Como está a situação dos direitos humanos na Venezuela após a queda de Maduro?
Governo interino de Delcy Rodríguez aprovou uma lei de anistia a presos políticos, mas aparato de repressão segue vigente. Crédito: Imagens de apoio: AFP
A água potável em Cumaná está escassa. Apagões diários assolam a cidade e o vento assobia entre os restos saqueados de uma universidade que já foi famosa enquanto catadores vasculham lixões em busca de restos de comida. Hoje, Cumaná, cidade no leste da Venezuela que já foi uma joia da coroa da base industrial do país, tem ares de zona de guerra devastada.
Esta cidade litorânea é um mundo completamente diferente de Caracas, a capital, que está prestes a vivenciar uma recuperação em grande parte isolada da decadência que assola boa parte da Venezuela.
Após as forças americanas deporem e capturarem o ex-líder Nicolás Maduro em janeiro, magnatas do petróleo e das criptomoedas correram para Caracas em busca de negócios.

Em Cumaná, Venezuela, em 13 de maio de 2026, pessoas se reúnem ao redor de um riacho poluído para encher recipientes com água Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT
Cumaná conta uma história bem diferente — a da economia devastada do resto do país, cuja reconstrução pode levar gerações.
Em maio, a reportagem recorreu o leste da Venezuela de carro, do amanhecer ao anoitecer, passando por mais de 20 postos de controle militares e policiais, para ver de perto as condições de vida nos arredores da capital.
“Sabe aqueles ataques com mísseis na Ucrânia de que tanto falam?”, disse José Luis Sánchez, de 56 anos, presidente da Associação de Economistas de Cumaná, um grupo empresarial. Com um toque de humor negro, acrescentou: “Às vezes dizemos que nossa cidade parece Kiev”.
Mas não foram os bombardeios que devastaram grande parte de Cumaná. A culpa, dizem críticos do chavismo, recai sobre um regime de partido único, a gestão econômica desastrosa e campanhas de vingança ideológica.
Quando Hugo Chávez ascendeu ao poder há 27 anos, Cumaná figurava, ao lado de outros polos industriais como Ciudad Guayana e Valência, como um dos principais responsáveis por transformar a Venezuela em uma potência regional. Cumaná era um epicentro da indústria pesqueira e de conservas para toda a bacia do Caribe, processando uma quantidade impressionante do atum e da sardinha consumidos em toda a América do Sul.

Homens coletam água de um riacho poluído em Cumaná, Venezuela, em 13 de maio de 2026. O acesso à água potável é extremamente limitado na cidade Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT
Os estaleiros que construíam embarcações de pesca comercial prosperavam. O maior orgulho de Cumaná era uma fábrica da Toyota que produzia Land Cruisers, os lendários veículos com tração nas quatro rodas que se tornaram um ícone na Venezuela.
Então, Chávez iniciou uma onda de estatização de empresas privadas, um pilar fundamental em seu plano de construir uma economia socialista. Cumaná e o Estado vizinho de Sucre, um bastião chavista, tornaram-se um laboratório para esses esforços.
As expropriações, inicialmente destinadas a garantir a segurança alimentar interna, privaram a indústria de conservas de Cumaná de capital privado. O colapso da produção em outras empresas estatais na Venezuela privou as fábricas de conservas do que elas mais precisavam: latas de metal.

José Luis Sánchez e Reina Gedeon, da Associação de Economistas de Cumaná. “Às vezes dizemos que nossa cidade se parece com Kiev”, disse Sánchez Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT
Muitas fábricas de conservas agora operam com dificuldades, estão temporariamente fechadas ou completamente abandonadas, como uma no bairro de Caigüire, contribuindo para o cenário de ruína de Cumaná.
A fábrica de montagem da Toyota, paralisada repetidamente por greves apoiadas pelo governo e impasses sindicais, reduziu suas operações gradualmente. A espiral da hiperinflação na economia, há uma década, finalmente forçou o fechamento da fábrica e de todo o seu ecossistema de fornecedores locais.
Com seu setor manufatureiro devastado, Cumaná agora depende, como grande parte do país, do governo venezuelano para suas necessidades básicas.
Mas isso não está funcionando.

Pescadores descarregam sua pesca de um barco em Cumaná, Venezuela, em 14 de maio de 2026. Em seu auge, a cidade processava uma quantidade enorme do atum e das sardinhas consumidos na América do Sul Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT
Escassez de água e de presença do Estado
Um deslizamento de rochas em fevereiro dentro de um túnel no reservatório que abastece Cumaná provocou um colapso em todo o sistema. Incapazes de resolver o problema, as autoridades ordenaram um severo programa de racionamento com o objetivo de preservar a água que pudesse ser transportada por caminhões.
Cenas de caos agora acompanham a chegada desses caminhões, com moradores implorando, às vezes gritando, para que lhes permitam encher galões de plástico. Soldados com fuzis semiautomáticos empunham armas, prontos para evitar confrontos.
Quando os caminhões públicos não chegam, caminhões-pipa particulares suprem a demanda. Mas a inflação fez com que os preços da água disparassem, com um único galão de 20 litros custando até US$ 8 — um fardo significativo para famílias que já sobrevivem com baixos salários e um subsídio mensal de US$ 240 do governo.

Pessoas enchem garrafas em reservatórios comunitários de água instalados em resposta à crise hídrica em Cumaná Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT
Aqueles que não podem comprar água engarrafada são obrigados a caminhar até pontos de coleta públicos ou poços improvisados. Comércios fecharam as portas. Escolas suspenderam as aulas porque as instalações não têm água para saneamento básico e banheiros.
Yamileth Sotillo, de 43 anos, empregada doméstica que mora em Brisas del Golfo, um assentamento irregular, disse que esperava que as coisas melhorassem depois que as forças americanas capturaram Maduro em janeiro e o substituíram por Delcy Rodríguez, sua vice-presidente.
Mas a crise hídrica piorou muito uma situação que já era ruim, disse ela.
“Todavía no se ve queso en la tostada”, disse Sotillo, usando uma expressão popular venezuelana que pode ser traduzida livremente como “Você ainda não vê queijo na torrada”.
Em outras palavras: a situação ainda não melhorou.

Yamileth Sotillo, uma empregada doméstica que vive em Brisas del Golfo, um assentamento irregular em Cumaná, Venezuela, em 12 de maio de 2026. Sotillo disse que esperava que as coisas melhorassem depois que as forças americanas depuseram o presidente do país em janeiro Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT
Medo da ditadura
Outros moradores de Brisas del Golfo disseram ter medo de falar com um repórter. Afirmaram que ainda temiam represálias dos líderes do Conselho Comunal, a célula organizacional na Venezuela que administra o governo local e serve como os olhos e ouvidos do partido governante nas ruas.
Os líderes do Conselho monitoram postagens em redes sociais e conversas do dia a dia, disseram esses moradores, e podem limitar subsídios como alimentos básicos ou combustível para cozinhar se acreditarem que alguém está sendo desleal ao Estado.
Outro símbolo trágico da disfunção de Cumaná é o campus da Universidade do Oriente, fundada em 1958, quando a Venezuela entrou em um período de renovação democrática. Situada em uma colina com vista para o Caribe, tornou-se um dos mais importantes centros de pesquisa marinha da América Latina.

Em Cumaná, Venezuela, em 14 de maio de 2026, pessoas aguardam em filas que duram dias para abastecer seus carros com gasolina. A decadência da cidade simboliza a disparidade entre a capital, Caracas, que está em ascensão, e grande parte do interior do país Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT
Uma universidade saqueada
Outrora com mais de 15 mil alunos, agora está praticamente em ruínas. Após se tornar um centro de protestos antigovernamentais, as autoridades locais retaliaram há cerca de uma década, permitindo que saqueadores roubassem itens como fios de cobre, aparelhos de ar-condicionado, acessórios de banheiro e canos, disseram ex-professores e alunos.
Quando os protestos reacenderam alguns anos depois, os saques também.

Os edifícios vandalizados da Universidade do Oriente, outrora um dos mais importantes centros de pesquisa marinha da América Latina, em Cumaná, Venezuela Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT
Trabalhando à noite, os saqueadores ateavam fogo em livros para poderem ver o que estavam roubando, disseram ex-funcionários da universidade. Um incêndio destruiu milhares de volumes na Biblioteca Central, contaram eles, cujas páginas carbonizadas ainda podem ser vistas hoje.
Agora, prédio após prédio no campus parecem ter sido destruídos por ataques de drones. Restam apenas cerca de 2.000 alunos, estudando em estruturas construídas às pressas, agrupadas ao redor da entrada da universidade.
O colapso dos sistemas de água e educação são apenas alguns dos problemas em Cumaná, que reivindica o título de cidade mais antiga da América do Sul continuamente habitada por europeus, antecedendo a fundação de Caracas em mais de meio século.

Homens carregam um recipiente com água por um beco em Cumaná, Venezuela, em 12 de maio de 2026 Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT
Em um lixão a céu aberto perto de hotéis decadentes que outrora recebiam turistas em busca de sol, idosos catam comida, lenha e latas de alumínio para reciclagem.
Assim como em outras partes do país rico em petróleo, fora de Caracas, a energia elétrica cai por várias horas quase todos os dias.
Isso transforma algo corriqueiro, como ir a um shopping center, em uma experiência surreal.
Por volta do meio-dia de um dia recente, no shopping Hipergalerías, o estacionamento estava completamente às escuras, obrigando os que chegavam de carro a usar as lanternas dos celulares para encontrar o caminho.

Carla Rodriguez, de 18 anos, e Carladys Ramos, de 8, procuram água em Brisas del Golfo, um assentamento irregular em Cumaná Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT
Dentro do shopping, escadas rolantes e elevadores haviam parado de funcionar. Sem ar-condicionado e com temperaturas externas próximas a 32 graus Celsius, a estrutura cavernosa parecia uma sauna.
Mesmo assim, alguns compradores circulavam. A maioria das lojas estava às escuras, mas algumas, com seus próprios geradores, permaneceram abertas.
“Obviamente, isso é terrível para os negócios”, disse Taís Mago, de 35 anos, gerente de um restaurante no shopping que precisa fechar as portas sempre que há apagões.

Crianças com recipientes de água após enchê-los em um riacho próximo em Cumaná Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT
Em outras partes de Cumaná, murais pró-governo cobrem paredes por toda a cidade, como se para lembrar às pessoas quem ainda está no comando. Embora as imagens de Hugo Chávez tenham desaparecido em grande parte de Caracas, elas ainda são onipresentes em Cumaná.
Os slogans parecem falar de outra realidade: “O turismo é a arma secreta do novo modelo econômico da Venezuela.” “A esperança está nas ruas.” “Quando há determinação, nada é impossível.”
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