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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O sismo da Venezuela podia acontecer em Portugal? É um dos vídeos que corre na internet, um prédio a colapsar e quem passava ali perto a abrigar-se no chão, pessoas umas por cima das outras, juntas, a tentarem proteger-se a si próprias e umas às outras.
“Mi mamá!”
Um homem corre por entre os escombros e arrisca a própria vida ao entrar no átrio de um prédio à procura da mãe.
“Acompanhe-me, mãe!”
Com poucos segundos de diferença, um novo abalo, agora ainda mais forte. A tragédia na Venezuela ainda agora começou a ser contabilizada. As equipes de socorro já não chegam para tantos pedidos e calcula-se que, no pior dos cenários, possam ter morrido até 100 mil pessoas. Eu hoje vou conversar com o professor João Duarte, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, investigador do Instituto Dom Luís e especialista em tectônica de placas. Vamos perceber o que aconteceu na Venezuela, por que o que aconteceu foi tão devastador, e tentar responder à pergunta que não sai das nossas cabeças de cada vez que vemos uma tragédia destas: isto que aconteceu podia acontecer em Portugal? Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de sexta-feira, 26 de junho. Olá, professor, bem-vindo.
Olá, boa tarde.
Sei que está em viagem, portanto agradeço que tenha tido a disponibilidade de nos ajudar a compreender um pouquinho isto que aconteceu na Venezuela e a responder aqui algumas perguntas que nós temos de cada vez que vemos um fenômeno destes acontecer noutras partes do mundo. Em primeiro lugar, perceber exatamente o que aconteceu ali na Venezuela. Foi um fenômeno que, pelo menos, não ouvimos falar com tanta frequência, que é, não sei se é esta a expressão, um dupleto sísmico. É uma coisa assim, não é?
Sim, nós muitas vezes usamos em português o sismo gêmeo, que na realidade é quando acontece dois sismos, um muito próximo do outro.
Portanto, foi isto que aconteceu. Foi como se fossem dois sismos gêmeos, com uma separação de menos de um minuto entre um e outro, sendo que o primeiro mais fraco do que o segundo, o que também não é costume acontecer.
Exato. E aqui eu acho que houve duas coisas que são um pouco comuns. Uma é essa, que é haver um primeiro sismo de magnitude mais baixa e outro a seguir mais alta, mas, em particular, o espaçamento. É que foram uns segundos de intervalo. E isso é muito difícil de nós conseguirmos perceber o que aconteceu.
E há alguma explicação para isto? Para quem não percebe nada de sismos, o que aconteceu? Nós sabemos vagamente que há a libertação de energia, claro, e isso é que acaba por provocar os sismos. Mas por que que normalmente quando acontecem estes sismos gêmeos, por que se dá esse fenômeno?
Nós muitas vezes o que descrevemos é uma falha que está sempre a mover-se, não é a velocidade que as unhas crescem, mas na realidade não é isso que acontece. Ela fica presa durante alguns anos ou algumas décadas e aquilo vai acumulando tensão, um pouco como estamos a dobrar uma régua, e a determinada altura, ela move-se. Mas as falhas não são zonas muito contínuas. Portanto, pode ter acontecido que moveu-se primeiro uma parte da falha e em seguida moveu-se outra parte mais distante.
E, portanto, o que aconteceu foi que foram duas libertações de energia em momentos diferentes, só que muito próximos uns dos outros, e daí que quem viveu esta experiência aterradora, imagino eu, tenha pensado que era aquilo que nós estamos habituados, que é um sismo e depois as réplicas, mas não foi nada disso que aconteceu aqui.
Não, e aqui com vários agravantes, que é o sismo foi a pouca profundidade, foi mesmo por baixo das casas, porque a falha entra em terra naquela zona, e o primeiro sismo de 7.2 tem uma magnitude muito grande, é suficiente pra causar danos nos edifícios, e logo a seguir um 7.5 é terrível porque os edifícios estão danificados e depois colapsam.
Portanto, um já era danoso o suficiente e depois veio outro ainda mais forte para agravar ainda mais a situação. Falou dos 7.5 e dos 7.2, portanto, estamos a falar da magnitude dos sismos. É isso só que explica o nível de destruição que conhecemos até agora, enfim, ainda estamos nas primeiras horas deste sismo, não sabemos o que vai acontecer daqui pra frente, mas é isso que explica este nível de destruição ou pode haver outros fatores ali também que expliquem isso?
Eu diria que aqui o que contou mais, a magnitude é elevada. Normalmente, um sismo acima de 6,7 já pode provocar danos. Mas aquele sismo ocorreu numa falha mesmo por baixo daquela cidade, a pouca profundidade. Porque nós, por exemplo, em Portugal tivemos um sismo de 7.9 em 1969, mas foi no fundo do mar, a 300 km da costa.
E, portanto, o nível de dano não é o mesmo, claro. No caso da Venezuela, do ponto de vista geográfico, é uma zona propensa a este tipo de fenômenos ou não é, por exemplo, da mesma dimensão com que sabemos que, por exemplo, países como o Japão são mais propensos a ter sismos de dimensão bastante forte?
Ela é diferente do Japão. O Japão situa-se no chamado anel de fogo do Pacífico, onde as placas estão umas a mergulhar por baixo da outra. Normalmente, são nesses locais que ocorrem sismos acima de 8,5. Nesta zona, é uma placa que está a deslizar uma em relação à outra. É um bocadinho como entre a África e a Ibéria. Nós temos esta situação ao sul de Portugal. Normalmente, dá sismos com magnitude um bocadinho mais baixa de 6,7.
E, portanto, este com esta dimensão, é raro acontecer.
Eu diria que naquela zona não é muito comum. Pelo que eu consegui perceber, o último tinha ocorrido há cerca de um século. Portanto, acontecem, mas são mais raros.
São mais raros. Agora, nós temos já imagens da tragédia, ainda há muita coisa por perceber, porque agora começam os trabalhos de procura de sobreviventes e já vimos um nível de destruição grande, muitos edifícios colapsados. Agora, o que pode acontecer nos próximos dias e até nas próximas semanas? Porque a questão das réplicas existe, nós sabemos que elas são mais fracas, tendencialmente, mas o que pode acontecer, quais são os riscos associados a isto agora para os próximos dias?
Os próximos dias são muito perigosos. Eu estive a ver e, por exemplo, no primeiro dia, a seguir a um sismos destes, há uma probabilidade para aí de 80% de haver réplicas de magnitude 5.
Que é muito elevada.
É muito elevada, especialmente em edifícios que estão já muito danificados. Portanto, as pessoas não vão poder voltar aos edifícios, mesmo os que ficaram em pé, durante uma semana, provavelmente. E o ministro há bocado já falava que uma das coisas que são precisas enviar vão ser colchões, porque as pessoas provavelmente vão ter que ficar alguns dias a viver na rua.
Muita gente desalojada.
Muita gente desalojada. E outro problema, é que a estimativa falava em cerca de 10 mil até 100 mil mortos, e nós estamos ainda a ver números da ordem dos 100, 200. Eu espero que o melhor cenário se venha a concretizar, mas não é de excluir poder haver muita gente soterrada.
Porque para quem está a acompanhar o desenrolar destes números, e nós estamos a gravar esta conversa muitas horas antes de ela ir para o ar, mas neste momento, efetivamente, estamos a falar de centenas de mortos. A previsão que está a ser feita, como disse, é entre 10 mil e 100 mil mortos. Isso não é um desfasamento da realidade, é porque efetivamente há muita gente que está agora debaixo dos escombros, nesta altura em que estamos a falar, e depois ainda há esta questão que estávamos a falar, que é as réplicas podem deitar abaixo mais edifícios, pode apanhar mais gente desprevenida. Portanto, isto tem tudo para ser uma tragédia de dimensões verdadeiramente impressionantes.
Vai ser. E aquela é uma área com uma densidade populacional muito grande. Estamos a falar em áreas com mais de 1 milhão de pessoas. De repente, ficar 1 milhão de pessoas desalojadas é algo que nós não conseguimos imaginar. Agora, o fato de as pessoas que podem estar presas nos escombros, isso faz com que estas horas sejam absolutamente cruciais. Agora, as equipes entrarem e tentar salvar o maior número de pessoas possível. Também outra coisa que pode estar a acontecer é falta de comunicação, porque pode haver zonas, neste momento, isoladas, pode ter havido deslizamentos de terras, não se consegue aceder por estrada. Isto aconteceu em Marrocos também, portanto, vai ser preciso enviar, eventualmente, helicópteros para ver os danos. E isso vamos ver nos próximos dias.
E estas horas são, como disse, cruciais. Professor, há sempre uma questão que nos vem à cabeça quando vemos estas notícias, seja o exemplo que deu em Marrocos, seja na Venezuela, seja onde for. Nós, que estamos avisados e sabemos que Lisboa também está numa zona de risco, perguntamos sempre: uma coisa como estas, que está a acontecer na Venezuela, podia acontecer aqui em Lisboa.
Eu estava a lembrar do professor Miguel Miranda falar há bocado. Ele dizia que nós não temos bem a consciência. Isto é bom para nos fazer perceber isso. É porque o que está acontecendo na Venezuela, já aconteceu em Portugal e vai voltar a acontecer. Isso é uma certeza que nós temos.
E aquilo que lhe pergunto a seguir é: quando fala desta chamada de atenção, acha que nós estamos preparados para um evento desta natureza, do ponto de vista estrutural, do ponto de vista cultural, de sociedade, até?
É a questão sempre do copo meio cheio, meio vazio. Eu acho que não estamos. Do ponto de vista cultural, estamos muito mais. Demos saltos muito grandes e até a comunicação social teve um papel muito importante e tem tido, até relembrar isto nos intervalos dos sismos. Mas há uma coisa que é verdade, é que há muitas casas em Lisboa, e falamos em cerca, se calhar, metade, não têm condições para aguentar um sismo destes. Agora, não é fácil mudar isso, mas é por ser difícil que nós temos que começar já e fazer devagarinho.
E começar a perceber que é preciso investir na reabilitação de alguns edifícios e precisamente prepará-los para uma situação deste gênero que, como o professor disse e como diz a comunidade científica que estuda estes casos, vai acontecer em Lisboa, e isso é uma certeza.
Sim, porque estes episódios são cíclicos. Há uma coisa que é o chamado ciclo sísmico, portanto, os sismos repetem-se. E nós até temos pouca memória, porque o de 1755 foi um sismo de magnitude superior a este, mas longe. Mas nós tivemos sismos como o de 1531, na zona do Vale do Tejo, que terá sido muito semelhante ao que aconteceu agora na Venezuela.
E as pessoas vão-se esquecendo disso. Uma das coisas que se fala é que na zona da Grande Lisboa tem havido pequenos sismos, de vez em quando são sentidos. Claro que dão nas notícias, etc., não têm provocado danos, mas há a convicção generalizada de que isso é bom porque vai libertando pequenas bolsas de energia e isso é bom. Isto é um mito ou é, de facto, uma realidade?
É uma realidade, mas há uma parte que é um mito no sentido de, se nós fizermos as contas, um sismo de magnitude 7 é dezenas de milhares de vezes mais forte do que um sismo de 2 ou 3, que são aqueles que acontecem mais raramente. Portanto, é como uma gota d’água numa piscina. Nós podemos estar a tirar uma gota, faz diferença.
Ela ajuda a encher, mas não faz grande diferença no curto prazo.
Não, a energia do grande sismo está a ser acumulada.
Não são notícias animadoras, mas este também não é um caso que dê azo à grande animação. É mesmo um aviso e um alerta para que nos preparemos todos, a sociedade fazer o seu trabalho, e depois quem tem responsabilidades também para fortalecer a cidade e prepará-la para um evento desta natureza. Senhor professor, muito obrigado.
Muito obrigado eu.
Eu conversei com o professor João Duarte, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Há muito trabalho a fazer só na cidade, até porque as pessoas não morrem do sismo, morrem quando os edifícios colapsam. Mas isso até agora não tem parecido prioridade para o poder político. Basta ver que no futuro Hospital de Todos os Santos, que vai substituir sete hospitais de Lisboa, o governo decidiu que só um dos três edifícios terá sistema sísmico de base. No mais moderno hospital de Lisboa, apenas um edifício com sistema sísmico, e mesmo assim, só depois do Tribunal de Contas ter obrigado a incluir no projeto o isolamento contra os sismos. Para que gastar dinheiro a prevenir, em princípio, vai correr tudo bem. Esta foi a História do Dia, a sonoplastia do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Bom fim de semana.
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