Em frente ao mural que guarda o rosto de Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares (1926-2002) na Mafalala, bairro da cidade de Maputo onde a escritora viveu, numa casa de madeira e zinco, na década de 1940, Tomás Vieira Mário recorda mais do que uma escritora: evoca a mulher, a presença e os gestos de uma figura que marcou uma geração.
“A Noémia está no grupo de grandes figuras do seu tempo, na criação de consciência nacional”, conta, em entrevista à Lusa, Tomás Vieira Mário, apontando a poetisa, de quem foi amigo, como uma das vozes fundamentais na afirmação da noção de nação, ao defender: “não somos Portugal, somos um país africano”.
Em tom nostálgico, o escritor recorda o primeiro contacto com Noémia, carinhosamente recordada como “mãe dos poetas moçambicanos”, aquando da sua vinda a Moçambique, 10 anos após a independência (1975): “era uma figura mítica para todos nós”.
Lembra que, na época, a escritora era conhecida apenas pelos livros e poemas, “a única mulher poeta em Moçambique”, enquanto jovens escritores se interrogavam: “quem será essa Noémia de Sousa tão falada nos livros”.
Figura central da literatura moçambicana, Noémia de Sousa afirmou-se nas décadas de 1950 e 1960 com uma poesia de forte carga identitária e nacionalista, tendo colaborado nesse período com o jornal Brado Africano, um influente órgão da imprensa africana em Lourenço Marques durante o período colonial, e vendo a sua obra reunida mais tarde em Sangue Negro, publicado em 2001.
Deixou Lourenço Marques, atual Maputo, com destino a Portugal, em 1964, num momento de crescente repressão colonial que levou vários intelectuais a abandonar o território, regressando ao país apenas na década de 1980.
“Na altura éramos todos jovens, associados à Aemo [Associação dos Escritores de Moçambique], escritores. Então fomos rodear no aeroporto, recebê-la no aeroporto com entusiasmo”, descreve Vieira Mário, partilhando que mais tarde, como jornalista, mudou-se para Portugal para trabalhar como correspondente da Agência de Informação de Moçambique (AIM) em Lisboa, período em que aprofundou o convívio com Noémia de Sousa.
Como colegas de profissão, com Noémia a trabalhar como jornalista da ANOP (que esteve na génese da agência Lusa), nos anos de 1986 e 1987, Tomás Vieira Mário conta que a amizade se aprofundou, dando lugar a convívios marcados por risos, histórias e aprendizagens, na casa da poetisa, em Algés, nos arredores de Lisboa, que incluíam também a irmã, Camila de Sousa.
“Eram duas senhoras muito simpáticas e eu ia lá aos sábados conviver com ela, fazia boa comida”, conta, evocando a origem indiana de Noémia, visível nos pratos “muito picantes e muito saborosos” que preparava.
Aos sábados, recorda, sucediam-se “sessões de conversa muito animada”, num ambiente em que não faltavam histórias, memórias de Maputo e momentos de convívio à volta da mesa.
Noémia, recorda, tinha “um riso fácil” e uma presença aberta, marcada por grande disponibilidade para o diálogo e partilha, sublinhando: “era alguém com quem podíamos conversar toda a tarde, a rir, a contar histórias”.
Além da dimensão intelectual, havia traços pessoais que a distinguiam, como a sua postura liberal e aberta ao mundo, pouco comum naquela época. “Era uma pessoa muito liberal, fumava cigarros. Na altura não era muito comum uma mulher fumar cigarros e era jornalista, portanto uma pessoa muito aberta ao mundo”, conta.
Entre as recordações, ficam também os comentários diretos e críticos que fazia sobre o seu tempo e os seus contemporâneos, refletindo um pensamento atento e interventivo. E mais do que episódios isolados, o que permanece, segundo Vieira Mário, é a imagem de uma mulher que, apesar da longa trajetória de vida, mantinha “muita energia interior” e uma forte capacidade de criar ligação com os outros.
“Ela tem um espaço reservado na nossa história cultural e política muito claro. É uma pioneira de darmos consciência de que somos uma nação, podemos e queremos ser livres”, refere Vieira Mário, entre o burburinho do quotidiano da Mafalala, bairro histórico de Maputo que acolheu figuras como Samora Machel (1933-1986) e Joaquim Chissano, e que se cruza com as raízes da escritora, nascida na Catembe, do outro lado da baía de Maputo.
No contexto do centenário, Mário entende que a evocação da autora deve servir para valorizar não apenas a sua obra, mas também o contributo mais amplo da mulher moçambicana intelectual: “É uma mulher que se afirma como intelectual, com uma poesia africanista e nacionalista muito forte”.
“O centenário da Noémia tem de ser um momento de enaltecer a sua obra pioneira, enaltecer sobretudo o contributo da mulher moçambicana intelectual no nosso nacionalismo, enaltecer também o nosso multiculturalismo, que é isso que ela representa”, afirma.
Para Tomás Vieira Mário, o legado de Noémia de Sousa mantém-se atual, sobretudo na afirmação da dignidade e identidade moçambicanas, expressa em ideias como “sou moçambicano, sou africano, da cabeça aos pés”, destacando o “espírito emancipador” da autora, que defendia que o moçambicano deve afirmar o seu lugar no mundo sem se sentir inferiorizado.
Mesmo após a sua morte, em 04 de dezembro de 2002, em Cascais, Portugal, Noémia de Sousa permanece como uma figura incontornável da história cultural e política de Moçambique, deixando um legado que continua a atravessar gerações e a moldar a identidade do país.
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