A morte e a saúde

O ser saudável, ter saúde física e mental é, nas sociedades europeias – e na portuguesa crescentemente – uma dimensão inalienável dos direitos de cidadania e certamente associado ao conceito de felicidade…

Um país, uma nação poder beneficiar de serviços públicos de saúde capazes, de universalidade, proximidade relativa e de acessibilidade e gratuitidade asseguradas, é, no entanto, para além de uma benesse de valia inquestionável, um problema quando se discute o seu financiamento e como satisfazer as crescentes expectativas e despesas inerentes ao seu funcionamento.,

Convém, porém, descermos à terra e perceber que, por tudo quanto sabemos e tomando o tema do coronavírus por exemplo, as doenças contagiosas estão longe de estar dominadas e resolvidas.

O que recorda e sublinha a primeira das minhas notas – creio que em contexto e cenário de saúde pública, a responsabilidade do Estado na Saúde justifica que os interesses pessoais e as opções individuais devam ser sacrificados ao benefício superior de uma população inteira!

Trouxe esta discussão porque, na verdade, julgo que a morte, acaba por ser uma forma de expressão das desigualdades e das necessidades sociais.

Acho mesmo que, indo um pouco mais além, o modo como as pessoas morrem e onde morrem reflecte a sua posição na estrutura social e enquadra um sistema mais global.

Pensemos nas sociedades ocidentais modernas e vejamos como o morrer se tornou institucionalizado e hospitalar, normalizando os abandonos e a solidão, retardando as vagas e adiando as altas. A morte foi como que escondida, ocultada, silenciada.

De algum jeito, a morte parece agora uma questão individual e de estilo de vida…

Mas olho para o Mundo e para a África, onde sobram mortes mas tudo o restante escasseia – um clima “estabilizado”, comida, água potável, instrução, habitação, saúde, emprego e paz – e percebem-se notícias e dados que alimentam a esperança de mudança para esses povos.

Aos negacionistas das vacinas, convivendo bem com as suas teses de barriga cheia e livres dos assaltos de milícias armadas e outras do mesmo género, convém anunciar que, 20 milhões de mortes por sarampo foram evitadas em África desde o ano 2000, em função do investimento no reforço da vacinação no continente.

São dados oficiais que resultam da análise e estudo conduzido pela Organização Mundial da Saúde e que sublinha igualmente a protecção de mais de 500 milhões de crianças entre 2000 e 2024.

Enquanto pela Europa se assiste ao recrudescimento de velhos inimigos, estes números associados à expansão da cobertura vacinal e à introdução de uma segunda dose da vacina contra o sarampo em 44 países africanos são uma chamada de atenção para o perigo de queda dessas coberturas e eficiência.

E esta é uma segunda chamada de atenção, o sucesso da taxa de cobertura em África passou de menos de 5% em 2000 para 55% em 2024, o que conduziu a uma diminuição para metade das mortes por sarampo e à queda em 40% do número total de casos.

As boas notícias são ainda maiores quando, em 2025, países como Cabo Verde, Seicheles e Maurícia se tornaram os primeiros da África subsaariana a eliminar o sarampo e a rubéola!

Naturalmente, os impactos da vacinação estendem-se a outras doenças evitáveis e os programas em curso saltaram de 8 em 2000 para 13 em 2024.

A nota final tem a ver com a imagem e o que cremos conhecer dos sistemas de saúde africanos e outros.

De facto, sistemas de saúde frágeis e pobres, contra crises humanitárias de dimensões e barbárie sem limites, e os efeitos brutais das alterações climáticas, conseguem milagres e resultados.

Também por isso, Portugal precisa de compromisso político alargado para consolidar e preservar os ganhos alcançados, assegurar as suas obrigações para com os cidadãos e proteger as gerações futuras.

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