Bloomberg Línea — Os primeiros meses de 2026 trouxeram uma surpresa para Karl Kieliger, general manager da Victorinox para a América Latina. Após quase duas décadas acompanhando o mercado brasileiro de relógios de alta gama, ele esperaria uma desaceleração das vendas, por se tratar de um ano eleitoral, mas os contextos político e global parecem não ter afetado o mercado local desta vez.
“O Brasil sempre registrou uma queda nas vendas antes e depois de períodos eleitorais, mas neste ano o crescimento se mantém muito estável. O Brasil sempre foi muito sensível às eleições, e esse ano está tudo calmo”, disse em entrevista à Bloomberg Línea durante visita a uma das sedes da marca em Delémont, na Suíça.
“Mesmo com mudança de contexto global, mesmo com guerra, mesmo com eleições, mesmo com o caos global, continuamos crescendo.”
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Esta estabilidade atípica é um dado relevante para uma empresa que nos últimos cinco anos dobrou o volume de relógios vendidos no Brasil e vê o país como um de seus mercados mais importantes globalmente.
O país se consolida como um espaço relevante não apenas pelo tamanho das margens, mas pelo volume e pela contribuição à escala de produção da fábrica na Suíça.
O Brasil ocupa uma posição singular na estrutura comercial da Victorinox na América Latina. A marca tem mais de 230 pontos de venda no país, distribuídos por joalherias em cidades de diferentes portes, de São Paulo e Rio de Janeiro a Joinville. Nenhum deles é uma loja própria da marca, como acontece em outros mercados.
A escolha é deliberada e, segundo Kieliger, mais eficiente do que o modelo adotado em outros mercados da região. “Em vez de ter uma loja em São Paulo em um shopping de luxo, estamos no Brasil todo em centenas de lojas”, disse.
No México, por comparação, a presença se concentra em dois grandes magazines, sem a capilaridade de lojistas independentes que caracteriza o mercado brasileiro.
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“Cada cidade tem uma rede de lojas, uma família, um proprietário que fez um bom trabalho, colocou uma joalheria, faz anos, é uma referência, estamos dentro com eles”, explicou Kieliger.
Além disso, a marca também tem espaço em redes com presença nacional, como a Vivara, e a Monte Carlo.
A lógica por trás da escolha passa também pela natureza do produto. “Um relógio é uma das poucas joias que o homem usa”, disse Kieliger. Estar nas joalherias, onde o público já está disposto a gastar com adornos, coloca o relógio no contexto certo de compra.
Há ainda um efeito colateral favorável: a alta recente nos preços do ouro e da prata levou parte dos consumidores a migrar para relógios produzidos com outros produtos, como o aço, como alternativa de acessório de valor mais acessível.
“Como ouro e prata aumentaram muito nos últimos meses, o cliente acaba comprando mais relógio com outros produtos, isso também ajudou a gente”, disse.
O Brasil é um dos maiores mercado da Victorinox nas Américas. A empresa não divulga faturamento por país, mas Kieliger confirmou que a receita global da marca alcança 400 milhões de francos suíços anuais (cerca de US$ 500 milhões).
A participação brasileira, embora ainda pequena em termos relativos, é estratégica porque o volume de peças compradas pelo país contribui diretamente para a viabilidade econômica da fábrica suíça.
“O Brasil até agora não foi um mercado de margens muito altas, mas o país contribui muito para nossa fábrica pela quantidade de relógios que compra”, disse.
Essa equação é em parte resultado da estrutura tributária brasileira. Os relógios importados estão sujeitos a imposto de importação, uma combinação que, segundo Kieliger, eleva o preço ao ponto de aproximar a marca do segmento de luxo no Brasil, mesmo que globalmente ela se posicione abaixo disso, na categoria de relógios finos suíços.
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“O mercado de luxo começa com relógios de cerca de R$ 20.000, e por mais que nossos produtos estejam posicionados abaixo disso globalmente, no Brasil os impostos fazem com que fiquemos na entrada do luxo”, disse.
Segundo ele, o acordo de livre comércio entre o Mercosul e o bloco europeu EFTA (grupo do qual a Suíça faz parte), acertado no ano passado, poderia mudar essa equação.
As negociações avançaram nos últimos meses e, se concluídas, eliminariam o imposto de importação. “O tratado pode permitir que tenhamos preços melhores, por mais que muitos tributos continuem valendo”, disse Kieliger.

Estilo local
A Victorinox trabalha com nove linhas de relógios, que combinam modelos esportivos e clássicos. Segundo Kieliger, esse mix tem funcionado especialmente bem no Brasil, algo que ele atribui, em parte, ao perfil do consumidor local.
“O brasileiro gosta de ser bem vestido, de moda, e isso ajuda esse tipo de lifestyle“, disse. A observação vai além do clichê: para a marca, significa que há demanda consistente por produtos que combinem funcionalidade e apelo estético, sem exigir o nível de exclusividade do luxo tradicional.
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Há ainda uma adequação técnica relevante para o mercado brasileiro que passa despercebida na vitrine. Os relógios da Victorinox são submetidos em homologação a ciclos de 48 horas em condições de umidade e calor. O protocolo foi desenvolvido especificamente para garantir funcionamento em climas tropicais.
Para uma marca que vê o Brasil como mercado prioritário de crescimento, o argumento da resistência ao clima é parte do produto que chega às joalherias.

Além do Brasil, a empresa está atenta a pedidos importantes de outros países da região. Para A Copa do Mundo deste ano, desenvolveu um relógio especial para o mercado argentino.
A demanda por modelos femininos é outro sinal que vem da América Latina. “Por mais que os homens acabem sendo um mercado central de relógios, as mulheres têm pedido muito no Brasil e na América Latina, e pretendemos trabalhar nisso”, disse.
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