A campanha para as legislativas, autárquicas e regional de 27 de Setembro em São Tomé e Príncipe está lançada desde 12 de Setembro. Neste âmbito, acompanhamos este período pré-eleitoral, dando a palavra às formações candidatas à governação.
Neste domingo, ouvimos Domingos “Nino” Monteiro, líder e cabeça de lista da coligação MCI-PS/PUN Movimento de Cidadãos Independentes – Partido Socialista / Partido de Unidade Nacional, na oposição. Figura também conhecida por liderar a Federação são-tomense de Futebol, Nino Monteiro estabelece como suas prioridades, a reforma da justiça, assim como a consolidação dos sectores da saúde e da educação.
RFI: Quais são as suas prioridades?
Nino Monteiro: As prioridades são vastas. Como sabe, o país não tem nada, mas principalmente a saúde, a educação, as infra-estruturas, a juventude que, como sabe, os jovens hoje estão completamente perdidos. Não vêem um espaço para triunfar e caminhar de facto, com os seus próprios pés. Tudo isso leva-nos a entrar nessa corrida para, junto da juventude, de todo o povo de São Tomé e Príncipe, todos nós juntos tentarmos credibilizar o país e dar-lhe o rumo que todos nós almejamos.
RFI: Enumerou as suas prioridades. Uma delas é precisamente a juventude. Tem-se assistido nos últimos anos a uma saída importante de jovens são-tomenses para os caminhos da emigração. O que é que a sua coligação pretende fazer para que essas populações continuem em São Tomé e Príncipe e tenham perspectivas?
Nino Monteiro: Muitos falam da emigração. Não estamos contra a emigração, até porque mesmo se a juventude quer também sair para conhecer outras realidades e aventurarem-se, obviamente, depois regressar ao seu país, o que nós queremos é preparar o país e acompanhá-los aonde eles estiverem. E, de facto, criar as condições no país para eles, quando entenderem que podem regressar, regressem com alguma esperança que o país melhorou e que vão conseguir também caminhar com sucesso e dar as suas contribuições para o país. Para nós, o importante é prepararmos o país para a juventude e aqueles que entenderem que devem contribuir aqui no país e não sair, que fiquem, mas que fiquem bem e aqueles que entenderem que devem sair, é normal, mas o governo tem que continuar a acompanhá-los, seja onde eles estiverem, para encorajá-los a regressar quando quiserem regressar e que o país esteja pronto para os poder receber.
RFI: Relativamente a outra das suas prioridades, evocou a questão da saúde. O que é que tem nos vossos planos relativamente a esse aspecto?
Nino Monteiro: Eu quero dar um exemplo : depois de 1975 (ano da independência), nos anos 80, 90, nós tínhamos hospitais em todos os cantos do país. Eu até costumo brincar que tínhamos mais hospitais do que população. Tínhamos hospitais em todo canto do país. Hoje temos apenas um único hospital, que é o Hospital Dr. Ayres de Menezes. Como deve saber, o país cresceu a nível de população e as condições desse hospital são de se lamentar. Eu nem considero que é um hospital. Eu digo às pessoas que aquilo não é um hospital, onde tu vais, tens os insectos a tomar conta do hospital. Não há medicamentos, não há reagentes. Quer dizer, não existe nada. E nós achamos que é fundamental nós resolvermos os problemas de saúde, encontrarmos financiamento, porque eu costumo dizer que as pessoas que vão ao hospital, chegam lá, e muitas das vezes, por falta de condições, acabam por falecer. Sabemos que os sucessivos governantes desse país, quando estão doentes, apanham o avião, vão para Lisboa, vão cuidar da sua saúde e as suas famílias, quando estão doentes, fazem a mesma coisa. Mas o povo quando está doente, vão para esse hospital e muitas das vezes, nem um paracetamol para dores o hospital tem para poder nos atender. É nesse contexto que eu dizia que nós temos que mudar e nós vamos de facto provar em quatro anos, se fomos eleitos, que é possível nós mudarmos.
RFI: Nestes últimos meses, o país atravessou uma grande crise energética. O que é que a sua coligação pretende fazer para resolver definitivamente esse problema?
Nino Monteiro: Os problemas energéticos nesse país não estão resolvidos e da forma como estão a pensar, jamais serão resolvidos, porque a única empresa energética que nós temos no país, que é a EMAE, é um saco azul para qualquer governo e as pessoas não estão interessadas de facto, em mudar a situação energética neste país. E hoje em dia, as energias renováveis são a melhor solução, porque enquanto continuamos a importar combustível e tivermos geradores que muitas vezes chegam já inoperantes, a despesa vai continuar a ser enorme com o combustível e mais enorme ainda, a fuga de combustível. E pior, nós entendemos que enquanto isso continuar, teremos problemas terríveis. E eu digo : não é apenas um governo, são todos os que passaram. E nós temos uma visão diferente para, de facto resolver os problemas que afectam todos nós. Como sabe, hoje, sem energia, não se faz nada e nós andamos aqui cerca de um ano e sete meses durante o qual nada funcionou neste país. As instituições não funcionam sem energia, os escritórios não funcionam sem energia. Quer dizer, houve muita gente que foi para falência. O povo, coitado, que tinha os seus pequenos negócios, as nossas mulheres que conservam os seus pescados. Quer dizer, isto foi uma calamidade. A situação energética também é outra prioridade.
RFI: Em termos de política ambiental, o que é que pretendem a fazer, dado que agora São Tomé e Príncipe é reserva da Biosfera?
Nino Monteiro: Obviamente, continuar a proteger e, como sabe, em toda a parte do mundo, se você não protege, está condenado. E a nossa visão, de facto, é de nós continuarmos a proteger e protegermos melhor.
RFI: Relativamente ao pelouro da Educação?
Nino Monteiro: É outro inferno. Fazer com que os educadores possam estar em condições de educar e dar melhor condições para que os professores possam ensinar melhor os alunos e que os alunos também estejam mais preparados para poderem aprender. Formação na educação. Para nós, é fundamental construir mais escolas, dar mais condições, construir mais universidades e dar condições também para aqueles que terminam o 12.º Ano e não podem continuar os seus estudos porque os pais não têm condições e nós encontrarmos uma forma de poder ajudar para que todos estudem.
RFI: O FMI e o Banco Mundial têm prestado algum apoio a São Tomé e Príncipe, mas também têm feito uma série de preconizações, nomeadamente a luta contra a corrupção e uma reforma da administração pública, em termos de custos e em termos de impostos.
Nino Monteiro: Nós sabemos disso e estamos muito atentos a isso. O sistema de corrupção e não só, a forma como gerem o que não é nosso, em vez de gerir pensando no povo. Os parceiros perdem a confiança nos governantes são-tomenses, porque têm ajudado muito e não vêem de facto a evolução. É um conjunto de coisas que nós vamos ter que mudar e que são urgentes. Ter a mão dura para mudar. A justiça não funciona. Obviamente que já se fala há anos da responsabilização das pessoas que fazem a justiça e nunca se vê. É preciso, de facto, termos coragem de reformar a justiça sem termos receio e sem perseguições a ninguém, porque aqui não se faz a reforma da justiça, aqui persegue-se as pessoas. Se eu não gosto de ti ou se tu não cumpres aquilo que eu quero que tu cumpras, então eu crio-te problemas. O maior culpado de tudo isto é quem nos governa. São os maiores culpados de tudo o que tem acontecido aqui nesse país e de a justiça também não funcionar. Não é porque nós temos pessoas que não entendem da justiça. Não é que toda gente que está na justiça é corrupta, não são. Temos pessoas honestas aqui nesse país, mas essas pessoas não têm espaço porque não são pessoas que vão para ditar à justiça. São pessoas que eles querem para ditar o que eles entenderem que deve ser ditado. As pessoas que vêm para ditar a justiça, ninguém quer aqui nesse país. Por isso mesmo que se formos governo, vamos fazer -repito- não uma reforma de perseguições, porque nesse país, nós entendemos que devemos estar todos unidos. Devemos colocar tudo em tábua rasa e trabalharmos com quem de facto quer trabalhar para desenvolvermos o país e mudarmos a vida deste povo que tanto merece.
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