Mais de 1,5 mil mulheres morreram tentando chegar aos EUA em 12 anos, aponta estudo

Um estudo realizado pela ONG Projeto Migrantes Desaparecidos junto à Organização Internacional para as Migrações (OIM), que faz parte do sistema da Organização das Nações Unidas (ONU) desde 2016, apontou que, nos últimos doze anos, um total de 1.586 mulheres imigrantes perderam a vida em rotas migratórias em direção aos Estados Unidos.

De acordo com as estatísticas levantadas pelo estudo, a maioria das vítimas fatais saiu da Venezuela em direção ao país atualmente governado por Donald Trump. Os outros dois principais pontos de origem são Colômbia e Equador.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

O Projeto Monitor de Imigrantes registra as mortes em rotas com base em informações da guarda costeira, de médicos legistas, ONGs, pesquisas e entrevistas com imigrantes, além de reportagens da imprensa.

A plataforma afirma que os dados não envolvem imigrantes deportados ou alvos de trabalho análogo à escravidão, mas faz uma ressalva sobre o risco de subnotificação, pois, a depender do local do óbito, os corpos sequer são encontrados e muitos imigrantes sobreviventes temem relatar o que ocorreu.


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Como os Estados Unidos são o principal destino desses fluxos migratórios, as rotas mais mortais são o chamado “Tampão de Darién”, densa região florestal no interior do Panamá onde não há estradas (nem asfaltadas, nem de terra), que corta a conexão terrestre entre a América do Sul e do Norte.

Além do frio e calor extremos, essas rotas têm áreas de altitude e rios de correnteza intensa, mas o perigo não se limita às questões climáticas. Muitas das rotas migratórias se situam em locais onde se impõe um vazio jurídico, razão pela qual boa parte delas está dominada por grupos armados, que praticam extorsão, estupros, sequestros e assassinatos.

Muitos desses crimes praticados contra as mulheres imigrantes, especialmente na América Latina, estão registrados no estudo por meio de relatos aos quais Opera Mundi teve acesso. O artigo O que torna os migrantes vulneráveis à violência de gênero, publicado pela OIM, cita, além da questão de gênero, “a situação regular ou irregular da rota” como fatores que influenciam os riscos e vulnerabilidades de uma pessoa na trajetória migratória.

As mulheres correspondem a 58,9% dos imigrantes dos países caribenhos e 50,3% dos países da América Central. Citando o Relatório sobre Tráfico de Pessoas 2019, o artigo aponta que mulheres da Guiana, da Jamaica e da República Dominicana são alvos preferenciais de traficantes do Caribe.

Outro ponto destacado do relatório mostra como a vulnerabilidade financeira é usada como arma pelos agressores para coagir e enganar as suas vítimas. Um dos casos retratados é o de Juanita (nome fictício para proteger a identidade da fonte), que testemunha como, em pouco tempo de rota, muitas mulheres ficam sem recursos e podem se tornar alvos fáceis de “supostos guias”.

Quando entregou seu relato, Juanita tinha 38 anos. Ela era funcionária pública em Santiago de los Caballeros de Mérida, capital da província de Mérida, a cerca de 630 quilômetros de Caracas. Ela contou que decidiu sair da Venezuela rumo ao Peru, em 2021, retornou ao país no ano seguinte e migrou de vez para os Estados Unidos em setembro de 2022, pois ela e o marido não conseguiram recuperar os cargos públicos em Santiago de los Caballeros.

Ela iniciou sua rota junto com o marido e a filha de sete anos, viajando primeiramente ao Equador, onde se instalou em Guayaquil até a região ser declarada zona vermelha por narcotraficantes. Então, eles venderam tudo o que tinham para partir rumo aos Estados Unidos. A família levou quatro dias para cruzar a floresta no Tampão de Darién.

Segundo Juanita, os acampamentos são precários: “não têm instalações sanitárias para acomodar tantas pessoas, muito menos crianças e mulheres, porque há mulheres idosas, com deficiência e crianças com necessidades especiais”. Ela também contou que qualquer serviço custa muito caro nos acampamentos. “Papel higiênico, carregar celular, refeições nos restaurantes são muito caros”.

Ao longo da travessia, ainda de acordo com o relato de Juanita, a melhor opção foi consumir alimentos industrializados trazidos na viagem, como macarrão instantâneo, biscoitos, pão, açúcar mascavo, mel e água. Há trechos muito frios, com matas fechadas “onde a luz do sol não chega”, além de caminhadas “rio acima, contra a correnteza”.

Em um trecho de declividade, com bastante lama, onde era necessário percorrer sentada, ela afirma que lesionou o joelho, o que tornou o trajeto ainda mais difícil. “O único remédio disponível era paracetamol”, disse.

A água consumida ao longo da travessia vem dos rios encontrados pelo caminho e é tratada com pastilhas de cloro. A filha de Juanita contraiu uma infecção estomacal ao consumir a água e seguiu o trajeto com dores, febre e indisposição. Segundo a venezuelana, a família encontrou cadáveres que foram ficando para trás em um rio de forte correnteza e cercado por crocodilos. “As canoas iam com 30 pessoas, prestes a afundar”.

Nas fronteiras seguintes até os Estados Unidos, houve episódios em que o grupo teve a sorte de encontrar ajuda humanitária de organizações como a Cruz Vermelha. Nesses casos, ela e sua família receberam medicação, alimento e acomodações dignas. Foi quando conseguiu tratar o joelho e a infecção que a filha contraiu.

Ao longo do caminho, gastaram todo o dinheiro que tinham e venderam todos os pertences. Tiveram que trabalhar ou atuar como pedintes em postos de combustível para recuperar os recursos e seguir a rota. Um dos trechos em que ela conta ter visto a morte muito próxima foi em Puebla, no México, quando foram entregues ao serviço de imigração do país por um grupo de narcotraficantes. “Ficamos presos, fomos agredidos física e verbalmente, e nem as crianças escaparam dos maus-tratos. Só nos deram pão e água para comer”.

Quando, finalmente, chegaram a Matamoros, a 322 km de Ciudad Victoria, no estado mexicano de Tamaulipas, que faz fronteira com Brownsville, no Texas, Juanita, seu marido e sua filha sequer puderam respirar aliviados. Ela conta que travou uma batalha por trabalho, renda e a busca pela documentação para se fixar no país. “Nenhum de nós está legalmente aqui, não temos autorização de trabalho, segurança social e, até agora, não conseguimos obter nenhum benefício”, desabafou.

policial do ICE nos EUA

Prisões de imigrantes bateram novo recorde em agosto
U.S. Immigration and Customs Enforcement

Vazio das políticas internacionais

Entre 2014 e 2026, de um modo geral, o monitor de imigrantes desaparecidos registrou 85 mil mortos. Os afogamentos são a principal causa das mortes, 48.468, no total. Em toda a série histórica, 2024 se destaca com 9.202 mortos.

A especialista em Relações Internacionais e doutora em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP), Amanda Harumy, destaca que os órgãos ligados à Organização das Nações Unidas, responsáveis pelos imigrantes em rota, “têm sido desidratados, não têm mais grandes capacidades financeiras”.

Com isso, prossegue a analista, “há um vazio de jurisdição dos territórios, criando um ambiente fértil para organizações criminosas, principalmente de tráfico humano e de órgãos”.

Além da OIM, o outro órgão da ONU responsável por questões relacionadas aos imigrantes e refugiados é o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). Na visão de Harumy, o direito internacional está “muito frágil” e isso impacta a agência. “Existe uma nova dinâmica no cenário internacional que é uma anarquia internacional. Quem responde por isso? Seria a ONU, que está cada vez mais frágil”, disse.

Em nota, o ACNUR reconhece que os “cortes no financiamento humanitário internacional, incluindo reduções de contribuições de alguns dos principais doadores, tiveram impactos concretos sobre a capacidade de resposta humanitária”. Para o órgão, o ano de 2025 combinou “aumento das necessidades e redução dos recursos disponíveis”. Com isso, diz ter sido necessário “reduzir a escala de suas operações e priorizar atividades essenciais de proteção, soluções e resposta emergencial”.

No continente americano, diz ainda a nota, “apenas cerca de 20% das necessidades financeiras do ACNUR haviam sido cobertas naquele ano, com impactos sobre programas de proteção, regularização e integração. A última vez que o ACNUR trabalhou com um orçamento anual menor de US$ 4 bilhões foi há 10 anos, quando o número de pessoas forçadas a se deslocar era a metade do que se tem atualmente (em torno de 120 milhões)”.

“Reconhecemos os graves riscos enfrentados por pessoas em movimento em determinadas rotas das Américas, entretanto, a responsabilidade primária pela segurança e proteção das pessoas em território nacional cabe aos próprios Estados, que sem dúvida podem contar com o apoio do ACNUR”, afirmou o órgão.

De acordo com Harumy, a imigração venezuelana foi “muito utilizada para justificar as sanções dos Estados Unidos”, que alegavam existir uma situação de “violação” dos direitos humanos. Todavia, após o sequestro de Nicolás Maduro, a estrutura política permaneceu com Delcy Rodrigues, sinalizando que o interesse do país era ter “um acesso direto às riquezas naturais da Venezuela, que é o maior posto de petróleo do mundo”.

A agenda de Trump para a América Latina

A ascensão dos governos de direita na América Latina também marca a expansão da influência dos Estados Unidos na região. Essa presença mais forte não deve fazer avançar a agenda dos direitos humanos, segundo Harumy.

“Não existe uma vontade dos Estados Unidos de realmente cooperarem na defesa dos direitos humanos na América Latina e em nenhuma parte do mundo”, afirmou a especialista, enquanto reforça que esse direito seja defendido: “é um acúmulo da humanidade perante acontecimentos históricos que já nos colocaram em condição de genocídio”.

O cenário atual em que o número de imigrantes aumenta significativamente é de instabilidade no multilateralismo. O congelamento de repasses à Organização Mundial do Comércio (OMC) por parte dos Estados Unidos, juntamente com a possível desestabilização comercial provocada por tarifas unilaterais, são exemplos da falta “de zelo pelo direito internacional, pelo multilateralismo”, pondera a analista internacional.

Harumy aponta que os Estados Unidos estão em queda de poder e influência e outros países têm apostado cada vez mais no multilateralismo, a exemplo da China ao nomear diretores e construir setores em diversos países e financiar escritórios importantes da ONU. Hoje, o gigante asiático é o segundo maior doador da ONU e vem ampliando a sua influência interna no órgão.

A defesa do multilateralismo e da ONU, no entanto, não deve ser feita com ingenuidade, observa a especialista: “uma simples convenção ou tratado não vai resolver defender a soberania em um contexto de geopolítica em disputa”.

As eleições brasileiras e o multilateralismo

Ao longo do governo de Jair Bolsonaro (2019–2022), o Brasil se afastou “sistematicamente” de organismos multilaterais e contribuiu para o enfraquecimento de fóruns de cooperação regional. De volta ao Palácio do Planalto, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva retornou ao Pacto Global para a Migração Segura, da ONU, e, segundo os pesquisadores, reaproxima-se do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e América do Sul.

As eleições brasileiras, para as quais os olhos do mundo estão direcionados, podem dar uma boa contribuição para impulsionar ou não o multilateralismo. Segundo Harumy, o Brasil é uma referência global no discurso de defesa do multilateralismo. “Se Lula for reeleito, deve adentrar mais essas instituições, com financiamento, lideranças políticas e uma colaboração técnica sobre esses debates”.

A reportagem de Opera Mundi entrou em contato com os Departamentos de Estado e do Tesouro dos Estados Unidos. Até a publicação, não recebemos retorno.





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