‘Revolução da América do Sul’ faz engraçadíssima retomada do épico de um Silva

Ainda que viver sob a fantasmagoria sociológica chamada de Terceiro Mundo, sobretudo no Brasil, seja uma cacetada no quengo por minuto, a atualização de “Revolução da América do Sul” (texto de 1960) para os palcos de 2026, pré-eleição, é uma comédia  daquelas capazes de desopilar a mais assombrada das almas. Ri-se de nervoso, sim, pois há uma catarse em forma de charge, ou seja, de batalha com questões urgentes do agora. Mas a gente ri mesmo é com a destreza técnica de seu elenco.  

Saiba mais sobre a peça!

Augusto Boal (1931-2009), pai dessa dramaturgia de alerta, dizia: “O teatro é isso: a arte de nos vermos a nós mesmos, a arte de nos vermos vendo!”. Sua trupe – Cássio Duque, Junior Melo, Letícia Ambrósio, Levi Duarte, Nathalia Cantarino e Ritiele Reis – fez a lição direitinho e aplicou os aforismos e as dialéticas do Teatro do Oprimido em ação… com emoção. 

Divida a excelência da encenação, pilotada por Wellington Fagner, com a dionisíaca iluminação bolada por Ricardo Rocha, realçando os momentos mais vívidos sobre uma épica brasileira. As cenas em que um Justo Veríssimo dos dias atuais (vivido por um Cássio Duque em estado de graça) faz seu inventário da realidade brasileira, num falar mole, são o apogeu dessa revisão de um marco de luta de nossos palcos. 

Coube às atrizes e atores, em sinergia com Maria Azevedo e Wellington Junior adaptar rubricas e diálogos originais de Boal, mantendo viva sua tese de que “ser cidadão não é viver em sociedade, é transformá-la”. Os escritos que pavimentam “Revolução da América do Sul” foram para o papel em 1960, ganhando, na sequência, as ribaltas, sob direção de José Renato (1926-2011). O protagonismo da peça é dado à classe operária, com a figura do José da Silva em realce. 

Qual cantou Bob Rum, “era só mais um Silva, que a estrela não brilha”. Mas, em sua gênese de ranços coloniais e opressão, o Brasil é da Silva. É o que Boal sacou ao contextualizar que, do campo à metrópole, o problema maior deste continente é a fome. 

Embalado na direção musical sempre sinuosa (e jamais fora do tom) de Vinícius Mousinho, à base de letras e canções de Francisco de Assis, o Exército de Brancaleone de Wellington Fagner usa desde uma mariola magra e caroçuda até farelo para representar as barrigas que roncam nesta nação. A do Zé da Silva ronca alto. Para aplacar sua apneia social, ele corre atrás. Busca aumento, busca lugar de escuta entre os políticos, busca um lugar onde definhar sem virar (mais) um indigente.  

Além disso, a cenografia marota de Sofia Magalhães, em cores vivas (no tom certo), carnavaliza essa briga de classes, sem desatinar a linha marxista em seu pavimento. O humor atualiza a indignação de um Bola que nasceu para ser pra sempre, numa montagem que merece ser lembrada e festejada por sua plenitude em reformular o Outrora e alarmar o Presente. 

Crédito: Link de origem

- Advertisement -

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.