Muito se tem falado sobre a saúde cardiovascular e a razão para tal é simples. Os dados mais recentes reafirmam o que há muito se sabe: que as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte a nível global.
É assim também na União Europeia (UE) onde, de acordo com os dados do Gabinete de Estatísticas da UE, o Eurostat, se perderam, em 2022, 1,68 milhões de mortes por doenças do aparelho circulatório, que é aquele que compreende o coração e os vasos sanguíneos, o que corresponde a mais de 30% de todos os óbitos, percentagem superior à do número de mortes por cancro. (1)
Em Portugal, o relatório “10 Anos das Doenças Cérebro e Cardiovasculares em Portugal (2013–2023)” (2), divulgado pela Direção-Geral da Saúde (DGS) e publicado já em 2026, confirma que, apesar da tendência geral de morte ao nível das doenças cérebro e cardiovasculares no País ser de uma diminuição progressiva e significativa ao longo da última década, esta continua a ser a principal causa de morte a nível nacional, com uma mortalidade elevada: 65,8 casos por 100.000 habitantes em 2023.
A estes dados juntam-se outros, relacionados com o fardo económico que estas doenças impõem à sociedade. Só na UE, em 2021, os custos com a saúde e a assistência social foram superiores a 155 mil milhões de euros, representando 11% da despesa total com a saúde.
Custos diretos aos quais se juntam os que são mais difíceis de quantificar, relacionados com o tempo de trabalho ou de lazer que os doentes deixam de ter, bem como aos custos com os cuidadores de familiares ou amigos com doenças cardiovasculares. Aqui, estima-se que andem na ordem dos 79 mil milhões de euros em toda a UE, com mais 61,6 mil milhões de euros relacionados com perdas de produtividade causadas pela redução da capacidade de trabalho, absentismo e reforma antecipada da população afetada por doenças cardiovasculares. (2)
Dados que justificam porque é que se tem de continuar a falar e a pensar sobre saúde cardiovascular. Um tema que implica olhar para duas vertentes complementares: a prevenção e o tratamento. No caso da prevenção, esta começa nas escolhas do dia a dia, nas decisões do que escolhemos, de forma consciente, colocar no nosso prato; na opção de trocar o sofá pela prática regular de atividade física; de ter uma higiene de sono adequada, e de afastar os principais fatores de risco, ou seja, o tabaco e o sedentarismo, que são os pilares de um estilo de vida saudável.
É de esperar que as pessoas já os conheçam, assim como é também expectável que saibam da importância de manter um acompanhamento médico regular, com consultas anuais que permitam monitorizar o estado da saúde, mesmo na ausência de sintomas.
Mas tão essencial como todos estes hábitos de vida é a literacia em saúde: sem informação acessível e compreensível, as pessoas não têm ferramentas para tomar as melhores decisões. Informar é, por isso, também uma forma de prevenir. E, aqui, há um grande trabalho a fazer, a julgar pelos dados de um inquérito que realizámos com a Spirituc, junto de portugueses com doenças crónicas, que revela que quase metade dos inquiridos (46,4%) se considera “não literado” em saúde.
Depois, temos o outro lado da medalha. Sabemos que a prevenção atrasa o aparecimento da doença cardiovascular, mas é também um facto que não a pode evitar por completo, sobretudo numa sociedade que envelhece cada vez mais e em que a longevidade traz consigo novos desafios. É aqui que entra o tratamento.
As doenças cardiovasculares crónicas são, na maioria das vezes, assintomáticas, o que exige uma vigilância constante. Quando uma condição está identificada, os pilares do estilo de vida saudável mantêm-se essenciais, mas é necessário ir mais longe: conhecer essa mesma condição, fazer o tratamento adequado, cumprir o plano terapêutico, conforme recomendado pelo profissional de saúde (médico, enfermeiro e/ou farmacêutico) e manter com este uma relação próxima colocando questões, esclarecendo dúvidas e procurando sempre a informação mais credível.
A adesão, seja esta ao estilo de vida, à medicação ou ao seguimento médico, é, no fundo, o fio condutor entre a prevenção e o tratamento. É ela que faz a diferença e é por isso que temos de continuar a falar de saúde cardiovascular, uma conversa que os dados mostram que mais do que pertinente, é urgente. Porque não se trata apenas de uma questão médica, mas de uma questão de escolhas, de informação, de acesso e de responsabilidade partilhada. As doenças cardiovasculares continuam a ser um dos maiores desafios de saúde pública, o que exige respostas consistentes e sustentadas. Perante este cenário, a prevenção e a informação clara ganham especial relevância. O essencial é garantir que o conhecimento científico se transforma em ações concretas que ajudem a reduzir o impacto destas doenças e a melhorar a vida das pessoas.
Ana Leal, Senior Medical Advisor na Servier Portugal
- Cardiovascular diseases statistics – Statistics Explained – Eurostat
- Relatório “10 Anos das Doenças Cérebro e Cardiovasculares em Portugal (2013–2023)” – Direção-Geral da Saúde (DGS), 2026
- European Society of Cardiology: the 2023 Atlas of Cardiovascular Disease Statistics | European Heart Journal | Oxford Academic
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