A guerra tornou-se uma realidade em várias regiões do planeta, muito para além dos conflitos que ocupam diariamente o espaço mediático. Um projeto digital, o World Conflict Map, reúne 29 conflitos considerados ativos em cinco continentes, permitindo visualizar num único mapa a dimensão e a dispersão da violência armada contemporânea. Da guerra na Ucrânia aos confrontos no Médio Oriente, passando pelas guerras civis no Sudão e em Myanmar, pela insurgência em Cabo Delgado, pela violência de gangues no Haiti e pelos cartéis no México, a plataforma mostra uma realidade internacional marcada por conflitos de natureza muito diferente e por níveis de intensidade distintos.
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O mapa apresenta um globo terrestre interativo onde estão assinaladas as principais zonas de conflito e cruza informação proveniente de três bases de dados especializadas: o Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED), o Uppsala Conflict Data Program (UCDP), da Universidade de Uppsala, e o Global Conflict Tracker, do Council on Foreign Relations. Os dados são ainda complementados por informação agregada através do Google News. A plataforma é associada a Clem Ziroli III, empresário norte-americano ligado ao setor imobiliário e formado em Ciência Política, que tem desenvolvido iniciativas digitais baseadas em dados abertos. Ziroli assume-se como apoiante da administração de Donald Trump, mas os dados utilizados no mapa são recolhidos junto de organizações externas. Ainda assim, a escolha dos conflitos abrangidos, os critérios utilizados para determinar a intensidade e a forma de apresentação da informação correspondem às opções editoriais do próprio projeto.
A lista dos 29 conflitos acompanhados inclui Ucrânia; Israel-Gaza; Irão-Israel; Líbano-Israel; Iémen; Síria; Iraque; conflito entre a Turquia e grupos curdos; Sudão; Sudão do Sul; Somália; Etiópia; República Democrática do Congo; República Centro-Africana; Nigéria; insurgência no Sahel; insurgência em Cabo Delgado, em Moçambique; Líbia; Afeganistão; Paquistão; conflito entre a Índia e o Paquistão na Caxemira; Myanmar; tensões no Estreito de Taiwan; disputas no Mar do Sul da China; Arménia-Azerbaijão; guerra dos cartéis no México; Colômbia; Haiti; e Equador. A plataforma não limita, portanto, o conceito de conflito a guerras convencionais entre Estados: inclui guerras civis, insurgências, movimentos separatistas, confrontos regionais e situações de violência associadas ao crime organizado. Dos 29 conflitos identificados, 16 são atualmente classificados pelo mapa como sendo de “alta intensidade”, uma categorização que resulta dos critérios editoriais utilizados pelo projeto.
Ucrânia e Médio Oriente concentram alguns dos principais focos de tensão
A guerra entre a Rússia e a Ucrânia continua a ser o conflito mais mediático do mapa e o único identificado na Europa. Mais de quatro anos depois do início da invasão russa em grande escala, a guerra mantém uma intensidade elevada e continua a ter consequências que ultrapassam as fronteiras dos dois países, influenciando a segurança europeia, os mercados energéticos e a política internacional. O World Conflict Map coloca o conflito no nível de “alta intensidade”.
Também o confronto entre Irão, Israel e Estados Unidos surge entre os principais focos de instabilidade. Os confrontos diretos e indiretos entre Teerão e os seus adversários transformaram o Médio Oriente num dos centros de maior tensão internacional. A disputa estende-se ainda ao Estreito de Ormuz, uma passagem estratégica para o comércio mundial de petróleo, fazendo com que a instabilidade na região tenha potencial para afetar os preços da energia à escala global. Este conflito é igualmente classificado pelo mapa como de alta intensidade.
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A guerra entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza permanece outro dos grandes focos de tensão internacional. O conflito intensificou-se após os ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023 e a subsequente ofensiva israelita, provocando destruição em larga escala e uma grave crise humanitária. Apesar da dimensão da guerra e do impacto político e diplomático internacional, o World Conflict Map classifica atualmente este conflito como de intensidade média, refletindo períodos de menor atividade militar direta.
No Sudão, a violência assume uma dimensão particularmente grave apesar de receber menos atenção internacional. A guerra civil entre as forças armadas sudanesas e as Forças de Apoio Rápido provocou milhões de deslocados e uma deterioração profunda das condições de vida da população. Em abril deste ano, as Nações Unidas alertaram para a dimensão da emergência humanitária, estimando que 34 milhões de pessoas necessitavam de ajuda humanitária. O conflito surge classificado como de alta intensidade.
África concentra vários conflitos prolongados
Na República Democrática do Congo, sobretudo no leste do país, vários grupos armados continuam envolvidos numa disputa por território, recursos minerais e poder local. Entre essas forças encontra-se a milícia M23, alegadamente apoiada pelo Ruanda, mas o conflito envolve também outras organizações armadas. A violência permanece particularmente grave nas províncias de Kivu do Norte e Kivu do Sul, onde, além das consequências da guerra, a população enfrenta um surto de ébola descrito como atingindo níveis históricos. O conflito na RDC é classificado como de alta intensidade.
Em Moçambique, a insurgência islamista em Cabo Delgado constitui um dos conflitos mais próximos dos interesses portugueses. A província, rica em gás, enfrenta há vários anos a atividade do Al Shabab, grupo associado ao Estado Islâmico. As autoridades moçambicanas e forças internacionais têm desenvolvido operações militares na região, mas a insurgência continua ativa. O World Conflict Map mantém Cabo Delgado entre os principais focos de violência em África, embora com uma classificação de intensidade média.
A lista inclui ainda conflitos na Somália, Etiópia, Sudão do Sul, República Centro-Africana, Nigéria, Sahel e Líbia, mostrando como a instabilidade africana está distribuída por várias regiões e assume diferentes formas, desde guerras civis e insurgências armadas até confrontos por território e poder.
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Myanmar continua mergulhado numa guerra civil
Na Ásia, Myanmar permanece entre os cenários de maior violência. Desde o golpe militar de 2021, que derrubou o Governo democraticamente eleito liderado por Aung San Suu Kyi, o país vive uma guerra civil que opõe a junta militar a diferentes grupos étnicos armados e movimentos de resistência. O conflito tornou-se um dos mais intensos da região e continua sem uma solução à vista.
O mapa acompanha igualmente a situação no Afeganistão e no Paquistão, o conflito entre a Índia e o Paquistão na Caxemira, as tensões no Estreito de Taiwan e as disputas no Mar do Sul da China, além do confronto entre a Arménia e o Azerbaijão. São conflitos e focos de tensão de natureza distinta, mas que contribuem para uma paisagem geopolítica cada vez mais fragmentada.
Haiti mostra como a violência criminal também entrou no mapa
O Haiti é um dos exemplos mais claros de que o World Conflict Map não se limita às guerras tradicionais. O país não atravessa uma guerra convencional entre Estados ou forças militares organizadas, mas a violência protagonizada por gangues armados atingiu uma escala suficientemente elevada para ser considerada um dos principais teatros de conflito atuais. Só no primeiro trimestre deste ano, a violência provocou pelo menos 1642 mortos e 745 feridos, segundo o relatório mais recente do Escritório Integrado das Nações Unidas no Haiti (BINUH).
O mesmo alargamento do conceito de conflito explica a presença da guerra dos cartéis no México, bem como da violência na Colômbia e no Equador. Ao colocar estes cenários lado a lado com guerras como as da Ucrânia, do Sudão ou de Myanmar, o mapa procura mostrar que a instabilidade internacional não resulta apenas de confrontos militares entre Estados. As causas, os protagonistas e a intensidade variam profundamente, mas o resultado é uma realidade global em que dezenas de milhões de pessoas continuam expostas à violência armada, à deslocação forçada e à destruição das suas comunidades.
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