Senhora de Guadalupe: Cónego Marcos Gonçalves apelou à vivência de uma fé que leva Cristo ao coração dos outros
A paróquia do Porto da Cruz celebrou esta sexta-feira, dia 14 de agosto, a Missa vespertina da Festa de Nossa Senhora de Guadalupe, num ambiente marcado pela forte participação dos fiéis. A Eucaristia foi presidida pelo Vigário-Geral da Diocese do Funchal, Cónego Marcos Gonçalves, em representação do bispo do Funchal, D. Nuno Brás, que se encontra em visita pastoral às comunidades portuguesas e madeirenses na Venezuela.
A celebração reuniu muitos paroquianos e peregrinos, entre os quais vários emigrantes que regressam à terra nesta altura do ano e que fazem questão de participar nas festas das suas comunidades de origem.
No início da celebração, o Cónego Marcos Gonçalves saudou os festeiros deste ano, António Cabral e Virgínia Cabral, destacando o regresso desta tradição depois de vários anos sem festeiros.
“É pela primeira vez, depois de vários anos sem festeiros, que agora o Senhor António Cabral e a Sra. Virgínia Cabral são os festeiros desta festa”, afirmou, desejando que Nossa Senhora de Guadalupe os acompanhe e abençoe, bem como toda a sua família.
O sacerdote deixou ainda uma saudação especial aos familiares que se encontram na Venezuela e na Madeira, pedindo a proteção de Nossa Senhora para todos.
Na homilia, o Vigário-Geral começou por destacar a beleza da celebração e a forte participação da comunidade. “Como é bom estarmos aqui nesta paróquia, no Porto da Cruz, para celebrar a sua padroeira, Nossa Senhora de Guadalupe”, afirmou, sublinhando que a igreja se encontrava “cheia de flores e cheia de tantos irmãos, tantos corações, que aqui estão para celebrar Nossa Senhora”.
Ao recordar a origem da devoção a Nossa Senhora de Guadalupe, o Cónego Marcos Gonçalves explicou que o título venerado no Porto da Cruz está ligado à tradição de Guadalupe, em Espanha, e não à devoção mexicana com o mesmo nome.
A partir da imagem de Nossa Senhora, que traz Jesus Menino ao colo, deixou uma das principais mensagens da sua reflexão: Maria conduz sempre os cristãos ao encontro de Cristo.
“É o maior tesouro que Nossa Senhora tem para nos entregar a nós”, afirmou, referindo-se a Jesus. Para o sacerdote, Maria “sabe quem é o tesouro da sua vida e onde pôs todo o seu coração. É em Deus”.
Por isso, acrescentou, “toda a devoção verdadeira a Nossa Senhora faz-nos encontrar Deus na nossa vida”. A Mãe, explicou, “leva-nos até ao Seu Filho, Jesus”.
O Cónego Marcos Gonçalves alertou, neste contexto, para o risco de reduzir a devoção mariana às festas exteriores. “Não há arraiais na nossa terra, nem festas com música e tantas coisas, e depois falta a verdadeira devoção a Nossa Senhora”, afirmou, defendendo uma devoção que transforme verdadeiramente a vida.
Para o Vigário-Geral, olhar para Maria significa deixar-se “encher de paz e do amor de Deus” e levar essa esperança “para as nossas casas, para as nossas vidas”.
A reflexão centrou-se também na solenidade da Assunção de Nossa Senhora, celebrada neste período festivo, apresentada como uma “festa de esperança” para todos os cristãos.
“A Assunção de Nossa Senhora ao Céu é celebrar uma festa de esperança para todos nós, mortais”, afirmou. O sacerdote explicou que Maria foi assumida por Deus “inteira, corpo e alma”, porque “Ela é toda de Deus”.
A Assunção, acrescentou, recorda aos cristãos que a morte não é a última palavra. “Deus não nos criou para ficarmos no pó da terra. Deus não nos criou para ficarmos no nada. Deus criou-nos para Ele”, afirmou.
A esperança cristã, porém, não significa afastamento das responsabilidades concretas da vida. “Nós vamos para o Céu, mas queremos estar com os pés bem assentes na terra”, sublinhou o Cónego Marcos Gonçalves, defendendo que os cristãos devem assumir a sua missão na família, no trabalho, nas escolas e na sociedade.
“Aí onde estão os cristãos, aí deve estar a presença de Deus”, afirmou. E acrescentou: “Quem levará Deus ao coração desta humanidade és tu. Tu, cristão, deves levar Deus ao coração de todos”.
A partir do Evangelho da Visitação, o sacerdote apresentou Maria como modelo de uma fé que não fica fechada em si própria. Depois de receber o anúncio do anjo e de dizer “sim” à vontade de Deus, Maria parte ao encontro de Isabel.
“Nós também, quando dizemos sim à vontade de Deus, de certa maneira, nós também ‘engravidamos de Deus’, somos capazes de dar Deus ao mundo”, explicou, apontando para uma vida cristã traduzida em gestos concretos, conversão e transformação.
Maria, afirmou, “não guardou Jesus só para si”. Pelo contrário, “foi apressadamente visitar Santa Isabel”, levando-lhe Cristo e colocando-se ao serviço da sua prima.
“Maria é missionária e é também mulher de caridade”, destacou o Cónego Marcos Gonçalves, defendendo que também os cristãos devem sair de si próprios e levar Cristo aos outros, começando pela própria família.
A verdadeira devoção a Nossa Senhora passa, assim, pela conversão do coração e pela transformação das atitudes. “Não há verdadeira devoção a Nossa Senhora sem a conversão do nosso coração, sem a transformação das nossas atitudes em gestos de perdão, de aproximação, de paz, de reconciliação, de justiça”, afirmou.
O Vigário-Geral sublinhou ainda a importância da oração e da participação na Eucaristia dominical, nomeadamente no seio das famílias, para que a fé seja vivida e transmitida entre gerações.
Na sua reflexão, destacou igualmente que o Cristianismo não se resume ao cumprimento de regras ou à participação nas festas religiosas. “O Cristianismo não é só comportar-se bem, o Cristianismo não é só rezar, o Cristianismo não é só fazer arraiais e festas, o Cristianismo não é só mandamentos”, afirmou.
Para o sacerdote, o centro da fé cristã está na certeza de que Deus se aproxima do ser humano porque o ama. “A fé cristã diz algo de mais bonito: Ele existe e Ele ama-me. E isso é que é Cristianismo, é sentirmo-nos amados por Deus”, afirmou.
No final, o Cónego Marcos Gonçalves valorizou a própria comunidade paroquial e todos aqueles que, de diferentes formas, contribuem para a vida da paróquia.
“Celebrar a padroeira de uma paróquia é celebrar a paróquia”, afirmou, referindo o trabalho do coro, dos acólitos, do pároco, das confrarias, dos sacristãos e de todos os que colaboram na preparação das celebrações e no cuidado da igreja.
“Uma paróquia viva, que mostra a Deus também através dos serviços”, acrescentou, considerando que a vida paroquial deve ser “fecunda, alegre, de encontro de irmãos e de fraternidade”.
Antes de terminar, deixou uma mensagem dirigida a toda a comunidade do Porto da Cruz: “Boa festa da Senhora de Guadalupe para todos vós. Haja alegria e esperança em todos os corações”.
E reforçou a ideia central da sua homilia: “Não somos cristãos só para nós e para a nossa salvação, mas salvamo-nos na medida em que também levamos Cristo ao coração dos outros”.














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