Trabalhar para o mundo a partir de Cabo Verde: o desafio de exportar talento sem exportar pessoas

​Cabo Verde pode transformar o trabalho remoto numa oportunidade de exportação de serviços, permitindo a profissionais qualificados trabalhar para empresas internacionais sem terem de emigrar.

Ao longo da história, muitos cabo-verdianos emigraram em busca de oportunidades fora do país, tornando a diáspora uma extensão económica e social de Cabo Verde, sobretudo pelas ligações mantidas com o país e pelas remessas enviadas às famílias.

Actualmente, a emigração de jovens tem suscitado preocupação entre a sociedade civil e os decisores políticos. Neste contexto, a expansão da economia digital e do trabalho remoto surge como uma oportunidade para criar formas de retenção e aproveitamento do capital humano nacional, contribuindo directamente para a economia.

Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que, no primeiro semestre de 2025, 32.177 jovens entre os 15 e os 35 anos estavam sem emprego nem formação, enquanto 17.961 cabo-verdianos emigraram, maioritariamente jovens, dos quais mais de 12.500 tinham formação secundária, média ou superior.

Apesar dos desafios, Cabo Verde apresenta condições para desenvolver serviços destinados ao mercado internacional.

Segundo um estudo da Remitly, empresa de serviços financeiros digitais, Cabo Verde é o terceiro país do mundo com maior proporção de postos de trabalho remotos, com 94,7% das ofertas analisadas no LinkedIn classificadas como trabalho à distância.

Este potencial tem sido explorado por empresas e empreendedores cabo-verdianos. É o caso de Belma Medeiros, fundadora e CEO da BellTrust Insurance e da BellTrust International, que defende que o país pode exportar conhecimento e serviços sem perder os seus profissionais.

“Cabo Verde não precisa exportar os seus talentos para fora. Neste setor, pode exportar excelência do seu trabalho para o mundo”, afirmou.

A BellTrust International, empresa que opera em Cabo Verde há dois anos, foi criada para ligar profissionais cabo-verdianos ao mercado internacional, prestando serviços remotamente a várias seguradoras mundiais nas áreas de atendimento ao cliente, tecnologia, marketing, administração e gestão.

Segundo Belma Medeiros, a empresa já criou mais de 25 postos de trabalho em Cabo Verde e prevê acrescentar mais 10.

A história de Yuri Ferreira representa uma ligação entre emigração, experiência internacional e regresso de quadros qualificados a Cabo Verde.

Natural da ilha do Fogo, Yuri Ferreira emigrou por volta dos 18 anos, com a expectativa de um dia regressar, à semelhança de muitos cabo-verdianos.

“Cabo Verde é constituído por mares e, quando olhamos para o horizonte, questionamo-nos sobre o que existe para além dessa linha. Há quem atravesse por curiosidade e quem seja obrigado a fazê-lo, mas o país mantém uma paz de espírito que muitos lugares do mundo não têm”, observou.

Depois de vários anos nos Estados Unidos, onde acumulou experiência profissional, sobretudo no sector bancário, regressou a Cabo Verde a convite de Belma Medeiros para integrar o projecto da BellTrust International.

“Quando a Belma me apresentou o projecto e a sua ambição, eu não hesitei em partir (…)”, disse.

Actualmente, a partir da unidade da BellTrust International na ilha do Sal, Yuri Ferreira acompanha operações destinadas a seguradoras internacionais.

Director do centro de serviços da empresa na ilha do Sal, considera a experiência “gratificante”, por se sentir “valorizado” e poder contribuir para a comunidade cabo-verdiana.

O economista Paulino Dias considera que o trabalho remoto representa um nicho que Cabo Verde deve explorar, podendo gerar impacto através do consumo interno, das receitas fiscais e do fortalecimento do sistema financeiro nacional.

O especialista alerta, contudo, que o país enfrenta forte concorrência internacional, sobretudo de mercados como a Índia e outros países asiáticos, que dispõem de maior escala e experiência na prestação de serviços remotos.

Para aproveitar esta oportunidade, aponta a necessidade de investimentos em infraestruturas de comunicação, internet de qualidade, formação profissional, domínio de línguas, serviços financeiros eficientes e condições fiscais competitivas.

Dados do Banco de Cabo Verde (BCV) mostram que as exportações de serviços aumentaram de 28.960,26 milhões de escudos em 2020 para 91.863,80 milhões em 2025.

O BCV esclarece, contudo, que os dados disponíveis ainda não permitem distinguir os serviços remotos das restantes exportações de serviços.

Por seu lado, o director-geral das Telecomunicações e Economia Digital, Milton Cabral, disse à Inforpress que Cabo Verde reúne condições para se afirmar como destino competitivo para a Terceirização de Processos de Negócios (BPO, na sigla inglesa), trabalho remoto e serviços digitais, aproveitando a sua localização estratégica entre África, Europa e as Américas.

Milton Cabral defende que o país deve transformar a infraestrutura digital existente em capacidade económica, apostando na criação de emprego qualificado e na internacionalização das empresas cabo-verdianas.

Para os próximos tempos, indicou, as prioridades passam por “conectar, capacitar e exportar”: reforçar a conectividade, formar profissionais em áreas procuradas internacionalmente e criar condições para que empresas cabo-verdianas possam competir no mercado global.

O reforço do trabalho remoto abre, assim, a possibilidade de Cabo Verde exportar talento sem exportar pessoas, constituindo uma alternativa à emigração em massa, favorecendo o regresso de profissionais qualificados e contribuindo para o crescimento económico do país.

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