Quem vai parar o cometa Haaland? Defesa do Brasil tem números capazes de conter velocidade do artilheiro da Noruega

Gabriel Magalhães costuma ser o principal marcador de Haaland quando Arsenal e Manchester City se enfrentam na Inglaterra. No domingo, quando o Brasil encarar a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo, a missão será dividida. Levantamento do GLOBO, com base nos relatórios da FIFA, mostra que Carlo Ancelotti dispõe de um sistema defensivo em que cada peça oferece uma arma diferente para conter o camisa 9 adversário.

Gabriel leva vantagem nos duelos físicos e nas coberturas, Danilo é quem mais se aproxima de Haaland em velocidade, Marquinhos é o zagueiro mais rápido da equipe, Douglas Santos se destaca pelo volume de ações em alta intensidade, enquanto Casemiro e Bruno Guimarães têm a missão de impedir que o atacante receba a bola em condições de acelerar.

Os números ajudam a explicar por que Haaland é considerado um dos atacantes mais difíceis de marcar no futebol mundial. Nas três partidas disputadas pela Noruega, o centroavante registrou média de 35,3 km/h de velocidade máxima, com pico de 36,5 km/h na estreia contra o Iraque. Também percorreu, em média, 343 metros acima de 25 km/h, realizou 37 sprints e 80 corridas em alta velocidade por jogo.

Mais do que atingir grandes velocidades, o norueguês impressiona pela capacidade de repetir arrancadas durante os 90 minutos, atacando constantemente os espaços às costas da defesa. É justamente esse tipo de movimento que a seleção tentará neutralizar.

— No aspecto tático, não jogamos com marcação individual. Temos uma defesa coletiva. Obviamente Gabriel está mais posicionado perto dele (Haaland). Mas a defesa tem de ser coletiva, e não apenas individual — disse Ancelotti, em entrevista à Folha de São Paulo. — Estamos trabalhando nisso há um ano, o Gabriel pode contar com a ajuda dos outros. Mas nossa preparação para o jogo contra a Noruega não está focada apenas no Haaland.

Haaland x jogadores da defesa da seleção brasileira — Foto: Editoria de Arte

Magalhães revê ‘fantasma’

Gabriel Magalhães deverá protagonizar os confrontos mais diretos com Haaland. O zagueiro do Arsenal já enfrentou o atacante diversas vezes na Inglaterra e conhece de perto sua combinação de força física, explosão e ataques à profundidade.

O embate entre os dois, inclusive, costuma soltar faísca na Premier League. No capítulo mais recente da rixa, na vitória por 2 a 1 do City, no dia 19 de abril, Haaland marcou o gol decisivo e travou com Gabriel uma batalha em campo: teve puxões, empurrões, a roupa térmica do norueguês rasgada e, nos minutos finais, uma encarada em que o brasileiro encostou a cabeça no adversário. Ambos levaram amarelo.

Já em setembro de 2024, após o gol de empate do City nos acréscimos de um 2 a 2, o atacante recolheu a bola dentro da rede e a arremessou contra a parte de trás da cabeça do brasileiro, que estava de costas.

Rivalidade à parte, dados da Fifa mostram que a principal virtude de Gabriel Magalhães está menos na velocidade máxima e mais na capacidade de sustentar intensidade durante toda a partida. Na Copa, o brasileiro percorre, em média, 10,2 quilômetros por jogo e registra 104,8 corridas em alta velocidade, números que refletem sua capacidade de realizar coberturas, recuperar posições e repetir deslocamentos em intensidade. Essa resistência, aliada ao porte físico e ao jogo aéreo, faz do defensor uma peça importante para limitar os movimentos do camisa 9.

Mas o histórico não é bom. Gabriel Magalhães tem em Haaland seu adversário mais difícil na Premier League, e não só pelas provocações. Levantamento do Bolavip Brasil, com base em dados da Opta, mostra que o brasileiro venceu apenas 10 dos 26 duelos diretos travados com o atacante do Manchester City desde a temporada 2022/23, um aproveitamento de 38,5% — o pior entre os 12 atacantes que mais enfrentou na competição. A diferença é expressiva. Contra os demais adversários, Gabriel registra média de 68% de vitórias nos duelos, índice que cai praticamente pela metade diante de Haaland. O segundo pior retrospecto é contra Raúl Jiménez, com 60,9%, seguido por Callum Wilson (61,9%).

Os números também mostram que Haaland eleva seu rendimento justamente diante do zagueiro brasileiro. O norueguês venceu 61,5% dos duelos contra Gabriel, percentual bem superior à média de 45,4% registrada diante dos outros oito defensores da Premier League com quem disputou ao menos dez duelos. Contra William Saliba, parceiro de Gabriel no Arsenal, por exemplo, Haaland vence apenas 29,1% das disputas.

— O Magalhães é um jogador incrível, acabou de ganhar a Premier League. Então, todo respeito a ele, mas não se esqueça do Marquinhos, que venceu a Champions League duas vezes seguidas. Não se esqueça também que o Alisson ganhou todos os troféus. Não é só o Magalhães, toda a equipe do Brasil é muito boa, e a defesa é muito boa — destacou Haaland em entrevista à CazéTV.

O levantamento do GLOBO, porém, revela um dado pouco intuitivo. Entre todos os defensores brasileiros, Danilo é quem apresenta o perfil físico mais próximo ao de Haaland. Como entrou apenas no segundo tempo da estreia contra o Marrocos, sua média de distância percorrida acaba reduzida em relação aos demais defensores. Os indicadores ligados à velocidade, no entanto, contam outra história.

Danilo alcançou 34,2 km/h diante da Escócia, marca ligeiramente superior aos 34,1 km/h registrados por Haaland contra a Costa do Marfim. Também apresenta média de 43,3 sprints por partida, acima dos 37,3 do atacante, além de 100,5 ações em alta velocidade, contra 80 do norueguês. Na distância percorrida acima de 25 km/h, Danilo é quem chega mais perto: 331 metros para o lateral brasileiro e 343 metros para Haaland.

Os números não significam que Danilo seja mais rápido do que o atacante da Noruega. Haaland mantém vantagem tanto na velocidade máxima quanto na capacidade de repetir picos elevados ao longo da Copa. Eles mostram, porém, que o camisa 13 reuniu características físicas nos últimos jogos exigidas para acompanhar um atacante que vive de atacar a profundidade em explosão.

Velocidade, cobertura e pressão

Marquinhos acrescenta outra qualidade importante. O capitão é o zagueiro mais veloz da seleção, tendo atingido 33,8 km/h contra o Japão, característica importante para recuperar posições quando o norueguês atacar os espaços. Pelo lado esquerdo, Douglas Santos lidera a defesa em volume de deslocamentos de alta intensidade, com média de 128,3 ações em alta velocidade, 42,5 sprints e 567 metros percorridos entre 20 e 25 km/h por partida. Sua contribuição está menos na velocidade máxima e mais na capacidade de repetir ações intensas durante os 90 minutos.

— Haaland faz muitos gols. Mas estamos tentando eliminar as qualidades dele, principalmente dentro da área — acrescentou o lateral Douglas Santos, um dos responsáveis por tentar parar o cometa norueguês.

A proteção ao norueguês, contudo, começa antes mesmo da linha de defesa. Casemiro e Bruno Guimarães terão papel decisivo para impedir que Martin Odegaard encontre o atacante em condições de acelerar. A missão dos volantes será reduzir os espaços para os passes verticais e obrigar a Noruega a construir por zonas menos perigosas. Mais do que vencer Haaland em uma corrida, o desafio do Brasil será impedir que ela aconteça.

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