“Parte significativa da documentação relativa às operações, aos efetivos, aos locais de detenção e às decisões políticas e militares daquele período encontra-se hoje em arquivos portugueses. Sem esse acesso, a história da luta de libertação nacional continua a ser escrita a partir de apenas uma das suas fontes”, disse a governante.
A posição foi assumida após a assinatura, em Maputo, pelos dois ministros, de um memorando de entendimento que prevê o apoio de Portugal à recuperação, digitalização, conservação, valorização e estudo do património arquivístico militar em Moçambique.
“Importa precisar o alcance que o Ministério dos Combatentes atribui a este instrumento. O património militar português existente em Moçambique é um acervo que o Estado moçambicano guarda com responsabilidade e que passa agora a beneficiar de apoio técnico português na sua recuperação, tratamento e digitalização”, disse.
Contudo, Nyeleti Mondlane, filha do primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), Eduardo Mondlane, afirmou que o objetivo moçambicano é “mais amplo” e passa pelo “acesso dos investigadores moçambicanos aos arquivos históricos militares existentes em Portugal”, para “uma investigação historiográfica comum sobre o período da luta de libertação nacional”.
“Para completar registos, confirmar identidades de combatentes, localizar sepulturas e restituir às famílias uma memória que lhes pertence”, apontou.
Na sua intervenção, no âmbito da visita que está a realizar a Moçambique, Nuno Melo destacou que “quando se escreve a história” é necessário permitir “o acesso aos arquivos de investigadores, que assim a escrevem com verdade”.
“Não se consegue escrever a história com verdade se não a conseguirmos verificar factualmente. E essa verificação factual acontece através de documentos e num propósito que é bom, que é este propósito de reconciliação, de quem celebrou acordos, apertou a mão e viu o futuro com esperança e focado no desenvolvimento dos dois povos”, reconheceu Melo.
Recordou que Portugal conta com cerca de 130 mil antigos combatentes vivos e Moçambique com cerca de 120 mil, pelo que o ato de hoje é também de “reconciliação” e porque há “muitos direitos que só podem ser respeitados” com a preservação dos arquivos comuns.
“Eu levo a celebração deste acordo como uma das parcelas mais importantes desta deslocação da delegação portuguesa a Moçambique. Porque nós estamos a honrar aqueles a quem devemos tudo. Realmente. E nisso estamos a construir qualquer coisa. Estamos a preservar a memória”, apontou Nuno Melo, que antes se reuniu também com o ministro da Defesa Nacional moçambicano, Cristóvão Chume, e homenageou os combatentes portugueses da Primeira Guerra Mundial.
“Portugal e Moçambique estão unidos para todo o sempre. A nossa história é partilhada e eu devo dizer que não se mede apenas por um conflito. É muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa”, enfatizou Nuno Melo.
Já Nyeleti Mondlane recordou que “grande parte desta história” comum é reconstituída “a partir de arquivos militares, onde se encontram registados os factos, os nomes, os lugares e as datas que a memória oral, que só por si, já não retém, e que as gerações mais novas de um lado e do outro têm o direito de conhecer”.
Acrescentou que há 52 anos, em Lusaka, moçambicanos e portugueses “sentaram-se à mesa para pôr fim a uma guerra e abrir uma nova página nas relações entre os dois povos”.
“Hoje, em Maputo, os dois países sentam-se de novo para assegurar que essa página e todas as que antecederam sejam preservadas e integralmente conhecidas. A história que separou os dois povos é hoje a mesma que nos une. Ao assinar o presente memorando, Moçambique e Portugal reafirmam que a sua ligação assenta na língua que partilham, na memória que preservam em comum e no respeito mútuo que os dois povos souberam conquistar. É um laço de irmandade que o tempo consolidou e que nenhum tempo pode desfazer”, concluiu.
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