Flávio Bolsonaro não conseguiu, como tanto desejava, convencer uma mulher a ser a sua vice nas eleições de outubro no Brasil e até terá desiludido a maioria dos seus adeptos ao escolher Alfredo Gaspar, um obscuro deputado do pequeno estado de Alagoas. Mas o candidato de extrema-direita tinha um plano: mostrar ao principal rival, Lula da Silva, que o filho deste, conhecido como Lulinha, vai ser tema central na campanha eleitoral. Gaspar foi o relator da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) de um caso, a Farra da Segurança Social (INSS), que envolve o primogénito do presidente.
Nessa CPMI da Farra do INSS, um esquema fraudulento milionário no equivalente a mais de mil milhões de euros iniciado em 2019, ainda no governo de Jair Bolsonaro, que se manteve até 2024, já no atual governo, Gaspar fez os possíveis e os impossíveis para acusar Fábio Luís Lula da Silva de corrupção, de tráfico de influência, de organização criminosa e de lavagem de dinheiro. E pediu até a prisão dele por risco de fuga num relatório final rejeitado por 19 votos contra 12.
Lulinha, empresário de 51 anos, é alvo nesse processo de três inquéritos autorizados por dois juízes do Supremo Tribunal Federal (STF), o primeiro por André Mendonça, ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, e o segundo e terceiro por Flávio Dino, ex-ministro da Justiça de Lula. A Polícia Federal (PF) investiga se o filho de Lula favoreceu o lobista Antônio Carlos Antunes, cuja alcunha é Careca, considerado o líder da Farra do INSS e preso desde setembro de 2025, em contratos com o ministério da Saúde e o gabinete da presidência através de uma empresa chamada Dataprev.
Segundo as investigações, Careca atuaria como intermediário entre sindicatos, associações e funcionários da Segurança Social do instituto recebendo valores descontados indevidamente de reformados e pensionistas. Um ex-empregado dele contou na CPMI liderada por Gaspar que Lulinha recebeu 25 milhões [em moeda não especificada] além de uma mesada de 300 mil reais [perto de 50 mil euros] do patrão.
O relatório da CPMI também listou três viagens que Lulinha fez a Madrid e Lisboa, supostamente pagas por Careca, ao longo de 2024. “Está provado que o dinheiro roubado de reformados e pensionistas foi utilizado em benefício de Lulinha para a aquisição, pelo Careca do INSS, de passagens de primeira classe em voos internacionais, bem como hospedagens de luxo em países europeus”, escreveu no relatório o hoje candidato a vice de Flávio.
“No que tange ao Fábio Luís, 95% de tudo o que é escrito no relatório é a reprodução de reportagens”, disse o advogado de Lulinha a propósito das acusações. “A CPMI não conseguiu trazer nada de novo, dizendo que há, apenas, uma possibilidade de que Fábio Luís tenha ligação com os investigados (…) é mera perseguição com fins políticos”, acrescentou Guilherme Seguimori. O jurista disse ainda que a viagem a Portugal serviu apenas para conhecer um projeto de medicamentos à base de canabidiol sugerido pelo Careca mas a que Lulinha não deu sequência.
Nos últimos dias, o caso chegou ainda mais perto do Planalto: Marco Ribeiro, chefe de gabinete de Lula, admitiu ter recebido um empréstimo suspeito de Roberta Luchsinger, a intermediária da relação entre Lulinha e Careca. Ribeiro, conhecido como Marcola, demitiu-se.
Lulinha, entretanto, já é um calcanhar de Aquiles para o pai desde o primeiro governo deste, no início do século, por causa de contratos de uma empresa sua, a Gamecorp, com empresas públicas.
Com o escândalo a pairar no noticiário, uma sondagem de quarta-feira, dia 5, da Genial/Quaest, realizada após os inquéritos abertos contra o filho do presidente, indicou uma diminuição da vantagem de Lula sobre Flávio, de 40% a 28%, 12 pontos, para 39% a 30%, só nove. E para a maioria dos observadores, o estrago para o campo da esquerda pode vir a ser maior em futuras pesquisas.
Reações
De acordo com Lula, se o filho “tiver feito coisa errada, terá de pagar como todo mundo”. “Se ele tiver certo, vai ter ajuda minha. Se fizer coisa errada, ele sabe o que eu passei. Sabe o que é ver na TV te chamarem de ladrão. Sabe que a minha mulher [e mãe dele] morreu por causa da Lava Jato”, disse o presidente.
Na oposição, Ronaldo Caiado, candidato de direita pelo PSD, disse que Lulinha “vendia acesso ao poder”. Para o terceiro classificado nas pesquisas com 4%, “o escândalo do príncipe chegou à antessala do rei”. E sobre o envolvimento de Marcola sublinhou que demonstra “corrupção no governo”.
“O caso vai influenciar a campanha, mostra que em Brasília muitos políticos vivem no luxo, enquanto o povo vive no lixo”, disse o também candidato de direita Romeu Zema, do Novo.
E Flávio Bolsonaro já aproveitou a indicação de Alfredo Gaspar, relator da CPMI que pediu a prisão de Lulinha, para capitalizar eleitoralmente o caso. “Escolhi o nosso vice pela sua história na segurança pública, é alguém que foi chefe do ministério público do seu estado e que defendeu os nossos reformados na CPI da Segurança Social ao pedir a prisão do Lulinha porque tem culpa no cartório”.
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