Ciro Cardoso, um historiador renovador de nossa historiografia, sempre dizia que um tema ou uma nova abordagem na historiografia brasileira levava 15 ou 20 anos para ser incluído nos livros de história, contudo levava 50 anos para ser criticada e superada. Parece-nos que a Guerra do Paraguai é bem esse o caso. Depois de um longo esquecimento o tema foi retomado, a partir de uma visão marxista, pela historiografia brasileira. Todos nós que trabalhamos no campo da História devemos, em primeiro lugar nos perguntar o porquê da retomada e de seu interesse entre 1964 e 1988. Entre os historiadores insuperáveis deste período estão Leon Pomer (1968), Júlio José Chiavenato (1979/1984), Manlio Cangogni e Ivan Boris (1975). Um lugar especial ocupa neste campo a obra de Eduardo Galeano, publicada em 1971, de sucesso internacional imediato e transformado em um cânone da Esquerda latino-americana. Era o livro de cabeceira, como me disse o comandante, de Hugo Chavez. Obras monumentais, como “História da Guerra da Tríplice Aliança e o Paraguai”, do General Tasso Fragoso, de 1934, serviu de base factual, na maioria das vezes não citada. O “renascimento” do tema Guerra do Paraguai”, durante a ditadura militar, e depois dos anos de 1930, atendia a exigências claras do tempo presente. De um lado, no caso do general, Tasso Fragoso, a busca da unidade e solidariedade sul-americana ante riscos neocoloniais crescentes no mundo (ataques contra a Mandchuria, China, Tchecoslováquia, Abissinia, China, realizados ou anunciados); por outro lado, a sombra brutal da ditadura militar inaugurada em 1964 no Brasil. As datas das batalhas, os comandantes militares e o relato ufanista e edulcorante da guerra foram projetados, durante a ditadura, como feitos que comprovariam o papel das Forças Armadas como “defensoras perpétuas do Brasil”. Assim, desconstruir o ufanismo militar brasileiro era parte fundamental da crítica, ainda velada, ao regime militar, em especial a figura do Duque de Caxias, que substituirá nomes singulares da História Militar brasileira pelo general que encarnava a “ordem” e a “disciplina”, elementos fundamentais da imposição ditatorial. O segundo fator do renascimento do debate da guerra foi o fato de que o ditador de plantão em Assunção, o brutal Alfredo Stroessner, financiou e promoveu o “culto a Solano Lopez” Embora tal hagiografia do ditador López começara a sua trajetória de ressurgência no final do século XIX, foi com Stroessner que o chamado “revisionismo histórico paraguaio” emergiu como ideologia extremista e antidemocrática oficial de Estado. Claramente, Stroessner buscou construir a figura de um herói do passado para justificar o ditador do presente. Neste caso, não se trata de História do Tempo Presente – enlaces presentes- passado – mas de apropriação e ressignificação “presenteísta” do passado. Apropria-se do passado para justificar questões do presente. De um lado, crítica aos militares brasileiros, de outra heroicização de ditador sul-americano. A historiografia brasileira, e mesmo latino-americana de Esquerda, não soube precaver-se de tão incômoda proximidade. O que sabemos hoje comprovadamente: (i) a guerra, iniciada por Solano Lopez, resultou na morte brutal de 440 mil pessoas, tornando-se uma das mais letais guerras da história; (ii) deste total, o Paraguai perdeu até 70% de sua população, com a morte de 90% da sua população masculina; (iii o brasil perdeu até 60 mil homens, sendo a guerra externa mais letal de nossa história; (iv) a argentina perdeu 18 mil homens, !% de sua população; (V) o Uruguai perdeu 3.120 mortos, outro 1% da população do país. Sabemos que 6 mil homens das tropas brasileiras eram constituídos de escravizados libertos exclusivamente para lutar na guerra e que 52% do total das tropas brasileiras era constituído de pardos, mestiços de índios e negros, que foram usados como bucha de canhão sem maiores cuidados. As doenças, a fome e os maus tratos foram tão mortais como a frente de combate.
Muitos chamam a guerra de genocídio. È esse o caso? A definição de genocídio hoje implica na vontade consciente de eliminar uma etnia, grupo religioso ou político. Foi esse o caso da Tríplice Aliança, em especial do Brasil, na Guerra do Paraguai? É comparável ao genocídio dos judeus na Segunda Guerra Mundial ou dos Palestinos em Gaza? Esse, sim, é debate muito contemporâneo é obrigatório. Para isso devemos chamar historiadores, cientistas políticos e juristas e buscar, com o Paraguai, a escrita de uma “nova” história compartida dos povos sul-americanos.
Devemos, sempre, ter cuidado ao tratar o tema e perceber o “presenteísmo” vigente na historiografia paraguaia, transformada em ideologia oficial de uma ditadura, sobre a Guerra. Solano Lopez (1827-1870) era um assassino brutal, degolou toda a oposição e convocou meninos para lutar contra um exército profissional, como na Batalha de Cerro Corá. Se autoproclamou “generalíssimo” aos 18 anos e pediu a mão da princesa Isabel – o que o Império do Brasil sequer respondeu -, fixado em apropriar-se do Mato Grosso e Santa Catarina para conseguir uma saída para o mar. Nesse ponto a historiografia marxista, na época da ditadura, querendo desacreditar os militares, negou, ou banalizou, a história de brutalidades de Lopez contra liberais e republicanos democratas paraguaios e copiou e repetiu a versão negacionista da História promovida pelo, então, ditador Stroessner para legitimar sua própria longuíssima ditadura (de 1954 até 1989). Autores brasileiros acabaram “engolindo” a propaganda de um outro cruel ditador, Alfredo Stroessner, parte fundamental da Operação Condor. Ora, a ditadura militar no Brasil, de 1964, foi implantada através do apoio e financiamento vindo do imperialismo americano. Nada mais fácil, pois, que atribuir ao Império do Brasil, em 1865, o papel de fantoche de outro imperialismo, a presença britânica no continente. Ora, entre 1861 e 1865 o Brasil estava em uma violenta disputa contra a Grã-Bretanha, denominada a “Questão Christie”, entre 1861 e 1865, levando ao rompimento de relações diplomáticas em 1863.
Ou seja, quando começa a Guerra do Paraguai, em 1864, o Brasil estava em aberto conflito com os britânicos, com a ameaça de bloqueio dos portos brasileiros e sem relações diplomáticas entre ambos os impérios. Convenhamos que isso fragiliza fortemente o argumento de Brasil “fantoche” dos ingleses. E por que a Grã-Bretanha precisava do Brasil para destruir o Paraguai? Segundo esta mesma historiografia, porque o Paraguai estava avançando numa forma de revolução industrial autônoma como modelo para emancipação da América Latinas. Essa é a tese de Chiavenato que, entretanto, foi desacreditada pelas pesquisas arquivísticas posteriores. A industrialização precoce do Paraguai, na década de 1860, é um mito repetido acriticamente. A ideia de que o Paraguai era uma “potência industrial” em 1864 é, em verdade, uma tese da historiografia revisionista, leia-se de resistência antimilitar, dos anos 1960 e 1970 que foi difundida no Brasil por livros como “Genocídio Americano”, de Júlio José Chiavenato. Dado seu caráter perturbador da historiografia ufanista militar, outro mito, teve imediata recepção e divulgação, transformando-se de mito em vulgata.
No entanto, tal tese, ou talvez somente uma hipótese, foi completamente refutada pelos historiadores contemporâneos com base em documentos da época. Desde 2002, o livro de Francisco Doratioto, fruto de 15 anos de pesquisas nos arquivos sul-americanos e europeus, desmente a tese revisionista da ideologia do regime Stroessner e mostra, claramente, que a economia paraguaia era dominante rural, aliás como o Brasil, como nos mostra em “Maldita Guerra: uma nova História da Guerra do Paraguai”. Da mesma forma, Alfredo Motta Menezes, em “A Guerra é Nosso: a Inglaterra não provocou a Guerra do Paraguai”, de 2012, comprava que o Paraguai, ao contrário do Brasil, tinha, então, excelentes relações com Londres e não representava nenhum estorvo para os interesses britânicos no Rio da Prata.
Da mesma forma, atribuir ao Duque de Caxias – visando ainda uma vez atingir os militares – o comando, e suas funestas consequências, da guerra é um erro. As últimas batalhas contra o Paraguai foram lideradas pelo Conde d’Eu e não por Caxias. As batalhas de Acosta Nhu, em 16 de agosto de 1869, e de Cerro Corá, em 1 de março de 1870, foram de fato brutais, com o Exército do Paraguay formado por velhos e meninos, sob o comandando de Lopez. As tropas brasileiras foram comandadas nestas batalhas pelo Príncipe D’Eu e pelo Visconde de Pelotas – o General Menna Barreto havia sido morto em combate – travaram um combate de aniquilação das forças paraguaias. Vejam, bem: quem alistou meninos e recusou a rendição e o exilio, mesmo não tendo mais como reagir, foi o próprio Lopez, que então abandona Assunção, antes, porém ordena a execução, na prisão, de toda a oposição. Solano Lopez padecia de grave paranoia persecutória – como muitos líderes de então e de hoje -, mandando internar mulheres de juízes e ministros em campos de concentração e obrigando a população de Assunção a fazer marchas da morte. Mandou matar até o seu próprio irmão, Benigno Lopez. Num paralelo histórico defender Lopez é como defender Hitler quando insistiu em mobilizar meninos de 14 e 15 anos para a Batalha de Berlim, em 1945, sem quaisquer chances do menor ganho possível. Foi o que Solano Lopez fez. Aqui não se trata de “anacronismo” comparar feitos militares como recurso da História Cruzada. Em História Militar, tão pouco estudada de forma séria no país, lançamos mão do entrecruzamento de feitos históricos para o melhor entendimento. São comuns, no campo especializado, comparações entre o “Desembarque de Anzio”, na Itália, em 1944, e o “Desembarque de Inchon”, de 1950, na Península Coreana e ambos com o “Desembarque da Normandia”, ou o “Dia D”, em 1944. Da mesma forma, é recorrente a comparação, e as técnicas militares, da “Batalha [de blindados]de Kursk”, em 1943 e a “Batalha [de blindados]do Sinai”, de 1943. Apenas o pouco conhecimento da História Militar permite inculcar a pecha de anacronismo às regras de todo um campo de estudos.
O que deseja o Presidente Pena Palácios ao retomar a ideologia de Stroessner hoje, ainda mais às custas de Lula e do Brasil? Trata-se claramente, num momento de enfrentamento do Brasil com o Governo Trump e seu “proxi” Milei, é fazer autopropaganda eleitoral da Direita e colocar-se no panteão de Lopez e Stroessner. Devemos então, na lógica dos tais historiadores ditos marxistas, aceitar que Stalingrado, o Dia D ou Batalha de Berlim foram culpa dos “Aliados”? Os ditos historiadores, sem entender os conceitos chave de “apropriação” e “ressignificação” do passado via presenteísmo engoliram a propaganda do ditador Stroessner tal como, hoje, Zelensky promove o SS assassino e genocida Stepan Bandera como herói nacional.
A história não é pasto aberto para negacionismos e ressignificações oportunistas da Extrema Direita.
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