Não têm amigos e podem passar o fim de semana sem uma única mensagem. Dizem que estão bem assim

Sarah-Jane já odiou o silêncio. Hoje, pode passar um fim de semana sem uma mensagem ou um telefonema e está bem com isso. Não é a única: nas redes sociais, cada vez mais mulheres mostram como aprenderam a estar sozinhas

Sozinha no seu pequeno estúdio, Sarah-Jane Hoadley documenta regularmente a sua vida enquanto mulher solteira, na casa dos 40 anos e sem amigos.

Hoadley é aquilo a que alguns poderão chamar uma “influenciadora da solidão” – um tipo de criadora de conteúdos nas redes sociais cada vez mais comum, geralmente uma mulher, que assume e aceita viver a vida sozinha.

Embora os homens também sintam solidão, as mulheres poderão estar mais predispostas a partilhar conteúdos sobre a experiência de passar pela vida sozinhas, uma vez que enfrentam menos estigma em torno da saúde mental, observa Lauren Cook, psicóloga clínica que vive em San Marino, na Califórnia.

Quase todos os dias, Hoadley, que trabalha em limpezas em Windsor, Inglaterra, aquece água para fazer café instantâneo, vai de bicicleta até casa dos clientes e, mais tarde, regressa a casa, onde passa serões tranquilos a ver televisão, aconchegada ao gato. É nesses momentos mais banais do dia a dia que encontrou paz.

A sua conta, @dramafreediaries no TikTok e no Instagram, acumulou 100 milhões de visualizações e 500 mil seguidores em várias redes sociais desde a primeira publicação, em janeiro.

“Desde que saio do trabalho à sexta-feira até regressar na segunda, não recebo mensagens no WhatsApp. Não recebo telefonemas, mas não sinto falta de nada”, afirma Hoadley.

Embora alguns utilizadores das redes sociais considerem que os criadores de conteúdos sobre solidão promovem o amor-próprio, outros utilizadores e especialistas criticam-nos por incentivarem o isolamento numa altura em que a Organização Mundial da Saúde tornou a solidão uma prioridade de saúde global.

“Estes chamados influenciadores da solidão apresentam uma imagem muito romantizada do que significa estar sozinho”, aponta Phil Lane, psicoterapeuta em Pennington, no estado norte-americano de Nova Jérsia.

Os críticos argumentam que os nativos digitais, como os membros da geração Z – frequentemente apelidada de “geração mais solitária” -, podem, ao ver estes conteúdos, acabar por adotar esse estilo de vida e uma atitude de independência extrema.

Mas alguns especialistas dizem que este estilo de vida é mais complexo do que pode parecer à primeira vista e que pode até ter aspetos positivos, dependendo da forma como é encarado.

“O mais importante é que a pessoa sinta que está a viver de acordo com os seus próprios valores – e não cabe necessariamente a nós dizer se esse estilo de vida é certo ou errado”, diz Cook, fundadora da Heartship Psychological Services.

“Procurar paz” vs. solidão crónica

Os críticos têm acusado alguns “influenciadores da solidão” nas redes sociais de incentivarem o isolamento. (Justin Paget/Digital Vision/Getty Images)

Os influenciadores da solidão só recentemente se tornaram virais, mas os conteúdos que popularizam estilos de vida solitários nas redes sociais não são uma novidade.

Lana Isa, influenciadora nas redes sociais, começou no verão passado a partilhar publicações da sua série de “vlogs a solo”, nas quais mostrava como passava muitas vezes as noites de sexta-feira e sábado sozinha no apartamento.

A série deu origem a uma vaga de criadores de conteúdos no TikTok e no Instagram que passaram a centrar as suas publicações numa vida vivida a sós. O que começou por ser um registo do quotidiano de Isa depressa se transformou num fenómeno online, que voltou a alimentar o debate em torno da saúde mental.

Mas Hoadley afirma que não tem partilhado a sua vida de solteira para incentivar o isolamento. A sua solidão não é algo a que os outros devam aspirar, explica, contrariando aquilo que considera ser uma ideia errada frequente sobre os seus vídeos.

Sarah-Jane Hoadley, de Windsor, Inglaterra, afirma que aceitar a solidão foi um processo gradual.  Cedida por SJ Hoadley/Drama Free Diaries
Sarah-Jane Hoadley, de Windsor, Inglaterra, afirma que aceitar a solidão foi um processo gradual. (Cedida por SJ Hoadley/Drama Free Diaries)

Cook afirma que o impacto destes conteúdos depende da forma como são vistos.

“Se partir de uma procura por paz, conforto e recuperação, pode ser algo muito positivo”, diz Cook. “Mas se isso resultar de uma tentativa de evitar certas situações ou de não querer mostrar vulnerabilidade, de não querer arriscar quando se trata de encontros ou de novas relações… então acho que temos de tentar perceber se não será a ansiedade a comandar as nossas escolhas nesse momento.”

Embora a expressão “influenciador da solidão” possa dar a ideia de que se está a promover o isolamento, os especialistas dizem que os criadores de conteúdos poderão estar a adotá-la precisamente para contrariar as críticas de que têm sido alvo.

Esta poderá ser uma forma “de reduzir o estigma e a vergonha em torno daquilo por que passam e de ajudar a normalizar essa experiência”, afirma Julianne Holt-Lunstad, professora de psicologia e neurociência na Universidade Brigham Young, em Provo, no estado norte-americano do Utah.

Estudos têm mostrado que a solidão pode ter um impacto significativo na saúde mental. Mas sentir-se isolado também pode prejudicar a saúde física e até tirar anos de vida, segundo um estudo de 2023.

O estudo concluiu que as pessoas que diziam sentir-se socialmente isoladas tinham um risco 32% maior de morrer prematuramente do que aquelas que afirmavam ter uma vida social mais ativa. Já entre as pessoas que diziam sentir-se sozinhas, o risco de morte prematura era 14% superior ao das que não se sentiam assim.

O isolamento social significa passar tempo sozinho e ter pouco contacto com outras pessoas, enquanto a solidão surge quando as relações sociais que temos ficam aquém daquilo que gostaríamos, explica Holt-Lunstad, diretora do Laboratório de Ligação Social e Saúde da Universidade Brigham Young.

“Estar sozinho não é, por si só, algo mau”, aponta Lane. “O problema é quando isso se torna crónico.”

Segundo Lane, os influenciadores da solidão – sobretudo os da geração Z -deveriam ter mais atenção à forma como as suas publicações são recebidas por quem as vê.

“Eles têm muito poder, sobretudo junto das gerações mais jovens, que estão constantemente ligadas às redes sociais”, diz. “E acho que esse poder deve vir acompanhado de um pouco mais de responsabilidade pelos conteúdos que partilham e pelas possíveis consequências negativas que podem ter.”

Cook sublinha que é preciso encontrar um equilíbrio saudável entre passar tempo sozinho e estar com outras pessoas.

“Queremos encontrar um equilíbrio em que as pessoas se sintam em paz por estarem sozinhas e até apreciem esses momentos”, afirma, “mas que, ao mesmo tempo, continuem a querer conviver e a ter relações com outras pessoas.”

Porque é que tanta gente se identifica com estas mulheres?

Alguns criadores de conteúdos sobre solidão encontraram apoio e construíram uma comunidade online. Anastassiya Bezhekeneva/Moment RF/Getty Images
Alguns criadores de conteúdos sobre solidão encontraram apoio e construíram uma comunidade online. (Anastassiya Bezhekeneva/Moment RF/Getty Images)

Para muitos influenciadores da solidão, viver sozinhos não era a vida que tinham imaginado para si – foi uma realidade que se foi impondo depois de atravessarem fases difíceis.

Hoadley conta que encontrar paz na própria companhia a ajudou a recuperar a capacidade de decidir sobre a sua vida depois de ter sobrevivido a violência doméstica.

Costumava pôr sempre as preferências do ex-companheiro à frente das suas. “Nem sequer percebemos que acabamos por responder em função daquilo que a outra pessoa quer”, aponta. “Temos a capacidade de fazer as coisas acontecer por nós próprios e gostava de ter percebido isso mais cedo.”

Começar uma vida por conta própria foi uma mudança difícil, mas aprender a estar sozinha deu-lhe espaço para se conhecer melhor e tomar as suas próprias decisões, como ter um gato ou escolher o que lhe apetecia comer.

“Detestava o silêncio. Era horrível”, diz Hoadley. “Mas estou muito grata por ter conseguido aprender a gostar tanto dele como gosto agora.”

Aprender a aceitar os momentos de solidão foi um processo gradual. Hoadley conta que ainda se sente só por vezes nesta fase da vida, mas que, apesar disso, é grata pela tranquilidade e pela sensação de segurança que encontrou.

Partilhar a sua nova vida nas redes sociais ajudou Hoadley a sentir que recuperava algum poder sobre a própria vida, apesar das circunstâncias difíceis que enfrentava.

“Não estou a dizer que, se tivesse visto um TikTok, teria saído daquela relação mais cedo”, afirma Hoadley. “Mas há qualquer coisa em conseguirmos imaginar como gostaríamos que fosse a nossa vida.”

Para Tess Lavanda, de 22 anos, falar sobre a solidão para uma câmara acabou por ser uma forma de lidar com os receios que sentia em situações sociais. A jovem, que vive em Londres, tem mais de 27 mil seguidores no TikTok.

Vinte e quatro horas depois de se mudar da Nova Zelândia para Londres, Lavanda queria sair para beber um cocktail, mas sentia-se estranha com a ideia de ir sozinha. Gravou-se enquanto se maquilhava e falava sobre o constrangimento que sentia, numa espécie de diário em vídeo. Não tencionava publicar a gravação, mas, depois de a ver, pensou que partilhá-la poderia ajudar alguém.

Tess Lavanda, que vive em Londres, conta que falar para a câmara sobre a solidão a ajudou a lidar com os receios que sentia em situações sociais.  Cedida por Tess Lavanda
Tess Lavanda, que vive em Londres, conta que falar para a câmara sobre a solidão a ajudou a lidar com os receios que sentia em situações sociais. (Cedida por Tess Lavanda)

Desde então, o vídeo já ultrapassou as 300 mil visualizações. “Tem sido muito estranho falar de algo tão íntimo e vulnerável e receber uma reação tão positiva”, aponta. “O mais surpreendente tem sido isso… perceber a quantidade de pessoas que se sentem exatamente como eu.”

Cook, a psicóloga clínica que vive na Califórnia, afirma que estes conteúdos refletem aquilo que muitas pessoas estão a sentir neste momento.

“Mostram que todos damos importância a coisas diferentes… E o facto de estes conteúdos estarem a tocar tantas pessoas neste momento talvez seja um sinal de que há quem se sinta esgotado, precise de descansar mais ou já não tenha energia para conviver”, explica Cook.

Encontrar uma comunidade

Hoadley conta que já foi abordada por pessoas da sua cidade que viram as suas publicações nas redes sociais.

“É apenas uma interação de dois segundos, mas para mim faz toda a diferença”, diz Hoadley.

Quando se mudou para esta cidade inglesa, Hoadley conhecia apenas alguns familiares próximos, mas aquilo que começou a partilhar nas redes sociais fez com que se tornasse um rosto conhecido para algumas pessoas do bairro.

Antes, Hoadley raramente iniciava conversas com desconhecidos. Mas a comunidade que criou online teve um impacto significativo na sua vida, através das interações que passou a ter tanto nas redes sociais como cara a cara.”

“É quase como ter imensos amigos”, diz Hoadley.

Estar sozinha e partilhar esse percurso nas redes sociais acabou por ajudar Hoadley a encontrar satisfação na vida que leva. Ao longo do dia, procura encontrar momentos positivos e pequenas “vitórias”, seja dar um passeio de 10 minutos, ganhar dinheiro ou fazer algo que lhe dê ânimo, como cozinhar a sua refeição preferida.

“Nada do que fiz é algo que outras pessoas não possam fazer”, refere Hoadley. “Tenho um emprego em que recebo o salário mínimo. Vivo num estúdio de cerca de 33 metros quadrados… mas consegui transformá-lo no meu lugar preferido.”

Lavanda conta que o apoio que encontrou online a ajudou a tornar-se mais confiante.

Há dias em que a solidão ainda se torna difícil de suportar, admite, mas aprender a aceitá-la, em vez de lutar contra ela, ajudou-a a perceber que, mesmo assim, conseguia encontrar coisas positivas na vida.

“Não há razão para sentir vergonha. É completamente normal”, afirma Lavanda. “Experimentem coisas como meditar, escrever ou caminhar. Acho que o importante é concentrarmo-nos naquilo que podemos fazer para aproveitar este período, em vez de pensarmos naquilo que não podemos fazer.”

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