mesma justificativa legal que os Estados Unidos utilizaram contra Maduro. O objetivo dos Estados Unidos ao lançar uma operação desse tipo seria instaurar um regime dócil, após a destituição dos principais dirigentes”, afirma Cancian.
O que Washington ganharia com isso?
As vantagens de uma operação desse tipo seriam mais de natureza política do que estratégica. Para o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, a queda do regime cubano representa um objetivo ideológico. Nesse sentido, uma intervenção bem-sucedida teria um enorme valor simbólico para a base eleitoral de Trump na Flórida.
Outra questão são os interesses nacionais de longo prazo, acrescenta Jennifer Kavannagh, da Defense Priorities.
“Os Estados Unidos não obteriam nenhum benefício. Cuba não representa uma ameaça, e exercer um controle mais direto sobre a ilha não é importante para a segurança nacional nem para a prosperidade econômica dos Estados Unidos. Os benefícios seriam nulos. Rubio e Trump derrubariam um regime de que não gostam, mas quem pode garantir que o próximo será mais favorável? Cuba não oferece perspectivas econômicas promissoras para os Estados Unidos. E, após uma intervenção, Cuba se tornaria, com o tempo, mais um fardo para a presidência de Trump, caso os Estados Unidos assumissem o controle da economia e do sistema político do país”, explica ela.
Baía de Guantánamo: estratégica, porém limitada
Em qualquer cenário de confronto entre Washington e Havana, a Base Naval dos EUA na Baía de Guantánamo ocupa um lugar central no debate. Situada no extremo oriental de Cuba desde 1903, em virtude de um tratado cuja revisão Havana vem exigindo há décadas, ela é um ativo estratégico, mas sua capacidade operacional é limitada.
“Guantánamo teria, sem dúvida, um papel importante, embora o alcance dependesse do tipo de operação que os Estados Unidos lançassem. É preciso levar em conta que a base fica no extremo oriental da ilha, a cerca de 940 quilômetros de Havana, portanto não está perto do centro do poder cubano. Uma das primeiras medidas em qualquer crise entre os Estados Unidos e Cuba seria o reforço de Guantánamo, já que ela está praticamente indefesa”, destaca Mark Cancian.
Kavannagh concorda com a análise sobre a base naval, mas não acredita que o enclave possa ser a principal plataforma de lançamento de uma operação de grande envergadura. “Sem dúvida, [Guantánamo] desempenharia algum papel, embora se trate de uma instalação de capacidade limitada e, dado que Cuba fica tão perto dos Estados Unidos, o Exército americano também recorreria em grande medida às bases localizadas nos estados do sul do país”, conclui.
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