Aos 25 anos, Edilson da Graça ainda carrega o impacto das agressões sofridas na escola por ser transgénero, num dos casos relatados por cabo-verdianos LGBTI+, enquanto instituições preparam novas ações de formação contra o preconceito.
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“Tinha um episódio que me marcou, que eu não tiro da cabeça. Estava sentado num daqueles escorregas no parque e chegaram dois colegas e arrastaram-me pelo chão. Fiquei com muitos hematomas, fui parar ao hospital inconsciente. Isso mexeu muito com o meu psicológico. Ainda continuo a lembrar”, recorda à Lusa Edilson da Graça.
Desde criança, ainda no ensino básico, começou a perceber que era “diferente” e foi alvo de episódios de ‘bullying’, que se prolongaram pelo ensino secundário.
Na altura, não tinha ninguém com quem falar abertamente na família e contava sobretudo com algumas colegas e uma professora, que foi uma das principais fontes de apoio numa fase em que já enfrentava crises de ansiedade.
Edilson afirma que nem todos os professores reagiram da mesma forma e que alguns chegavam a troçar dele, mas, apesar das agressões, nunca deixou de frequentar a escola.
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Aos 18 anos, decidiu assumir-se como transgénero, depois de sentir que vivia “uma vida às escondidas”.
Hoje, aos 25 anos, diz continuar a enfrentar situações de preconceito, embora considere que aprendeu a lidar com elas de outra forma.
“Ainda sofro, mas já me adaptei, transformei esse preconceito numa força”, afirma.
Para Edilson, as escolas devem ter regras para responder à discriminação, incluindo leis para proteger quem é alvo de preconceito.
“Todos devem viver livremente. Para mim, isso é como respirar”, disse, defendendo ainda que a mudança deve envolver as famílias para haver mais respeito pela diversidade.
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Também Matias Antunes, de 49 anos, que é ‘gay’, recorda uma experiência escolar marcada pelo preconceito.
Começou a perceber aos 13 anos que “era diferente” e era frequentemente alvo de ‘bullying’ entre os rapazes.
Uma das situações que mais o marcou aconteceu durante os preparativos para uma festa escolar, quando um rapaz o insultou por estar a decorar uma sala com outras alunas.
Matias considera que a violência física afeta sobretudo os homens, embora recorde que as alunas lésbicas da sua escola também foram vítimas.
A experiência de Jailson Barbosa, de 33 anos, homossexual, começou igualmente nos primeiros anos do ensino básico.
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No secundário, tornou-se alvo de chacota, sobretudo quando vestia roupas que os colegas consideravam femininas.
Numa ocasião, foi empurrado de uma escada e ficou com um braço bastante inchado.
“À saída, fui ameaçado pelos mesmos colegas. Já tive medo de ir para a escola e ser agredido”, recorda.
Jailson apresentou uma queixa à direção, mas nunca pensou abandonar os estudos e contou com o apoio de alguns professores.
Hoje considera que existe mais informação e que as escolas estão mais preparadas, mas defende a continuidade do trabalho sobre respeito e empatia.
As experiências de Edilson, Jailson e Matias atravessam diferentes gerações, mas têm em comum a escola como um dos primeiros espaços onde sentiram o preconceito.
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A professora Carla Barbosa reconhece que continuam a ocorrer situações de discriminação e identifica uma incidência particular sobre rapazes com comportamentos considerados femininos.
Para a professora, parte desse comportamento está ligada a ideias tradicionais sobre os papéis atribuídos a homens e mulheres.
Essas normas também podem atingir raparigas que não correspondem às expectativas tradicionais sobre o comportamento feminino, incluindo jovens lésbicas, embora os relatos de agressão física recolhidos pela Lusa incidam sobretudo sobre homens.
Neste sentido, Carla Barbosa defende que a formação deve envolver docentes, famílias e sociedade.
“A escola não funciona sozinha. A escola é três pilares: família, sociedade e a própria comunidade educativa”, afirma.
A presidente da Associação LGBTI da capital cabo-verdiana, Sandra Tavares, diz que a organização recebe regularmente relatos de discriminação no setor da educação, incluindo casos de insultos, ‘bullying’ e agressões, embora sem registo de dados, apontando que algumas situações levaram jovens a afastarem-se ou a abandonar a escola.
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A associação acompanhou ainda casos em que, após agressões, foi necessária a intervenção da Polícia Nacional para evitar novos ataques. Outros casos foram encaminhados para acompanhamento psicológico.
Sandra Tavares defende uma resposta que combine informação, acompanhamento psicológico e intervenção junto das vítimas e dos autores das agressões, incluindo um protocolo nas escolas para responder rapidamente a situações de discriminação.
A presidente do Instituto Cabo-verdiano para a Igualdade e Equidade de Género (ICIEG), Marisa Carvalho, reconhece que o preconceito contra pessoas LGBTI+ continua “muito presente” nas escolas cabo-verdianas, embora o instituto não disponha de registos formais de denúncias.
O ICIEG recolhe sobretudo relatos durante ações de sensibilização e capacitação, alguns relativos a situações vividas ainda na infância.
O instituto tem trabalhado com organizações da sociedade civil e parceiros espanhóis na formação de professores sobre orientação sexual, identidade de género, preconceito e discriminação.
“É necessário que se abordem estas temáticas, que se denunciem os casos de discriminação e perseguição”, afirma.
Em julho, a organização Altihay Fuerteventura – Coletivo LGTBI+ das Canárias anunciou uma segunda fase de formação nas escolas, após professores cabo-verdianos terem relatados preconceitos contra alunos.
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O projeto, desenvolvido em parceria com o Ministério da Educação, começou em novembro de 2025 e já abrangeu professores das ilhas de Santo Antão, Sal, São Vicente, Santiago e Maio.
A segunda fase deverá abranger mais ilhas a partir de outubro.
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