Redes Sociais e a armadilha dos “achadinhos”

É quase irresistível: em meio à rolagem infinita do feed nas redes sociais, brota magicamente algum post com o título “Coisas que eu não sabia que precisava até comprar e usar”. Você arrasta pro lado e vê um descascador elétrico, um spray que desamassa roupas em segundos, uma minilavadora de calcinhas e uma mesa que vira estante. Aparecem ainda um apoio de punho fofo em formato de nuvem, uma touca que alivia a enxaqueca em segundos, xícaras de café comestíveis e outras bugigangas. É tudo tão tentador que eu mesma já caí nessa armadilha algumas vezes. Curti, salvei o post, comentei “quero” para receber o link dos produtos e cheguei às últimas consequências: não só coloquei o item no carrinho como cliquei em “comprar”.

Esse ciclo que o gatilho de consumo provoca se repete a cada publicação sensacionalista com ofertas de inutensílios que eu nem imaginava que existiam, mas que agora parecem itens de primeira necessidade. A princípio, parece uma bagatela, mas, de grão em grão, a fatura enche o papo – e é o seu “eu do futuro” que vai precisar lidar com as compras feitas por impulso naquele app de coisas baratinhas (você sabe qual).

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O nosso modo de usar as plataformas digitais tem trazido prejuízos não só para a saúde mental, mas também para o bolso: elas viraram mais um ralo por onde o dinheiro escorre sorrateiramente. A ilusão romântica das redes sociais como lugares amistosos de interação está se desfazendo diante dos nossos olhos com o avanço do marketing de influência. As live shops (lives de vendas) – transmissões em que produtos são vendidos em tempo real – deixaram isso escancarado: as redes sociais são, mais do que nunca, espaços de comércio.

É nesse shopping onde a publicidade se confunde com a privacidade que influenciadores vendem um estilo de vida – e todos os acessórios que o compõem. Eles mostram a própria rotina e o interior de suas casas, onde tudo está impecável, e a gente fica se comparando. Basta um conteúdo aparentemente inofensivo sobre como decorar um cômodo para a gente começar a achar que a própria casa é insuficiente – porque bonita, mesmo, é a casa da fulana, que tem um poder aquisitivo três vezes maior que o seu. Não bastasse a internet ter deixado a gente insatisfeita com nossos corpos, agora ela está deixando a gente infeliz até com nossos lares, que deveriam ser zonas de conforto, e não de ansiedade.

A casa também virou vitrine

Para suprir essa carência da casa ideal, existem perfis inteiros dedicados só a “achadinhos” de gigantes do e-commerce, cujo conteúdo é basicamente uma lista de produtos “baratinhos” que vão dar aquele ar de sofisticação e organização que faltava na sua humilde residência – para ela virar uma versão genérica da mansão da sua influenciadora favorita.

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Os números dão a dimensão do fenômeno: a hashtag #achadosdasemana já passa de 3,4 milhões de posts; #acheinashopee soma 2,2 milhões; #casaorganizada, 2,5 milhões. Um post reunindo “itens para home office” acumula 23 mil curtidas e 20,5 mil comentários pedindo o link no direct (confesso: um deles é meu). Um vídeo que abre perguntando “você ainda usa papel higiênico em 2026?” para, na sequência, oferecer cupom de desconto para um vaso sanitário automatizado com ducha de água quente e secador soma 35,5 mil curtidas e 67,7 mil compartilhamentos.

Esses perfis de achadinhos não param no post: eles nos puxam para grupos no WhatsApp e no Telegram, onde os links de produtos não param de chegar, nos mantendo nesse esquema de consumo. E quanto mais a gente interage com esse tipo de conteúdo nas redes – curtindo, salvando, comentando –, mais o algoritmo nos entrega essas publicações, mesmo sem a gente seguir esses perfis.

Por trás de chamadas como “Meu banheiro parece o da Virgínia, mas é de uma CLT que aprendeu a comprar na Shopee”, ou “Meu apê é pequeno, sim, mas fubanga, nunca!” mora uma mensagem sutil: a sua casa precisa se encaixar num padrão estético também. E não é só a estética que pesa, é a moral por trás dela. “Preguiçosa, sim; porca, jamais”, diz um vídeo que ensina a higienizar o banheiro em 10 minutos com um produto milagroso. O que se diz nas entrelinhas é: está liberado se dedicar menos à faxina, contanto que você compre o item certo para dar conta – porque você precisa dar conta de tudo sempre, não importa o quão corrida seja sua rotina.

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Por que a bagunça virou sinônimo de fracasso?

Isso me fez lembrar da entrevista que fiz com Carol Ferraz, personal organizer e mestra em ciências da comunicação, cuja pesquisa investiga bagunça, consumo e comportamento. Carol lembra que a relação entre organização e valor moral não é nova, mas mudou com o tempo. Ela cita a diferença entre A Feiticeira, série de 1964, cuja protagonista vive numa casa sempre impecável, e O diário de Bridget Jones, filme de 2001, em que a desordem na casa da personagem acompanha a bagunça de sua vida amorosa. “Antigamente, era impensável ver uma mulher bagunçada na ficção”, disse a pesquisadora. Mas o discurso por trás continua o mesmo: “Se a mulher está desorganizada, é porque alguma coisa não deu certo na vida dela, ela está falhando”.

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Carol Ferraz observa que, por mais que a gente sinta que já se livrou de muitas pressões domésticas do passado, a cobrança por manter a casa em ordem não desapareceu. “Sempre surgem novas formas de a mulher otimizar a limpeza e organização da casa, mas nunca a opção de ela simplesmente não fazer ou de compartilhar as tarefas.”

O mais intrigante é como essa mesma lógica se reproduz até entre as novas gerações, mas com outra roupagem. “Hoje, o discurso é sorrateiro, está disfarçado de aesthetic. Você vê, por exemplo, uma trend do TikTok que mostra um método de organização para estudar para o vestibular envolvendo post-its e marca-textos de diversas cores. Quem faz esse conteúdo? São meninas, adolescentes que já estão socializadas nisso”, contou a pesquisadora. E quase nenhuma de nós escapa dessa mania: “Para as mulheres, a bagunça é vergonha e culpa. Mesmo as que ocupam altos cargos sentem que falharam se a casa não está arrumada. E se a mulher branca é julgada pela desordem, a mulher negra sofre o dobro, pois historicamente é ela quem organiza a casa do outro além da sua própria.”

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Para Carol, a estética é mais um jeito de mascarar o peso da economia do cuidado – esse trabalho invisível e não remunerado que recai de forma desigual sobre as mulheres. “Começa um movimento de compartilhamento de dicas de organização entre mulheres nas redes sociais porque elas estão no mercado de trabalho, precisam ganhar tempo nas tarefas domésticas. A organização faz com que elas sintam que conseguem manter a casa e o trabalho.” Foi aí que entrou a febre dos itens organizadores. “Você não tem tempo para arrumar tudo. Então, coloca as coisas espalhadas numa caixa bonita, toda chiquezinha”, afirma a pesquisadora.

É simples assim: a bagunça que os olhos não veem, o coração não sente. Mas, para varrer a sujeira para debaixo do tapete, é preciso comprar o tapete – ou seja: gastar dinheiro com itens e mais itens de organização. A existência feminina, segundo Carol Ferraz, está profundamente atrelada ao consumo de modo geral, mas especialmente de objetos para casa. “A gente compra coisa para organizar coisa. Mas as casas de hoje não têm espaço para essa quantidade de treco. Se a gente não tem mais uma vida 100% dedicada à casa, por que queremos manter uma rotina de organização e limpeza como se estivéssemos nos anos 50?”, questiona.

A neura da limpeza vai sumir algum dia?

Em um mundo em que o valor da mulher ainda está atrelado à organização da casa, é difícil resistir à pressão estética da sala de estar instagramável. Ainda assim, Carol não descarta o avanço: “A gente está caminhando, só que devagar. Minha mãe passava até os panos de prato, já eu nem tenho ferro de passar. Isso é bastante simbólico”. O problema é que, segundo ela, movimentos conservadores tentam empurrar a gente de volta para o modo Amélia (ou tradwife).

Para a pesquisadora, a discussão não deveria ser sobre otimizar o tempo da faxina, mas sobre entender que não precisa ser feita com tanta frequência. Ela lembra ainda de um dado que coloca esse excesso em perspectiva: o Brasil é um país com alto índice de intoxicação por produtos de limpeza. “A gente literalmente corrói os pulmões com água sanitária.”

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A saída, na visão da especialista, passa por silenciar as vozes da nossa cabeça que nos culpam pela louça na pia. “Permita-se deixar a casa um pouco desorganizada. No dia em que a gente começar a mostrar a casa como ela é de verdade, vai ser uma revolução”, afirmou. Além disso, o caminho é trocar a performance pelo acolhimento. “Uma mulher que vê outra saindo com a roupa amassada pode pensar: ‘talvez eu também possa’. Precisamos dialogar para criarmos juntas esses espaços de respiro”, disse Carol.

A virada mais concreta, segundo ela, vai acontecer quando mulheres ocuparem mais posições de autoridade. “O mundo ainda é dominado por homens brancos que precisam manter as mulheres no trabalho doméstico para que eles possam realizar os próprios sonhos. A casa é um ambiente de aprisionamento da mulher, infelizmente. A grande mudança vai acontecer quando a gente estiver em espaços de poder na política e nas empresas.”

A casa como ela é

Se, por um lado, o feed segue empurrando casas aesthetic e produtos milagrosos, por outro, já dá para notar um contramovimento de criadores de conteúdo decididos a mostrar lares reais. Posts que nos lembram que uma casa normal tem coisas fora do lugar – e tá tudo bem. É surpreendente ver nas redes sociais fotos de panelas desgastadas, de fronha e lençol descombinados na cama e um armário com roupas emboladas. Quando é que a gente passou a estranhar o que vemos todos os dias em nossas residências? Nenhuma casa real é perfeitamente alinhada, nem precisa ser.

O problema não é querer uma decoração bonita e uma rotina organizada ou comprar coisas de vez em quando. O problema é quando a vida real passa a parecer defeito diante da vitrine virtual. Então, da próxima vez que você vir um post com o título “coisas que eu não sabia que precisava”, vale lembrar: muito provavelmente, você não precisava mesmo.

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