A campanha para as legislativas, autárquicas e regional de 27 de Setembro em São Tomé e Príncipe está lançada desde 12 de Setembro. Neste âmbito, acompanhamos este período pré-eleitoral, dando a palavra às formações candidatas à governação.
Neste sábado, ouvimos Américo Barros, líder e cabeça de lista do MLSTP – Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe, que preconiza uma aposta no turismo, melhorias nomeadamente no sector da saúde e economias nas despesas públicas.
RFI: Pretende realizar economias nas despesas públicas. De que forma pensa concretizar esse objectivo?
Américo Barros: De 2018 a 2022 eu fui governador do Banco Central de São Tomé e Príncipe e tínhamos como despesas para a importação de combustíveis fósseis. Nós estávamos anualmente entre os 40, 60, 70 milhões de Dólares por ano. Portanto, no processo de transição energética, pretendemos obviamente começar cortes por aí. E depois, mesmo na administração pública, constatamos que temos vários sectores que gastam desnecessariamente com viagens, consumo de energia fora do horário. Portanto, é um conjunto de levantamentos que nós fizemos e, portanto, vamos começar pelo corte de compra de combustível.
RFI: E, portanto, isto significa a implementação de uma política mais favorável relativamente a energias renováveis. O que é que pretende fazer sobre este aspecto, uma vez que acabamos de atravessar uma grande crise energética no país ?
Américo Barros: Como sabe o MLSTP de 2018 a 2022, nós tínhamos começado um processo de transição energética, mas temos até hoje painéis solares no nosso porto que não foram levantados até hoje por uma questão política. Então, este processo de transição energética, nós estamos virados para a energia fotovoltaica. Por outro lado, também gostaria -e eu vou fazer todo o forcing- para que apostemos também em hídricas. E daí já respondíamos a duas situações ao mesmo tempo. Além da energia, nós iríamos também proporcionar água potável. E temos também, é claro, que criar barragens. São Tomé e Príncipe é um país que tem água em abundância. Eu vejo o exemplo de Cabo Verde, nem um terço, nem um quarto de água tem como São Tomé e Príncipe. Portanto temos que começar a construir mais barragens.
RFI: O que é que pretende fazer relativamente à questão da saúde?
Américo Barros: Nós ainda nos deparamos com doenças que já não deveriam fazer parte do sistema de saúde no nosso país. Nós temos doenças, por exemplo, de origens hídricas, porque a água vem com micróbios e, portanto, as águas precisam ser tratadas. É aí o outro papel importante que nós teríamos que desempenhar relativamente ao tratamento de águas. Agora, a primeira coisa que vamos fazer é dar continuidade ao projecto que está em curso desde 2014, que seria a construção de um hospital de referência com o fundo ‘Kuwait Fund’. Esperamos iniciar esse projecto, mas também nós gostaríamos de chamar à responsabilidade social todas as empresas que trabalham no país para, no capítulo Responsabilidade Social, apetrechar melhor os postos de saúde nas comunidades, nos distritos, além da área com equipamentos e medicamentos. Tudo isto constitui prioridade para nós. Portanto, essas empresas terão que apoiar São Tomé e Príncipe na construção de alguns centros de saúde fora da capital. Portanto, a saúde para nós é uma prioridade, porque no nosso projecto nós temos o turismo como o pilar fundamental no processo de desenvolvimento económico. E turismo, para ser um turismo de qualidade, todas as outras áreas são fundamentais : a saúde, infra-estruturas. Sabemos o desafio que temos pela frente, porque tudo constitui prioridade, Então temos que eleger prioridade das prioridades para, no curto prazo, os primeiros anos da nossa governação avançarmos.
RFI: Como é que vê precisamente a questão do turismo?
Américo Barros: Actualmente, contribui com cerca de 14% para o PIB. Os dados actuais apontam -são estimativas- que vai baixar para cerca de 11%. Mas o que nós queremos, na verdade, é que o turismo tenha uma maior contribuição no processo de desenvolvimento económico de São Tomé e Príncipe. Gostaríamos que o nosso turismo, um dia, fosse, à semelhança das outras ilhas do Atlântico, e que o turismo colabore com cerca de 40% no PIB. Portanto, vamos ter que trabalhar, vamos ter que organizar o país e, obviamente, todos os sectores que são transversais, também merecerão a nossa atenção para que, quando o turista venha a São Tomé, ele possa, obviamente, convidar mais e mais turistas para o nosso país. A questão da saúde é fundamental. Vem um turista, apanha, por exemplo, o paludismo, que é uma doença que tivemos aqui durante muito tempo. Ele terá dificuldades porque não temos um hospital em condições para responder. Isso afecta o turismo. Temos que resolver o problema da saúde. Basicamente, nesses sectores todos teremos que trabalhar, na construção de resorts, bons hotéis e tentar também fazer um levantamento para vermos quais são os principais locais onde nós podemos beneficiar e tirar algum proveito estratégico, porque nós estamos muito bem localizados. Temos que explorar mais isto.
RFI: São Tomé e Príncipe foi também designado pela UNESCO como Reserva da Biosfera. Até que ponto é que o imperativo de desenvolver o turismo não poderá também colidir com o objectivo de proteger o meio ambiente em São Tomé e Príncipe? Como fazer com que esses dois imperativos possam a conviver?
Américo Barros: A protecção do meio ambiente é uma questão que não se discute, é fundamental. Portanto, eu acho que o desenvolvimento do turismo em nada colide com a protecção ambiental. Fomos classificados como Reserva da Biosfera. Vamos ter que manter este valor que nos foi atribuído, mas temos de tudo fazer para promover a entrada de mais e mais turistas no nosso país.
RFI: Relativamente ao pelouro da Educação, quais são os vossos planos?
Américo Barros: Nós primeiramente temos que motivar a classe docente. Os nossos professores andam muito desmotivados. Os salários praticados na área da docência não motivam ninguém a dar aulas. O meu pai mesmo foi professor mais de 50 anos e hoje está reformado e ganha cerca de 120 Euros. Quer dizer, isso não motiva ninguém a continuar a investir nessa profissão de professor. Então nós vamos começar por aí. Vamos ter obviamente que fazer alguns ajustes, aumentos salariais, principalmente para a classe docente e para a Saúde. Nós não temos médicos especialistas por falta de motivação em termos de salário. Nós também temos um grande projecto, que é a questão de instituir a língua inglesa, francesa e mandarim a partir da primeira classe do primeiro ciclo. Hoje, é a partir do nono ano. Mas queremos logo, ao sair da primária, introduzirmos já essas três línguas para que os nossos alunos amanhã sejam bem preparados e poderem competir com qualquer um. Porque hoje, sem conhecer línguas é muito difícil conseguir um emprego razoável e que tenha um bom salário. Então, temos que começar a investir também em línguas no nosso país. E também começar a incentivar os estudantes, aqueles que são mais pobres, que depois de concluir o ensino médio, tenham dificuldades de ir ao ensino superior porque as propinas são muito caras. Então nós decidimos que o governo vai ter que subsidiar isto. Ninguém pode deixar de estudar por ser pobre. Nós vamos mudar isso. Então o governo tem que cortar nalgum lugar e proporcionar ao nosso povo, ensino universitário gratuito, ensino público. Para o ensino privado, aí sim, temos que ver como é que vamos, obviamente, colaborar com a bolsa de estudo.
RFI: Américo Barros, por último, tem-se assistido nestes últimos anos a uma forte onda de emigração de jovens são-tomenses para fora, nomeadamente para Portugal. O que é que pretende fazer para conseguir fixar a população e dar-lhe perspectivas?
Américo Barros: Realmente, hoje São Tomé e Príncipe tem mais do que 45 mil habitantes em Portugal e não só, na Europa. E para nós é um motivo de nos preocupar. Isso porque grandes quadros técnicos profissionais foram embora. Vidreiros, carpinteiros, marceneiros. Já não temos. Quase todos foram embora. E também com formação superior. É isso que eu digo. Temos que trabalhar para motivarmos a juventude e, para motivar a juventude, ela tem que ter melhor qualidade de vida e para ter a melhor qualidade de vida, tem que ter um bom salário. Não se estuda nem faz um doutoramento para vir ganhar 500 Euros, por exemplo. Ninguém fica contente. Se tiver uma oportunidade fora do país, é claro que vai. Pedreiros, carpinteiros, canalizadores, em São Tomé a ganhar, por exemplo, 200 Euros, chegam em Portugal e ficam a ganhar 1200 ou 1500 Euros em função da sua colocação. Ele pretende ficar lá. Então, o que temos que fazer é criar condições internas. E mesmo na questão do crédito ao sector produtivo, atribuir créditos com taxa de juros bonificados, podendo chegar mesmo a 0% para ver se nós motivamos essa classe jovem, essa classe empresarial a continuar no país. Muitos empresários também vão se embora. Então temos é que apostar no sector privado e vamos continuar com a nossa política e esperamos reforçá-la a partir de 27 de Setembro.
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